Jeremy Clarkson: o que esperar de um SUV Fiat?

O Levante é um Maserati Ghibli com pernas de pau e suspensão a ar. E este era baseado num Classe E de 30 anos atrás. Ou seja, é um táxi com relógio porcaria

Maserati Levante

Um Maserati para você jogar na terra sem medo – será? (Divulgação/Maserati)

Você deve ter notado que algumas pessoas começaram a usar calças rasgadas nos joelhos. Isso significa que a tradicionalíssima alfaiataria Gieves & Hawkes, da Savile Row, entrou na moda e está vendendo ternos com buracos esfarrapados nas pernas?

Não. Isso nem deve ter passado pela cabeça dos alfaiates. Eles gastaram centenas de anos cuidando da reputação e sabem que seria imprudente jogar tudo fora na busca de um dinheirinho a mais.

As pessoas deveriam fazer o que sabem. Você não vai ver o chef Gordon Ramsay fazendo programas sobre manutenção de motos ou o ator Vin Diesel interpretando Hamlet. Só que no mundo dos automóveis, as coisas são diferentes.

A moda atual são os SUVs e, em vez de ficar parados dizendo “isso não vamos fazer”, a Aston Martin, Porsche, Bentley, Jaguar, Alfa Romeo e Lamborghini resolveram deixar o bom senso de lado e pensaram: “Vamos também ter um pouco disso, obrigado”.

A Lamborghini já entrou nessa área antes, com o assustador LM002, de 1982. Com o mesmo V12 do Countach, era um monstro colossal e hilário. Uma vez tentei dirigir um, mas não deu muito certo, porque o câmbio travou em segunda.

Fui para o banco de trás e empurrei a alavanca com as pernas, enquanto um camarada musculoso sentou no painel e usou toda a sua força para puxá-la.

Se alguém um dia perguntou por que uma picape Lamborghini 4×4, o contator da fábrica certamente respondeu: por quê não? (Divulgação/Lamborghini)

Suspeito que o LM002 não era uma tentativa séria para entrar no ramo de veículos militares pré-Hummer, sendo só um presente de italianos poderosos para o coronel Muamar Gaddafi, que, pelo que se diz, adorou.

Talvez a Lamborghini possa se safar com um SUV hoje em dia na sua linha de produtos porque, como sabemos, ela começou como fabricante de tratores, e todos os seus carros sempre tiveram um certo encanto estilo He-Man. Eles são construídos para andar a 15 km/h em ruas chiques, não a 150 em Nürburgring. 

Mas a Aston? A Jaguar? A Alfa Romeo? A Bentley? Empresas como essas fabricando SUVs é tão estranho quanto o McDonald’s lançando um sorvete de agrião e couve. E isso antes de chegarmos à Maserati.

A Maserati fez sua fama nos anos 50 na F-1 e então, na década seguinte, impôs-se no mercado com uma sucessão de automóveis exóticos incrivelmente belos, batizados com nomes de ventos de todo o mundo. Uma empresa, enfim, à qual não caberia fazer um Land Rover pomposo. Mas foi exatamente o que ela fez.

O modelo em questão se chama Levante, nome que para um britânico soa como se fosse um tipo de sabonete para aqueles homens que dão atenção extra à aparência. 

Se a Maserati tivesse feito uma reunião para decidir que carro ele deveria ser e se escolhesse enfatizar o “Sport” da sigla SUV, ele poderia ter tido uma chance. Também poderia tê-lo tornado o máximo em luxo, para fazer o Bentley Bentayga parecer um carrinho de bebê. Isso também teria funcionado. Em vez disso, ela fez uma reunião na qual deve ter dito: “Certo. Vamos fazer o carro pelo menor custo possível”.

bentley-bentayga

Bentley Bentayga (Divulgação/Bentley)

A começar pelo relógio. Os Maserati sempre tiveram um elegante relógio oval, o tipo de coisa que você esperaria ver o David Beckham fazendo propaganda em aeroportos.

Mesmo quando a Maserati estava falida e fabricava o Biturbo, nunca desceu ao ponto de ir pelo caminho digital da Casio. No Levante, porém, há um relógio de plástico circular ordinário montado em um oval também de plástico.

Você olha e pensa: “Bom, se eles resolveram economizar nisso, onde mais os contadores se divertiram passando a tesoura?” 

Em vez do tradicional relógio oval elegante, agora há um circular de plástico ordinário

Em vez do tradicional relógio oval elegante, agora há um circular de plástico ordinário no Maserati Levante (Divulgação/Quatro Rodas)

A resposta fica óbvia ao ligarmos o motor. Logo haverá um V6 a gasolina, mas hoje o Reino Unido só tem o diesel. O que não seria tão ruim se fosse moderno, silencioso e cheio de torque.

Em vez disso, a Maserati escolheu um motor de uma só turbina que estava disponível por aí. Ele não é silencioso, potente, econômico nem limpo.

É só uma ferramenta que cumpre uma tarefa e num Maserati de mais de 50.000 libras (R$ 210.000). Então, você começa a andar e logo o carro todo tem um ataque histérico. Ele é tão grande e largo que seus sensores de alerta de colisão sempre acham que você vai bater em algo.

E, quando estaciona, ele vai à loucura, insistindo que você pare de dar a ré mesmo que haja espaço para construir uma mansão entre você e o carro atrás. 

E há outro problema com o tamanho do Levante. Ele não se traduz em espaço interno. O porta-malas não é tão grande assim, o banco de trás não é grande o suficiente para três adultos e, na frente, você se sente apertado e claustrofóbico. 

Você pode imaginar que essas ninharias sumiriam ao sair da cidade e chegar a um belo trecho de estrada aberta. Nada disso. Como todos os puristas, fiquei feliz quando ouvi dizer que o Levante não seria só um Jeep forrado de couro (tanto a Chrysler, dona da Jeep, quanto a Maserati fazem parte do Grupo Fiat), mas sim um Ghibli de pernas de pau com suspensão a ar.

Mas isso não é muito melhor, porque o Ghibli é baseado no velho Chrysler 300C. O qual, por sua vez, era baseado no táxi Mercedes Classe E de 30 anos atrás. Então, o Levante é basicamente um táxi com um relógio porcaria.

Você vê evidências do reaproveitamento de peças em todo o interior. Sim, há muito couro, o que é bom, mas vários dos botões foram tirados de antigos carros americanos. Há muitas pessoas da minha idade que adorariam ter um Maserati.

Deitar na cama à noite sabendo que você tem um na garagem o deixaria feliz. Mas não o Levante.

Ele não tem o visual, não passa a sensação e nem a experiência de dirigir da imagem que você tem em mente. Para piorar, não passa a sensação e nem a experiência de dirigir tão boa quanto a dos seus rivais.

Em termos simples, BMW, Mercedes, Audi e Land Rover podem lhe oferecer algo melhor. Muito melhor.

Aposto que o novo Alfa Romeo Stelvio também é melhor. Embora seja outro carro da casa Fiat que não deveria ter sido produzido.

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  1. Jonas Almeida

    Nossa.. Quanta raiva do Grupo FCA ein?! Esculachou o carro que tbm eh cheio de qualidades.

  2. Diego Ferreira De Souza

    Enfim baita matéria chata. Totalmente sem conteúdo. Esse Jeremy Clarkson parece aqueles jurados de show de calouros (que são chato pra burro) que só sabem meter o pau. Mas como o cara é “inglês” vão meter o pau em mim.

  3. Alessandro Ticoulat

    Sinceramente, a QR acha alguma vantagem em publicar essa coluna? Esse cara é arrogante, pedante e preconceituoso. E mesmo que não os fosse, a realidade para a qual ele tece seus comentários não tem nada a ver com a nossa. Em função do emprego, ele até dirige esses carrões mas eu acredito saber mais de mecânica celeste do que ele sabe sobre carros. Um sujeito assim não traz prestígio para a revista, nem que seja aquele chocolatinho com côco.

  4. Melhor coluna é a dele.

  5. Alexandre Baims

    Alessandro. Lógico que ele entende muito mais de carros do que eu ou você ou quase qualquer um que venha aqui. O cara faz isso por mais de 30 anos, dirigiu centenas de carros. Ele só não segue a correnteza fazendo análises cheias de dados e números sobre o carro. O lance dele é fazer comentários leves e com humor sobre o carro. Se não gosta, não precisa ler mas garanto que deu certo para ele, visto a fama e popularidade que ele tem