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Fiat Uno Mille 30 anos: pai dos populares 1.0 era pelado como um Fusca

30 anos atrás o Fiat Uno Mille surgia como uma resposta (barata) aos carros importados e inaugurava o segmento dos carros populares

Por Henrique Rodriguez Atualizado em 21 jul 2020, 21h03 - Publicado em 21 jul 2020, 17h30
Em 1990 o retrovisor direito e os encostos de cabeça ainda não eram obrigatórios Marco de Bari/Quatro Rodas

Ar-condicionado, vidros elétricos e direção hidráulica não eram itens comuns nos carros compactos em 1990. Mas àquela altura o brasileiro já havia se desacostumado com o nível de simplicidade de carros como o Fusca Pé de Boi e o Renault Teimoso.

Tudo mudou com o lançamento do Fiat Uno Mille. Tudo mesmo.

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O mercado estava blindado pelo IPI, o imposto sobre produtos industrializados. Enquanto carros motores entre 1.000 e 1.500 cm³ pagavam 35% de imposto, os que tinham motores menores, entre 800 e 1.000 cm³ eram taxados em 40%. O fabricante que apostasse em um motor menor, seria punido pela carga tributária.

Jornal do Brasil/Reprodução

A mudança reduziu o tributo a 20%, despertando o interesse dos fabricantes nos motores de 999 cm³. Foi um movimento fundamental para o nascimento dos populares 1.0.

Mas àquela época o que o governo queria era movimentar a economia. Carros mais baratos aumentariam o acesso da população a carros novos, a demanda extra daria fôlego para a indústria nacional, que ocuparia sua capacidade ociosa e geraria novos empregos.

A produção em maior escala também ajudaria a lidar com a “ameaça” da recente reabertura das importações de veículos, uma promessa eleitoral do então presidente Fernando Collor cumprida meses antes. E, claro, houve momentos de tensão entre o governo e a indústria automobilística.

  • Na verdade, tudo isso durou cerca de três meses.

    Em maio de 1990, irritado com a cobrança de ágio em carros novos, Collor cobrou de sua ministra da economia, Zélia Cardoso, um plano de mudanças na legislação da indústria automotiva.

    Marco de Bari/Quatro Rodas

    Quando o plano saiu do papel, a Fiat já tinha seu novo carro pronto.

    Foi muito fácil para a Fiat sair na frente. Isso porque ainda produzia o velho 1.050 cm³ do 147. Se no Brasil este motor só havia sido oferecido no Uno em 1984 e 1985 (o brasileiro preferia o 1.3 de 57 cv), ainda equipava unidades exportadas para Argentina e Itália.

    Bastaria enquadrar o motor na nova alíquota de IPI. Um novo virabrequim diminuiu o curso dos pistões de 57,8 para 54,8 mm, passando aos 994,4 cm³. A nova carburação e o comando de válvulas trocado para garantir maior torque em rotações menores garantiu os 48,5 cv e 7,4 kgfm. Comparado aos 52 cv e 7,8 kgfm do motor 1.050, o rendimento era bom.

    O nome não poderia ser mais adequado: Uno Mille. E ele já estava pronto para ser testado, com exclusividade, na edição de agosto de 1990 de QUATRO RODAS. 

    Carro pronto, mas ainda com o logotipo para exportação Marco de Bari/Quatro Rodas

    Por fora era como qualquer outro Uno S 1.3, mas tinha a primazia de ter barra estabilizadora dianteira e um braço tensor mais robusto que só chegariam às outras versões em 1991. Por outro lado, era pelado como não se via desde os anos 1960.

    Não era apenas uma questão de se valer de impostos mais baixos, mas também de encontrar meios de deixar o carro o mais barato possível. Para isso valia até mesmo tirar itens úteis.

    Mille estreava suspensão mais robusta Marco de Bari/Quatro Rodas

    Um bom exemplo é que apenas no Mille o câmbio padrão era de quatro marchas, enquanto o de cinco era opcional.

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    O comprador também teria que pagar a mais para ter retrovisor direito, bancos dianteiros reclináveis e com encosto de cabeça (ambos ainda não eram obrigatórios) e lavador e desembaçador traseiro.

    Teste Uno Mille.
    Arte/Quatro Rodas

    Não havia saídas de ar laterais e o lavador do para-brisas era acionado por uma bombinha de borracha no pé do motorista – como no Fusca, que havia deixado de ser produzido em 1986 e vivia seu lapso histórico até o relançamento em 1994.

    Podia ser pior: naquela edição de agosto a Fiat cravava que até o servofreio seria opcional. Mas, por sorte, a fabricante italiana não deixou repetir outra semelhança com o velho Fusca quando o Mille chegou às concessionárias.

    Nos instrumentos, velocímeto e luzes espia. Buzina ficava na única haste Marco de Bari/Quatro Rodas

    Os únicos luxos no carro era o veludo na parte central dos bancos, as colunas traseiras forradas e o tampão do porta-malas – hoje raridade nos SUVs para PcDs.

    O preço final era interessante. Por 625.000 cruzeiros, seus concorrentes eram os Uno S 1.3 88, os Chevrolet Chevette SL 87 e o VW Gol S 1986. Usados, claro. Os equivalentes zero-km deles superavam em mais de 100.000 cruzeiros o preço do Mille.

    No carro básico, encosto não tinha ajuste Marco de Bari/Quatro Rodas

    Não pense que o Mille era mal quisto. Quando até os carros nacionais mais caros tinham versões sem pintura nos para-choques, maçanetas e retrovisores, o Uno 1.0 se passava por um Uno qualquer nas ruas.

    O desempenho também era considerado honesto, dada a leveza do modelo (768 kg, apenas), e rendia linhas como essas:

    O singelo câmbio de quatro marchas Marco de Bari/Quatro Rodas

    “Esse desempenho é sentido claramente por quem conhece o Uno e dirige um Mille no trânsito. O usuário comum não notará diferença em relação ao Uno S, de motor 1.3. Só se a vocação do Mille for desvirtuada – não se espere grande desempenho, por exemplo, no uso frequente em estradas com longas subidas e em regime de plena carga – é que as dimensões reduzidas do motor se evidenciarão. Na cidade e no plano, sobretudo, não parece um carro de apenas 1.000 cilindradas”, dizia o teste publicado em setembro de 1990.

    Porta-malas era menor e só tinha uma mola a gás (que , provavelmente Marco de Bari/Quatro Rodas

    Se defeitos eram apontados? Sim: porta-malas pequeno, alto nível de ruído interno e poucas mordomias.

    Mas deu certo. Principalmente porque concorrentes demoraram para aparecer.

    O motor 1.0 Fiasa era valente Marco de Bari/Quatro Rodas

    O primeiro deles foi o Gol 1000, apenas em 1992, com motor Ford de 50 cv. Depois veio o Chevette Júnior, com 1.0 também de 50 cv. O Ford Escort Hobby 1.0, com motor de 52 cv, só surgiria em 1994.

    Era a turma do zero a 100 km/h em mais de 20 segundos, enquanto o Uno Mille, desde o lançamento, precisava de 17,3 s.

    A despeito do início sofrido, os populares 1.0 deram certo e chegaram a responder por mais de 70% das vendas de carros novos em 2000. No primeiro semestre de 2020 responderam por quase 47%.

    Limpador, lavador e desembaçador traseiros eram opcionais Marco de Bari/Quatro Rodas

    Hoje, 30 anos depois do lançamento do Mille, os motores 1.0 têm três cilindros, turbo, injeção direta, duplo comando de válvulas variável e uma série de outras tecnologias para deixá-los mais potentes e eficientes. Não à toa, são encontrados desde um Mobi até um SUV, como o T-Cross.

    E tudo começou com uma adaptação feita em três meses visando novas regras exigidas pelo presidente – que mais tarde cairia por causa de um escândalo envolvendo uma Fiat Elba, a perua do Uno. São as voltas que o mundo dá.

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