Elas aceleram forte

Uma linda avó resolve acelerar sua superesportiva e cria uma categoria feminina

Elas aceleram forte Elas aceleram forte

Elas aceleram forte (/)

A Yamaha R6 laranja, com cara de bandida, entra acelerando pelo box. O ronco do motor é forte e vitaminado por um “Power Comander” que eleva a potência, deixando-a com quase 150 cv. A pilota retira o capacete, passa as mãos alisando o cabelo e abre um sorriso quase infantil. Vaidosa, a gaúcha Cristina Noskoski, com equipamento de proteção de primeira e esbanjando charme e simpatia, nem parece ser a mesma jovem senhora de 46 anos que participa de bailes e pacatos chás de caridade em Passo Fundo (RS), sem que desconfiem de sua “identidade secreta” de pilota, ou mesmo a avó que acalenta no colo a pequena Isabella, a neta de apenas 6 meses.

Pois essa “vovó”, utilizando uma pimenta vermelha como símbolo e a frase “Vem comigo… que no caminho eu te explico!” como lema, está treinando e mobilizando várias meninas e mulheres de diversas partes do país que atenderam ao seu chamado. Agora elas estão acelerando forte nas pistas e em baterias exclusivamente femininas as suas superesportivas de 600 e de 1000 cc.

Cris, como é conhecida, tornou-se motociclista já madura. Aprendeu a andar de motocicleta aos 39 anos, engrossando as estatísticas que apontam que 25% das motos comercializadas hoje no Brasil já têm uma mulher como proprietária. É verdade que ela não começou de uma forma muito ortodoxa. Afinal, já saiu acelerando uma musculosa Yamaha TDM 850 e chegou a usar bandana de caveira e luvas de franjinha tipo estradeira até se apaixonar pelas superesportivas e incluí-las em seus sonhos.

Quando o marido comprou uma Honda HRC Fireblade de 1 000 cc com o objetivo único de fazer negócio, ela garante ter sido um dos dias mais felizes da sua vida: “Fui cantando, rindo e tremendo até a cidade de Chapecó (SC), onde estava a moto”, diz. Não demorou a convencer o marido a ficar com a moto por um mês antes de vendê-la e entrou assim para a “criminalidade”, já que roubava as chaves do marido e andava às escondidas com a Fireblade. “Não tinha mais jeito, seria amor infinito. Era uma bela história de amor que começava ali”, diz ela.

Ganhou do marido uma Kawasaki Ninja e não demorou para comprar o macacão de couro, as botas e luvas esportivas e se matricular nos primeiros cursos de pilotagem e track days, com o objetivo único de aumentar a segurança sobre a motocicleta. Com um “pé” nas pistas, começou a formigar em sua cabeça a vontade de correr. Mas, como o marido jamais concordaria em vê-la alinhando com os marmanjos, surgiu a ideia de fundar um grid feminino. Pronto! Assim foi fundada a Confraria das Mulheres Motociclistas (CMM). E logo ela começou a usar as redes sociais para localizar e cooptar suas “confreiras”.

“Em dois meses já éramos seis, o total que eu precisava para nossa primeira corrida”, conta ela. Ciente da importância da segurança nas pistas, Cris Noskoski iniciou uma série de contatos antes de formar o grid feminino e conseguiu com as escolas de pilotagem cursos e treinos gratuitos para todas as meninas que quisessem participar de uma corrida, que ainda nem tinha data definida para acontecer.

A primeira prova aconteceu na segunda quinzena de setembro, dentro do GP Gaúcho de Motociclismo, com o nome de Troféu Cristina Rosito. Era uma homenagem à primeira mulher a competir com motos no Brasil – isso em 1982, quando tinha apenas 11 anos de idade. Rosito esteve presente no autódromo de Santa Cruz do Sul (RS) e foi também a madrinha do Troféu.

CONFREIRAS, MAS COMADRES

Muitas das meninas só foram se conhecer no dia da prova, todas com camisetas da Confraria, adesivos e banners. Compartilhavam um box organizado e decorado. Só não contavam com o dilúvio que caiu no dia dos treinos e da prova, daqueles que fariam muito marmanjo desistir de andar de moto. As meninas não desanimaram e fizeram seu batismo sob as piores condições, mas dando show de pilotagem, com direito a aquaplanagens e controlando derrapagens com a maior categoria.

“A Cris revelou-se uma grande vendedora”, afirma a administradora hospitalar Juliana Maioli, de Bento Gonçalves (RS), que agora também é pilota no comando de uma Yamaha YZF R1. Juliana foi a vencedora na categoria 1 000 cc e garante que “Cris Noskoski fez uso de seu notável poder de persuasão e conseguiu mobilizar algumas mulheres para esse pontapé inicial”.

Já para a paranaense Liz Cordova, 33 anos e pilota de uma BMW S 1000 RR, o fato de participar de um campeonato a torna mais forte, tanto na vida profissional quanto na pessoal. “Eu sei que na pista, mesmo durante os treinos, é difícil para um homem ser ultrapassado por uma mulher, mas a maioria vem nos cumprimentar”, diz ela. “Gosto da adrenalina de estar em cima de uma moto em uma modalidade em que apenas os homens conseguiam dominar essas máquinas.”

Luana de Farias, gaúcha de Passo Fundo de apenas 23 anos, vencedora da prova na classificação geral, também encontra na moto a força até mesmo para superar situações difíceis como a morte da mãe. “Minha paixão por motos começou na infância, quando eu ficava grudada nos vidros do carro só vendo as motos ultrapassarem em alta velocidade”, diz ela. Ao completar 18 anos, comprou uma Yamaha YBR 125 e, quando a mãe faleceu, trocou-a por uma Kasinski Comet GTR 250. “Eu tinha saudade e me sentia sozinha, pegava minha moto e saía a rodar, para qualquer lugar, sem destino, até que o sentimento de tristeza ia embora e ficava o conforto”, diz ela. Não demorou para trocar a Comet por uma moto mais potente, uma Honda Hornet, que utilizou para vencer a prova.

Algumas das garotas do grid feminino começaram bem mais cedo, como a gaúcha Márcia Reis, que hoje vive em Erechim (RS). Ela teve a primeira experiência com veículos motorizados de duas rodas aos 13 anos, com uma Garelli. Outras já têm até nome artístico, caso da também gaúcha Gabriella B., mais conhecida por Gabi Racing, que aos 29 anos já passou mais da metade de sua vida sobre uma motocicleta. Afinal, começou a pilotar aos 15 anos, tocando uma Yamaha RD 350 (a temida “Viúva Negra”), e hoje é proprietária de três motocicletas: Yamaha YZF R1 de 1000 cc, Yamaha YZF R6 e Lander Motard, com as quais participa de apresentações com o grupo Racing Girls Show.

Márcia Reis diz que percebe nos olhos das pessoas mais admiração que preconceito em relação às mulheres motociclistas. Suas colegas de grid, porém, são unânimes em afirmar que ainda sofrem discriminação, tanto por parte dos homens como das mulheres. Segundo Juliana Maioli, alguns homens são muito intolerantes e não aceitam que elas possam ser tão boas quanto ou melhores que eles em um esporte considerado masculino até pouco tempo atrás. “Pilotar exige muito mais técnica, destreza e inteligência do que força física”, diz ela. Quanto ao preconceito feminino, Cristina Noskoski garante que chegou até a sofrer “bullying” por parte das esposas de um grupo de motociclistas de sua cidade. “Algumas mulheres nos veem como concorrência desleal, pois acabamos sendo o centro das atenções em alguns lugares e causando certo frisson!”, diz Juliana, que acha isso inevitável. “Afinal, estamos comandando bólidos de mais de 1 cv/kg.”

Com bom humor, Cris tem uma solução para esse problema: “Acho que os homens têm algum fetiche com macacão de couro e motocicletas superesportivas, então eles deveriam comprar essas coisas para suas esposas, em lugar de ficar fantasiando com a mulher dos outros”.

Cercadas de preconceito ou não, o fato é que as mulheres motociclistas estão tomando também as pistas.

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