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Segurança é muito chato

Por Jeremy Clarkson - 28 mar 2014, 12h55

Muitos anos atrás recebi um folheto que dizia: “Você está convidado para a inauguração do maior restaurante de Birmingham”. Isso me deixou confuso, porque as pessoas tendem a dizer que preferem ir a um restaurante indiano ou uma pizzaria, ou algum lugar quente e aconchegante. Nunca ouvi alguém falar: “Sabe o quero fazer hoje à noite? Quero ir a um lugar realmente grande”. Nesse caso, tamanho simplesmente não é um argumento de venda.

Era basicamente a mesma história com carros. Antigamente, na Europa, se você quisesse um carro esportivo, comprava um BMW. Se quisesse algo confiável, comprava um Volkswagen. Se desejasse um veículo durável, adquiria um Mercedes-Benz. E, se a sua preocupação principal fosse com a segurança, escolhia umVolvo. Isso era um problema para todos os outros fabricantes, porque essas quatro marcas cobriam todos os fatores importantes. Lembro-me, na Audi, de um publicitário com suas mãos na cabeça, explicando que não havia outras razões para escolher um modelo em vez de outro. As pessoas podiam ver um anúncio inteligente sobre como chegar à praia mais rápido do que um alemão ou comentar um teste rigoroso na revista Autocar, mas no fim das contas elas queriam somente um desses atributos: segurança, durabilidade, esportividade ou confiabilidade. E eles já estavam “ocupados”.

Mas as coisas mudaram: a Mercedes começou a fazer hatches compactos, a BMW adotou o motor a diesel, a Volvo passou a correr em campeonatos de turismo e hoje, se você quiser ter um carro confiável na Europa, não precisa comprar um VW. Ele pode ser de qualquer marca. Exceto Citroën. Ou Peugeot.

A indústria automobilística se tornou um grande borrão indistinto, onde todos têm a oferecer algo para cada preferência. Um dos carros mais esportivos fabricados hoje em dia é um Nissan, e um dos menos é um BMW. O carro mais durável que conheço é um Toyota, e o menos talvez seja um Mercedes de dez anos atrás. E no meio disso tudo temos a Volvo, que continua a enfatizar ser a opção lógica para quem busca segurança. De fato, seus engenheiros anunciaram recentemente que estavam trabalhando em uma série de desenvolvimentos que permitiriam que, em breve, fosse impossível alguém sofrer um acidente fatal dentro de um produto daVolvo.

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Como regra geral, eu detesto segurança. Ela me deixa nervoso, porque quando eu me sinto seguro tenho uma dúvida incômoda de que eu não posso estar me divertindo de verdade. Como regra geral, as duas coisas são mutuamente exclusivas. Acho ridícula a afirmação da Volvo de que em breve ninguém sofrerá um acidente fatal nos seus carros: e se você estiver andando com seu V70 pela rua e um meteoro esmagar seu teto? E se houver um terremoto? A Volvo considerou todas essas possibilidades?

Mas leve em conta que parece que eles realmente pensaram em praticamente todas as outras possibilidades. Especialmente na proteção daqueles que estão em ambientes menos afortunados. Porque o carro que acabei de dirigir – um V40 T5 R-Design – foi projetado para garantir que você não consiga atropelar ninguém e que, como por milagre, o pedestre envolvido vá embora agradecendo-o muito por lhe proporcionar esse momento divertido.

Para isso, há sensores que varrem a via à frente do veículo, procurando por pessoas que você poderia estar prestes a atropelar. Soam alertas sonoros e, se você ignorá-los, o carro freia sozinho. E, se isso não funcionar e você atingir a pobre alma desafortunada, a dianteira do carro se transforma em um castelo inflável (como aqueles de festas infantis), garantindo que ele não só caia sobre algo macio, mas também de forma divertida.

Creio que seja impossível testar essas alegações no mundo real, por isso não posso informar objetivamente se isso funciona ou não. Mas posso ponderar um pouco sobre a questão: toda essa tecnologia custa dinheiro. O que significa que você estará pagando a mais pelo bem-estar de outras pessoas. Em uma sala escura, quando não houver ninguém por perto, você pode ficar se perguntando sobre isso. Você pode até decidir, por sua vez, comprar um VW Golf GTI. E usar o dinheiro que economizar em umas férias de luxo com sua família em Barbados. Isso pode deixá-lo muito feliz.

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E você continuaria feliz. Até o momento em que, mesmo sem ter qualquer culpa, atropelasse uma criança e ela viesse a falecer. Então você, diante de uma vida de vergonha e arrependimento, poderia ficar pensando se, talvez, o Volvo não tivesse sido uma escolha mais sensata. Esse é, claro, o problema com a segurança. Você não a quer em sua vida, até o exato momento em que ela faz falta. De qualquer forma, a Volvo não se preocupa só com as outras pessoas. Ela diz que faz um trabalho muito bom para cuidar de você – e do bônus do seu seguro também. Por exemplo, quando você está saindo de ré para a rua, será alertado se o automóvel detectar tráfego vindo em sua direção. De novo, é algo que não consegui testar com facilidade.

Mas experimentei na prática o sistema de frenagem automática. Em velocidades de até 50 km/h, o carro vai parar se achar que você está prestes a bater em algo. Um recurso que certamente funciona muito melhor do que o site inglês da empresa – que simplesmente não funciona; ele parece nem mesmo saber com certeza se existe uma versão T5 de cinco cilindros com tração nas quatro rodas.

Mas há inúmeros outros detalhes. Como a chave. Você a encaixa em uma fenda na parte superior do painel e então pressiona um botão. Isso é incômodo. Porém, se você acabar se envolvendo num acidente, é um pedacinho a menos de metal saltando da coluna de direção, pronto para acertar seu joelho direito. E foi assim que meu pai perdeu o osso de um dos seus joelhos. Ele perdeu o do outro vários anos mais tarde, ao sair de um Ford Anglia pelo para-brisa.

Mas parece que eu estou quase no fim do meu texto sem falar muito do carro em si. Mas não tem problema. Porque não há muito a ser dito. O carro é muito bonito, gostoso de dirigir, razoavelmente rápido, seu conforto é satisfatório e o espaço interno, apropriado. Ele também é um local agradável de sentar, embora alguns controles sejam indecifráveis. No entanto, ele é fantasticamente caro. Então, vá em frente. Compre o Golf GTI. Seu custo-benefício é bem melhor. E é um carro superior. Mas você terá de dirigi-lo com os dedos cruzados.

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