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Como a família Senna transformou a Audi em revista

A publicação oficial da Audi nasceu meio que por acaso e marcou época no Brasil testando até ração de cachorro

Por Charles Marzanasco Atualizado em 15 nov 2021, 00h41 - Publicado em 15 nov 2021, 05h25
Audi Magazine Reprodução
A Audi Magazine circulou por 11 anos Reprodução/Quatro Rodas

Um dos trabalhos que mais amei fazer foi a edição da revista Audi Magazine, entre os anos de 1995 e 2006. Tudo começou com uma ideia que tive durante um voo entre São Paulo e Brasília, com o Leonardo Senna, irmão do Ayrton, que juntamente com o empresário Ubirajara Guimarães tocava a representação da Audi no Brasil. Eu cuidava da comunicação da marca.

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Conversávamos sobre o que levar de atração para a segunda participação da Audi no Salão do Automóvel, e eu pensei por que não levar o sedã A6 batido? Explico: dias antes da abertura do Salão, nós faríamos um evento em que realizaríamos um crash-test aberto ao público, para demonstrar como os carros da marca eram seguros.

O Leonardo achou interessante e, discutindo como seria a exibição do carro, eu disse que deveríamos ter algo impresso mostrando como o crash aconteceu. Foi aí que o Leo teve a ideia de fazer uma revista especialmente editada para a ocasião. Assim nasceu a Audi Magazine, com 32 páginas e tiragem de 30.000 exemplares, para serem distribuídos ao público do Salão.

Fizemos o crash-test no Sambódromo do Anhembi, ao lado do Salão do Automóvel, e tudo foi reportado e fotografado já pensando na revista, que acabou tendo outros conteúdos relativos ao universo da marca. O crash mesmo ocupou duas páginas.

Dias depois, no Salão, nós arrasamos. A edição fez tanto sucesso que o Leonardo me chamou e disse que queria continuar com a revista. Minha primeira reação foi dizer que não.

Uma coisa é fazer uma edição para uma ocasião, outra é fazer edições regulares, com pauta, redação e frequência determinada. Pensei que o Leonardo iria querer fazer uma revista barata e isso não daria certo. Mas o chefe insistiu: “Vamos fazer coisas legais”, disse.

A brincadeira durou 11 anos, com muitas histórias bacanas, divertidas e inusitadas. Era um show contínuo de ideias malucas, fora da caixa, como se diz hoje, que ajudaram a fazer da revista um grande sucesso.

Uma dessas ideias malucas foi a realização de uma pauta sobre cuecas. Naquele tempo, era comum recebermos brindes na redação. Um belo dia chegou em meu nome uma caixa com duas cuecas da marca Sotto-Sotto, que eram bem ousadas (pequenas e muito modernas, pra frente, como se dizia).

Levei aquilo para casa e comentei com a minha esposa na época algo como “o que esses caras pensam, acham que vou usar um troço desses?”.

A minha filha Patrícia adorou, falou que iria usar como calcinha, o que não permiti. No dia seguinte, porém, acordei pensando que eu poderia, sim, fazer uma matéria sobre cuecas com um ensaio fotográfico na revista, só que usando mulheres como modelos, em vez de homens.

Contratamos profissionais que faziam anúncios de lingerie e moda praia e o projeto seguiu. A modelo da capa foi a Luize Altenhofen, que na época fazia o programa Rolé, de esportes radicais, do canal SporTV. O resultado ficou muito bom e teve uma grande repercussão.

Com esse mesmo espírito, fizemos outro ensaio de moda, dessa vez com ternos de grifes caras, tipo Armani, e no lugar de modelos chamamos gente que normalmente não usava ternos: roqueiros. Convidamos os principais roqueiros do país: Roger, da banda Ultraje a Rigor; Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso; e Frejat, do Barão Vermelho.

O Leonardo Senna era um grande colaborador de pautas. Vivia dando sugestões sobre tecnologia, tema que ele era muito ligado, e sempre ajudava a editar as matérias.

Quando os textos chegavam, ele lia e começava: “Isso aqui não é bem assim, tem que mudar isso e aquilo…”. O mais engraçado foi o dia em que ele me falou para fazer uma matéria sobre Wi-Fi. Eu nunca tinha ouvido falar desse assunto, tipo de conexão que só chegaria ao Brasil um ano depois. “Ai o quê, Leo?”, perguntei provocando muitas risadas.

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O Leonardo teve várias ideias brilhantes, mas uma em particular foi espetacular. Ele cismou de fazer testes de produtos. E, seguindo esse objetivo, acabamos testando muitas coisas diferentes, como celulares, água, café.

Não eram testes técnicos. Chamávamos pessoas que entendiam do que estava sendo avaliado, elas experimentavam e davam notas.

Um desses testes foi bem complicado de fazer, porque era de alimentos para pets. Nunca esqueci o título da matéria: “Comida boa para cachorro”. Mas a história mais polêmica foi um teste de panetones, para a edição perto do Natal…

Lembro como se fosse hoje. Eu estava na redação quando a produtora me ligou para dizer que o vencedor era o panetone da marca mais popular, entre todos avaliados.

Você pode imaginar nossa reação. Reunimos panetones das confeitarias mais tradicionais de São Paulo, além dos industrializados, e jamais pensávamos que o vencedor seria o mais barato de todos. “Como assim?”, eu perguntei para a produtora.

Audi Magazine Reprodução
Os roqueiros toparam vestir terno e gravata Reprodução/Quatro Rodas

Quando ouviu o resultado, uma funcionária da publicidade pulou da cadeira, protestando: “Mas esse é um panetone de segunda categoria?”. Em pouco tempo a discussão tomou conta da redação. A solução que encontrei foi fazermos nós mesmos um tira-teima.

Saí e comprei vários panetones de diversas marcas, tirei das embalagens e voltei para a redação, convocando todos a experimentar os panetones e darem notas. Adivinha qual ganhou? O mesmo do teste oficial! O tal panetone mais barato foi o preferido inclusive daquela tal menina da publicidade.

A verdade tem poder. A matéria saiu e o vencedor aproveitou a conquista para promover o produto em tudo o que é supermercado, enquanto, sem demora, dois dos outros concorrentes, entre eles o fabricante do panetone mais caro de todos, escreveram para a redação para protestar.

Se a gente levasse em conta o posicionamento da Audi no segmento premium, esse panetone vencedor talvez não tivesse tomado parte do teste. Mas o objetivo era avaliar as opções do mercado.

Acabamos testando muitas coisas diferentes, como celular, água, comida de cachorro e panetone

Sobre esse tema de posicionamento, aliás, aconteceu outra situação engraçada. Sempre fui desligado com essa coisa de roupa de grife, prefiro vestir um jeans que seja confortável, uma camisa qualquer e pronto.

Certo dia, estava em um evento e quando o anfitrião me ouviu dizer que eu era o editor da Audi Magazine ele não segurou a surpresa: “O quê? Você é o editor da Audi Magazine?, com um misto de incredulidade e desprezo. “Achei que era outro cara!”, tentou consertar.

Charles Marzanasco
Charles Marzanasco é jornalista, trabalhou nove anos como repórter na QUATRO RODAS, dez anos como assessor do piloto Ayrton Senna e 25 anos na Audi Acervo Pessoal/Divulgação

Outra coisa que as pessoas não perdoavam era me ver dirigindo um carro de outra marca, como era o meu veículo particular. Várias vezes ouvi: “Como assim? Você trabalha na Audi e está com esse carro?” Eu não me importava.

Até que um dia, alguém deve ter protestado junto ao Leonardo Senna, ele me chamou e disse que eu teria um carro designado da Audi. O primeiro foi um A3, mas depois peguei outros modelos, e a turma enfim me deixou em paz.

Depois que a própria Audi assumiu os negócios no Brasil, ela relançou a revista, com novo projeto gráfico e editorial. Mas a versão editada pela Senna Import marcou época.

 

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