Mistura de metanol no combustível pode destruir seu carro e sua saúde
Na hora de abastecer, o consumidor pode estar colocando em risco não só seu veículo como também sua própria saúde com metanol na mistura

Pode ter acontecido de você ter pedido para o frentista abastecer seu carro com gasolina ou etanol e 90% do combustível que entrou no tanque ter sido, na verdade, metanol. O solvente é altamente tóxico aos humanos e corrosivo para o motor dos carros.
Este caso envolve a megaoperação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28), e que mobilizou Receita Federal, Ministério Público (federal e estaduais), Polícia Federal, polícias civis e militares, Agência Nacional do Petróleo (ANP), secretarias de fazenda e procuradorias estaduais.
Foi apurado que cerca de 2.500 postos, só em São Paulo, teriam sido afetados pela distribuição de combustível misturado com metanol. A ANP restringe a presença de metanol a 0,5% da mistura de qualquer combustível (seja ele etanol ou gasolina) e a operação encontrou até 90% de metanol na mistura.
O objetivo desta megaoperação foi desarticular um grande esquema criminoso no setor de distribuição de combustíveis controlado por integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

Desde 2023 o Instituto Combustível Legal, entidade que combate as irregularidades no setor, vem identificando o aumento da adulteração do combustível com metanol. É uma fraude que preocupa a todos, não só engenheiros, mas também autoridades, defensores de consumidores e até profissionais de saúde.
O motivo maior da preocupação é que esse composto químico é altamente tóxico, podendo provocar câncer e cegueira, quando inalado ou em contato com a pele e os olhos, e até matar se for ingerido. Outro problema é que sua combustão é praticamente invisível.
Para os motores, o metanol não seria necessariamente problemático. No passado, esse tipo de álcool foi usado em competições (como a F-Indy, nos EUA) e como substituto do etanol (no Brasil), quando houve falta desse combustível, no início dos anos 1990. Mas, nos dois casos, foi banido por conta dos riscos à saúde das pessoas e também pelo fato de sua chama ser incolor e, portanto, difícil de combater em caso de incêndio.
Nos carros atuais, porém, o metanol pode agredir componentes do motor e do sistema de injeção não protegidos dos seus efeitos corrosivos. Entre os componentes estão os bicos injetores, tubulação de combustível e outras peças do sistema de armazenamento.
Só em agosto de 2023 a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Combustíveis (ANP) apreendeu 863 mil litros do produto nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Sergipe, o qual supostamente seria usado para adulterar gasolina e etanol.
Como o metanol chega aos postos?
O metanol é usado como solvente pela indústria. Todo volume consumido no Brasil chega ao país importado por empresas autorizadas pela ANP. Cerca de 50% é empregado na fabricação de biodiesel, enquanto a outra metade se destina às indústrias química e farmacêutica.
A porção do que acaba sendo usada na adulteração de combustível é desviada de sua finalidade ou importada ilegalmente. “O que o torna atraente para os falsificadores de combustível é seu custo, cerca de metade do preço do etanol”, avalia o presidente do Instituto Combustível Legal, Emerson Kapaz.
A ANP monitora o metanol e, recentemente, passou a divulgar publicamente, em seu site, a ferramenta que adota para identificar indícios de desvios do produto para fins irregulares. Os interessados podem buscar por Painel Dinâmico de Monitoramento de Metanol.
A população mais exposta aos riscos do metanol é formada pelos frentistas, o que já motivou protestos de entidades representativas dos trabalhadores, como o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas e Região (Recap), cujo presidente, Emílio Roberto Martins, formalizou uma denúncia junto ao Ministério Público.
Para o consumidor, o melhor jeito de se proteger desse tipo de fraude e de outras muito comuns – como as chamadas bombas baixas, que falseiam a quantidade de combustível vendido – é escolher com critério o posto de serviços e resistir àquelas ofertas mirabolantes de preços baixos, gasolina aditivada pelo mesmo preço da comum, exigindo sempre nota fiscal.