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Yamaha XT 1200Z Super Ténéré

Solitária japonesa entre europeias, a moto mostra apetite de superesportiva para engolir estradas, mesmo as mais indigestas

Por Ismael Baubeta Atualizado em 9 nov 2016, 11h52 - Publicado em 17 jun 2011, 21h43
Yamaha XT 1200Z Super Ténéré

Os ralis de deserto, tão famosos e desafiadores no fim do século passado, perdem espaço com os conflitos no Oriente Médio e norte da África. Se antes transpor dunas em alta velocidade era o maior desafio, hoje os conflitos armados representam os maiores obstáculos. Não é por outra razão que o mais famoso deles, o Paris-Dakar, atualmente acontece na Argentina, atravessando os Andes chilenos e o deserto do Atacama e terminando no altiplano de Lima, no Peru.

A Yamaha fez a fama do nome Ténéré, deserto que forma a parte sul do Saara, na Argélia, batizando com ele suas motos trail destinadas a enduros de longa duração. A “marca” Ténéré está impressa em motos com tanques grandes e com possibilidade de receber malas e bagagem.

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A origem da linhagem foi a XT 500 adaptada que venceu o primeiro rali Paris-Dakar, em 1979, monocilíndrica que em 1983 viria a ser substituída pela XT 600Z Ténéré. A Ténéré 600 foi um marco no mercado brasileiro há poucas décadas. Em 1989 chegaria à Europa a XTZ 750 Super Ténéré. O sobrenome hoje se estende às monocilíndricas Ténéré 250 (exclusiva para o mercado brasileiro) e 660 (derivada da nossa XT 660 magrela). Agora nos chega a bicilíndrica de 1200, a matriarca da estirpe, lançada há um ano na Europa.

A moto é imponente, com design moderno e tecnologia avançada. É comercializada apenas na cor azul-real. As Ténéré perderam agressividade com o tempo – as competições não usam versões adaptadas de motos de série, mas protótipos especiais de corrida.

Com a saída de cena, no fim do ano passado, da Honda XL 1000V Varadero e da Suzuki DL 1000 V-Strom, a Ténéré é a única de olhos puxados em um segmento disputado por motos europeias. A BMW R 1200GS (que também monta aros de 17 polegadas atrás e de 19 polegadas na frente, como a Super Ténéré), a KTM 990 Adventure (a mais off-road do nicho, com roda de 21 polegadas na dianteira), e a Ducati Multistrada 1200 (com dois aros 17 e pneus de perfil baixo, a italiana escapa do conceito supertrail: está mais para hipermotard) são as feras que terão de enfrentar a estreante XT 1200Z.

A Super Ténéré chama atenção. As cores azul-real metálico e prata, com o preto fosco de motor (com a base grafite), rodas, balança traseira e cardã são mesmo de aumentar a salivação… O generoso tanque de 23 litros tem a largura ampliada pelas carenagens laterais, que têm a função paralela de direcionar o ar para o radiador, fazendo a moto parecer ainda maior do que já é.

O banco em dois estágios é bipartido, bicolor (preto em cima, com laterais de curvim prateado). Traz textura áspera por cima, ótima ideia para evitar escorregões, especialmente em condução sob chuva. A parte do assento destinada ao piloto tem uma pequena plataforma de apoio que permite diminuir sua altura, facilitando a pilotagem por quem tem menos de 1,80 metro.

A ergonomia é boa e a posição de pilotagem, confortável. O assento é um pouco rijo para longas jornadas. O conjunto ótico dianteiro tem dois faróis simétricos (característicos das motos Yamaha). Na posição de facho alto, as duas lâmpadas acendem, diferentemente do que acontece na 250 cc, e o farol alto é poderosíssimo.

A carenagem em que os elementos óticos estão acoplados tem um parabrisa com ajuste manual de altura, para proteção do piloto contra garoa e spray de pneus. A Yamaha voltou a acertar no painel, completo e bonito, combinando o conta-giros analógico (redondo) ao velocímetro em painel digital LCD de fundo alaranjado, com hodômetro (total mais dois parciais), indicador de marcha em uso, marcador de combustível, consumo médio e instantâneo, temperatura do líquido de arrefecimento e do ar na entrada da mistura, além do modo de potência e de controle de tração no qual a moto está ajustada.

TIQUE NERVOSO Ao dar a partida no motor de dois pistões paralelos com duplo comando para oito válvulas e duas velas de ignição por cilindro, percebe-se um ruído (característico da Yamaha) que vem do comando (um tique-tique acelerado). À medida que sobe o giro, o som vai ficando menos perceptível.

O big twin gera potência máxima de 110 cv a 7250 rpm e tem ótimos 11,6 mkgf de torque máximo a 6000 rpm. Na prática, empurra com muito vigor desde rotações bem baixas, com uma subida de giro bem progressiva. A resposta imediata do motor pode fazer com que o piloto ainda desavisado tenha que desacelerar para retomar a trajetória, tornando a tocada mais “quadrada” nas curvas.

Os dois modos de potência (Touring e Sport) ajustam injeção, ignição e velocidade de abertura das borboletas. No Touring, a mistura é empobrecida e o ponto de ignição, atrasado: a tocada fica mais suave e econômica. No ajuste esportivo acontece o contrário – e as respostas são rápidas e agressivas. O controle de tração tem dois diferentes modos. No modo 1, o piloto terá total atuação do sistema em qualquer tipo de piso, entrando em ação ao mínimo sinal de derrapagem. A posição 2 permite uma tocada mais agressiva, retardando em fração de segundo a atuação do controle de tração.

A progressividade não significa, de modo algum, falta de agressividade. A aceleração na pista foi muito boa. A moto atingiu os 100 km/h – partindo da imobilidade – em apenas 4 segundos. O mesmo nível de desempenho digno de uma esportiva também foi repetido nas retomadas de velocidade. O câmbio mostrou bom escalonamento, com engates precisos e muito macios.

ATENÇÃO NO FOFO As suspensões copiam as irregularidades, graças às bengalas invertidas com 43 mm de diâmetro e 190 mm de curso, com ajustes de compressão, retorno e pré-carga de mola. A traseira monomortecida tem pré-carga e retorno ajustáveis e igual curso.

Os pneus Metzeler vão bem no asfalto. Apesar dos sulcos que os caracterizam como multiterreno, garantem grip em tocadas agressivas, sem perda de aderência, permitindo inclinação em curvas. Já na areia… Derrapam bastante, exigindo atenção.

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Os freios, com ABS unificado – sem opção de ser desligado -, têm comportamento peculiar. Nas freadas fortes o sistema bloqueia a roda traseira intermitentemente, deixando-a derrapar um pouquinho, sem perder a trajetória. Os dois discos dianteiros de 310 mm de diâmetro são mais que suficientes para frear a moto e, ao contrário do que ocorre no disco traseiro de 282 mm, não travam nem por um milímetro quando o sistema ABS entra em ação.

A transmissão final é por eixo cardã. Entretanto, com balança convencional, trocar o pneu traseiro da Super Ténéré torna-se operação de alta complexidade. Para facilitar, ela vem com cavalete central. É preciso soltar o eixo, desaparafusar e afastar a pinça de freio e também soltar quatro porcas na ponta do eixo cardã antes de puxar a roda para trás. Remontar o conjunto exige cuidado redobrado: cardã e pinça de freio têm encaixes precisos de acoplamento.

BOA DE BURACO Em terrenos escorregadios, a XT 1200Z mostra que é um pouco menos off-road do que o lendário nome sugere. Afinal de contas, ninguém teria coragem – e porte físico – para levar uma Super Ténéré às trilhas. Em uma estrada sem pavimento, ela vai perfeitamente bem. No asfalto esburacado, é melhor que qualquer superesportiva ou naked.

Sem dúvida, a nova moto da Yamaha é espetacular. Entre europeias, cuja rede de revendas é muito mais restrita, não deve encontrar resistência para liderar o segmento das supertrail com motor acima de 1 litro.

TOCADA Tem ótima desenvoltura no asfalto, dando sensações de moto pequena. Fora dele, revela-se pesada, principalmente quando o chão é escorregadio.

★★★★

DIA A DIA Pode ser usada diariamente, mas o porte exige cuidado, principalmente entre os carros, no trânsito.

★★★★

ESTILO Chamativa: não faltam olhares de admiração e perguntas sobre minúcias, principalmente ao estacionar.

★★★★

MOTOR E TRANSMISSÃO O motor tem boa potência, mas é a elasticidade do torque que rouba a atenção. O câmbio é bem escalonado e tem engates rápidos e macios.

★★★★

SEGURANÇA O sistema unificado de freios ABS, somado ao controle de tração que pode ser desligado, oferece segurança on e off-road.

★★★★★

MERCADO O preço é competitivo no segmento. Equivale ao das europeias, mas com aquele algo a mais em equipamentos de série.

★★★

VEREDICTO

A moto é esplêndida, tecnológica e rápida. Tem desempenho brilhante e muita tecnologia. Sem rival japonesa, deve liderar o segmento supertrail.

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