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Cruzando as Américas em um Citroën 2CV

Dupla francesa celebra o futebol e sonha em estacionar no Maracanã na Final da Copa

Por Fabiano Pereira - Atualizado em 9 nov 2016, 13h49 - Publicado em 1 jul 2014, 21h44
geral

Eles saíram em 13 de fevereiro de Montreal, no Canadá, com destino ao Brasil, a bordo de um Citroën 2CV 1988. Sua jornada vai acabar no Rio de Janeiro, dia 13 de julho, a data da final da Copa, depois de 20 mil quilômetros rodados em 150 dias. A missão é denunciada pela película que imita uma bola de futebol, aspecto ressaltado pela carroceria curva do clássico francês: o projeto Pan American Futbol dos franceses Eric Carpentier e Pierre Pitoiset, visa travar contato com as populações locais e associações ligadas ao futebol de diversos países das Américas e propiciar interação entre apaixonados pelo esporte de diversos países.

A dupla, que representa a ACoW, associação francesa de Mouvaux que já trabalhou com crianças na Índia, carregava na bagagem 10 bolas de futebol trazidas quando deixaram a França. Delas, sobraram duas até esse nosso encontro. O restante foi ficando com as crianças que eles encontraram pelo caminho.

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O Citroën chegou ao Canadá de navio. O itinerário por terra incluiu Estados Unidos, México, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá. De Colon, neste último país, até Cartagena, na Colômbia, a dupla e o carro viajaram de barco. Dali rodaram até o Equador, Peru, Chile e, via Cordilheira do Andes, Argentina. Chegaram no Brasil por São Borja (RS) e passaram por Porto Alegre, arredores de Curitiba e São Paulo. Agora eles seguem para o Rio de Janeiro, onde sonham poder estacionar o 2CV no Maracanã. Depois, com a missão futebolística cumprida ao final do evento, pretendem dar uma esticada pelas regiões centrais do pais, ainda não definidas. Talvez Brasília ou Belo Horizonte.

Chassi envergado

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Boa parte da viagem foi feita com o chassi do 2CV envergado. Carpentier não sabe ao certo o que levou a essa deformidade, se uma colisão a 10 km/h ainda em Paris ou uma lombada não sinalizada depois de uma noite rodando no Peru. O par de pneus dianteiros já é o terceiro, enquanto o traseiro segue o mesmo. Reforços no cofre do motor, retirada dos paralamas dianteiros e a adaptação de uma outra coluna de direção foram necessários para contornar o problema. Só no Chile conseguiriam resolvê-lo. Mas logo eles perderiam o paralama traseiro direito, resultado de uma colisão com um caminhão na Argentina.

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Por outro lado, passaram-se 25 mil km do início da viagem até o motor, que marcava 57 mil km no odômetro na saída, precisar de reparo. Só a bobina e uma peça da ignição precisaram de troca. Nada mal para o Citroën de 26 anos – e sem seguro! Hoje o carro tem 82669 km rodados.

Em Porto Alegre, Carpentier e Pitoiset encontraram o também francês Ludovic Marec, professor de uma escola técnica de comércio na Guiana Francesa, amigo do contato que hospedou Carpentier e Pitoiset ainda no Canadá. Marec seguiu viagem com eles.

Além das associações locais ligadas ao futebol, encontros com colecionadores e fãs do 2CV e mecânicos propiciaram hospedagem e refeições pelo caminho. A idéia inicial de jogar uma partida de futebol por dia não foi possível, mas sim uma média de uma a cada três dias. Se Pitoiset está fazendo sua primeira viagem de maior importância, Carpentier já andou 1200 km de Lille a Marseille com uma bola no pé para arrecadar fundos par dois programas assistenciais ligados ao futebol da Tomorrow’s Foundation em orfanatos indianos, fora viagens de trem e moto pela Europa. Viva a resistência!

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QR: Como eram os encontros com as associações ligadas ao futebol? Era algo completamente informal ou previamente organizado?

Carpentier: Nós entrávamos em contato uns três dias antes e tentávamos marcar um encontro. Fizemos uma programação preliminar com todas as associações que estariam no caminho e a idéia inicial era visitar todas elas. Mas fomos vendo que nós perdíamos a espontaneidade, até porque não tínhamos como saber ao certo o dia que estaríamos lá.

QR: O objetivo era encontrar as pessoas desses grupos ou da comunidade local e ter uma partida de futebol?

Carpentier: Nós primeiro conversávamos com os responsáveis pelas associações para entender como eles trabalhavam. Depois acabávamos jogando com as crianças, que não tinham a oportunidade de jogar com franceses jovens como nós, e para ter a oportunidade de conhecer melhor essas crianças e trocar experiências com elas. Quase sempre eram crianças, mas nos Estados Unidos jogamos com adultos de associações para recuperar viciados em drogas e álcool.

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QR: Por que a América?

Carpentier: A idéia surgiu há seis anos. Inicialmente era para ser uma volta ao mundo, mas conforme a saída vinha se aproximando, vimos que a logística era bastante complicada. Um amigo falou que a América representava uma diversidade muito grande de paisagens, climas, culturas e de relação com o futebol. Tem uma diferença cultural muito grande de como o futebol e a Copa são percebidos na América do Norte e no restante do continente.

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QR: Qual foi a experiência mais surpreendente da viagem?

Carpentier: Não tínhamos telefone, era noite. Estávamos saindo para ir para Santiago, no Chile. Acessamos a internet e vimos uma mensagem nos dizendo para passar em Coquimbo. Eles nos avisaram que a partir das 23:00 horas estariam nos esperando. Chegamos a 1:00 hora da manhã e tinham seis pessoas, dois mecânicos. Um terceiro mecânico apareceu porque não tinha lugar nas outras oficinas. Enquanto passeamos e conhecemos a cidade, em 60 horas eles consertaram o problema do chassi.

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QR: O carro teve alguma preparação prévia?

Carpentier: Só estética. Fizemos uma revisão básica. Vela, placa de freio, essas coisas. Levamos algumas peças no porta-malas, mas realmente deveríamos ter reforçado o chassi (risos).

QR: Vocês estão assistindo aos jogos da Copa? Qual é a avaliação que vocês fazem tanto da seleção francesa quanto da brasileira?

Pitoiset: Para a final apostamos em Argentina e França. O Brasil não pode perder na final, mas se der Brasil e França, vai dar França. Só vimos França X Honduras e França X Equador. Estamos muito bem impressionados. Em geral não esperamos muito da nossa seleção. Eles estão jogando com o coração e, quando fazem isso, se saem bem. Quanto ao Brasil, tem toda uma equipe, na verdade todo um país, contando comum só jogador, Neymar. Isso é muito complicado. Funcionou com o Zidane, mas achamos que o Zidane era melhor que o Neymar. Esse ano o jogo está mais equilibrado no time francês, é um jogo de equipe. Mas a torcida do Brasil pode fazer a diferença.

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