Porsche? BMW? Que nada!

Eu fico pensando se não ficamos todos loucos no Primeiro Mundo. Porque, quando compramos alguma coisa, sempre escolhemos a opção mais cara, em vez da melhor. Colocamos na cabeça que um conjunto de facas que custe 200 libras vai durar mais e cortar mais do que um de 100. Supomos que a comida de um restaurante caro será melhor do que um Big Mac. Mas alguma dessas coisas é verdade?

Bom, provavelmente não é verdade com um McLanche e definitivamente não é quando se trata de carros. Eu sei disso porque passei mais uma semana com um VW Golf GTI e ele é perfeito. Você pode gastar dez vezes mais em um carro e ele será pior. Isso é fato. Não há o que discutir.

Você pode pensar que a Volkswagen coloca seus melhores e mais brilhantes engenheiros nas empresas de carros de alto luxo que possui: Bugatti, Lamborghini e Bentley. Só que ela não faz isso. Ela usa suas melhores cabeças no Golf, porque ele é o “feijão com arroz” das suas operações. O Golf tem de ser correto.

E ele é correto. Eu dirijo um monte de carros e cada um deles tem pelo menos uma coisinha irritante. O Golf não. O jeito como os bancos deslizam, a sensação dos botões, o peso da direção, tudo está absolutamente certo. Desde que você ignore as dicas de condução ecológica no painel. E, sobre esse ninho de perfeição, temos a versão GTI, que vem com mais potência que você espera – muito mais – e um pomo de câmbio divertido, no formato de uma bola de golfe.

Eu dirigi um Porsche 911 GTS um dia desses e achei que ele era muito, muito bom. Eu também fiquei encantado com o Bentley Continental GT V8 S. Mas o sujeito de Yorkshire em mim se pergunta: “Para quê?”. Porque nenhum desses carros é melhor do que o GTI. Tudo bem, eles são mais potentes, mas vamos ser realistas: quando isso faz algo além de consumir mais combustível? Como a maioria das versões do GTI faz uma média de mais de 17 km/l na Europa, você precisa de um pé muito leve no seu Porsche ou Bentley para economizar mais – a não ser em uma rodovia que passe pelo Monument Valley, no Deserto do Colorado. Em uma estrada montanhosa do País de Gales, na chuva, o VW será mais rápido. Muito mais rápido. Por isso, a conclusão é a seguinte: não importa o dinheiro que tenha para comprar um carro, vá de Golf GTI. Simples assim. Mas será mesmo? Porque, por cerca de 9 000 libras (R$ 42 000) a menos do que o Golf GTI, você pode comprar um Ford Fiesta ST, que, analisando, é ainda mais divertido de dirigir. Mais divertido, na verdade, do que praticamente qualquer coisa que ande em quatro rodas. O carro é uma pequena joia.

É claro que ele é um pouquinho menor do que um Golf, mas quantas vezes isso importa? Você vai a todos os lugares com dois jogadores de rúgbi no banco de trás e um cachorro são-bernardo no porta-malas? Não. Na maior parte do tempo, um carro pequeno e despretensioso como esse é mais prático do que um maior e mais vistoso. Se for dono de um Bentley, vai chegar o dia em que você vai dizer: “Se pelo menos essa coisa fosse um pouquinho menor, eu poderia colocá-lo naquela vaga de  estacionamento, mas agora tenho de gastar uma hora a mais da minha vida procurando uma onde ele caiba”.

É o mesmo caso com o Porsche 911. Chegará um dia em que você, ao sair de uma reunião, vai descobrir que algum vagabundo o riscou com uma chave e ainda entalhou palavrões no teto. Então você vai pensar: “Ah, se eu tivesse comprado um carro um pouco menos chamativo”.

Mas eu não consigo pensar em uma única coisa que vá fazer o dono de um Fiesta ST dizer: “Ah, se eu tivesse…”. A não ser, é claro, que esse dono experimente o novo Fiesta Zetec S Red Edition, que eu dirigi recentemente. Então ele vai dizer: “Ah, se eu tivesse um desses…”.

Assim, de cara, poderia parecer um carro meio ridículo. É chamado de Red porque é vermelho. Há também a versão preta, a Black Edition. Eu sei. Loucura. E fica ainda mais esdrúxulo porque custa 1 250 libras (R$ 5 900) menos que o superrápido ST, mas vem com um motor 1.0 de três cilindros tão pequeno que poderia ser confundido com um apontador de lápis. O bloco – e não estou exagerando – pode ser colocado com folga sobre uma folha de papel A4.

Não fique pensando, no entanto, que, por ser pequeno, ele é fraco. Porque, como qualquer lutador de boxe peso mosca pode lhe mostrar, isso é um erro. Esse motorzinho produz 138 cv! Não é erro de impressão. A Ford conseguiu extrair 138 cv de um motor que tem uma litragem menor do que três latas de cerveja.

Você pode imaginar que ele é uma mistura de retardo (lag) de turbo, buracos na curva de torque e barulhos estranhos. Só que não. Ele faz um barulho tipo “brrrrr”, como se tivesse um cãozinho terrier sob o capô. Eu simplesmente amei. Como também amei a velocidade.

Ele vai de 0 a 96 km/h em 9 segundos e chega a 201 km/h de máxima. E, porque ele é um carro de 1 litro, o seguro na Inglaterra é barato, e a fábrica diz que você consegue fazer mais de 25 km/l com ele.

E eu nem cheguei à melhor parte. Como se trata de um Fiesta, significa que ele tem um chassi absolutamente estupendo. Talvez o chassi do Porsche 918 Spyder seja um pouquinho melhor. E não há dúvida de que a Ferrari 458 Italia também seja melhor. Mas o pequeno Ford está no mesmo patamar – realmente está.

Ele absorve as irregularidades da via como se não existissem, tem uma dianteira com aderência tenaz e uma traseira solta, mas acima de tudo ele te faz sentir – mesmo a meia velocidade – muito feliz. É um carro repleto de alegria, algo raro hoje em dia.

Talvez os controles sejam trabalhosos, e, se pedir alguns dos acessórios eletrônicos, você vai descobrir que eles são extremamente complicados de usar. Mas você pode resolver isso dispensando-os.

O único problema real com este carro é para alguém que, como eu, mora na Grã-Bretanha. Porque, se vender seu Audi, seu Bentley ou sua Ferrari para comprar um – o que você deveria fazer, se tivesse bom senso –, todos os seus vizinhos e amigos pensarão que as coisas estão indo de mal a pior na sua vida e não vão falar mais com você.

Mas isso é porque nós, britânicos, vivemos no Primeiro Mundo. E estamos todos loucos

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