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Tarefa inglória

Por Redação 2 dez 2014, 09h00

Quando alguém decide encarar os seis anos de um curso de medicina, essa pessoa deve estar esperando que um dia acabará fazendo uma pesquisa pioneira sobre alguma doença cardiovascular. O que significa que todo médico plantonista deve estar vivendo uma vida de decepção e arrependimento. Acho que é a mesma história com arquitetos. Ninguém escolhe uma carreira torcendo para terminar projetando banheiros para casas populares. A pessoa quer projetar uma catedral. Ou um grande edifício. Eu sei que, quando decidi ser jornalista, eu me imaginava na linha de frente de uma guerra, desviando de balas e entrevistando líderes militares. Não sentado aqui, descrevendo a suspensão e as características de dirigibilidade do mais recente lançamento ecologicamente correto da Citroën.

Não sei por que aguentamos isso. Por que, quando nossos sonhos são despedaçados contra os penhascos da necessidade, não pulamos de uma ponte e terminamos o sofrimento? Como seguimos em frente? Bom, eu vou contar como sigo em frente: lembro a mim mesmo que poderia estar fazendo algo pior. Que, em vez de escrever sobre carros, eu poderia ter como profissão projetá-los.

Imagine o quanto isso seria terrível. Seu sonho de menino é, um dia, receber a tarefa de projetar o próximo Lamborghini. Em sua mente, ele terá asas e lasers e um sistema que permitirá lançar mísseis contra aeronaves inimigas enquanto rasga o oceano a 400 km/h. Porque, é claro, ele será anfíbio. Óbvio! E o que acontece? Você acaba na Ford desenhando a lente do pisca traseiro da próxima geração do Focus. E tudo o que você pode esperar é que, se sua lente de pisca tiver sucesso, você será escalado para trabalhar no ponto de fixação do cinto de segurança do banco de trás do Fusion. Essa é a ambição que lhe restou.

Recentemente, enquanto viajava pela África do Sul, vi um carro chamado Toyota Avanza. Depois de refletir um pouco, cheguei à conclusão de que é o carro com desenho mais lúgubre de toda a história da humanidade. Entre os itens listados pela Toyota no folheto de vendas está “para-sol para o motorista e o passageiro da frente” – e você sabe que a empresa está raspando o fundo do barril se isso é o que ela tem para propagandear. “Ele tem dois para-sóis! Uau!” E ainda tem “para-lamas” e – olhe só – “porta-objetos espaçosos nas portas”.

Tenho certeza de que é barato, e não costumo errar. E tenho certeza de que há mercado para essa coisa. Mas não vamos esquecer que um pobre-coitado teve de desenhá-lo. Ele devia saber que a carroceria é grande demais para aquele tamanho de roda, mas seus superiores do setor de custos devem ter falado que rodas maiores sairiam mais caro e, na África do Sul, seriam desnecessárias. Especialmente se ele estava planejando a extravagância de dois para-sóis. E porta-objetos espaçosos nas portas.

Eu sinto basicamente o mesmo quando vejo um VW Jetta. Tendo como público-alvo as pessoas que acham o Golf a diesel muito radical e chamativo, esse sedã foi propositalmente “suavizado” ao ponto de passar pelas ruas quase sem ser notado. Alguém que desejava trabalhar na Ferrari foi encarregado de desenhar a tampa do porta-malas. Ele trabalhava até tarde da noite, e todas as manhãs seus chefes diziam: “Não. Tem de ser mais sem graça do que isso”. E ele tinha de começar tudo de novo.

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A única razão pela qual essas pessoas não estão pulando de pontes todo dia é que eles meio que sabem que existe alguma demanda de verdade para seu trabalho. Pessoas com dificuldade de respirar pelo nariz e uma atitude de sabe-tudo compram um Jetta e ficam felizes com isso. Pessoas da África do Sul compram um Avanza e o carro é recebido na família calorosamente, como um filho.

É a mesma história com outros carros medonhos por aí. O sujeito que desenhou o Nissan Juke devia saber o tempo todo que o carro seria muito popular entre aquelas pessoas totalmente insensíveis ao seu visual. E o cara da Peugeot, depois de ouvir que usar quatro fixações para manter no lugar a saída de ventilação era algo extravagante, que bastaria colocar uma, sabia que em algum lugar uma professora de geografia ficaria satisfeita com o dinheiro que isso economizou. Até o momento em que a peça cair.

O que me leva ao Mercedes S 500. Porque o cara com a complicadíssima tarefa de projetar o motor do carro devia saber que ele estava jogando seu tempo fora. Totalmente. Eu já escrevi antes sobre o novo Classe S, mas provavelmente seria bom repassar alguns recursos importantes do carro. Ele consegue enxergar no escuro e além de esquinas, tem sistema anticolisão, é extremamente confortável, a tela da central multimídia é do tamanho da TV da sua sala e ele não usa lâmpadas incandescentes – nem mesmo nos faróis. Ele pode não ter o estilo de um Rolls-Royce Ghost ou Bentley Flying Spur, mas em termos de recursos inteligentes o Mercedão deixa ambos no chinelo.

Só que tem uma coisinha: existem apenas dois tipos de clientes para o Mercedes Classe S. Um é a empresa de Londres que o despacha com motorista para levar alguma cantora pop ao teatro. E a outra é a empresa de Moscou que o despacha com motorista para levar um mafioso russo para praticar tiro com metralhadora. A empresa que leva a cantora pop pela cidade adquire o econômico S 350 a diesel, porque tem confiança suficiente de que nenhum dos seus clientes vai perceber. E a empresa que transporta o mafioso russo compra o caro S 63 AMG, que é equipado com um motor V8 de 5,5 litros, porque tem muita confiança de que, se o motorista aparecer com qualquer coisa abaixo disso, o mafioso russo vai dar um tiro nele. Assim, qual a razão de ser do S 500 a gasolina? Sim, custando 88 395 libras (R$ 343 000), ele é consideravelmente mais barato do que o S 63 AMG, que sai por 119 835 libras (R$ 464 900). Porém, se o preço faz diferença, por que não comprar o S 350 diesel básico, que sai por 62 905 libras (R$ 244 000) e também custa menos para abastecer? E que tem melhor valor de revenda?

Você pode dizer que não precisa de toda a potência do V8 e não gosta do barulho de um motor diesel, e por isso o S 500 é perfeito. Mas estaria falando besteira, porque eu já dirigi bastante um Classe S a diesel e ele não faz barulho de motor a diesel. Na verdade, é impossível dizer qual combustível está alimentando o motor.

Eu fiz um esforço mental, mas simplesmente não consigo conceber um carro mais sem sentido do que o S 500. Eu usei um há poucos dias para ir de Londres até a pista de testes do Top Gear, em Surrey, e ele foi adorável. Ele acalmou, suavizou e flutuou maravilhosamente. Mas, como o cara que projetou o motor sabe muito bem, há outro modelo dentro da linha do Classe S que oferece  exatamente a mesma coisa por menos dinheiro.

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