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Jeremy Clarkson: na prática, a teoria do Fiat 124 Spider é outra

A ideia de pegar a base do Mazda MX-5 e colocar um design e motor italianos para recriar o velho e belo Fiat 124 Spider era ótima. Até eu andar no carro...

Por Jeremy Clarkson
Atualizado em 3 jan 2017, 13h49 - Publicado em 2 jan 2017, 19h52
Fiat 124 Spider
(Divulgação/Fiat)

Vamos colocar as coisas nos devidos lugares. O carro que ilustra este artigo não é um Fiat 124 Spider. Ele possui um motor Fiat, leva o emblema da Fiat e tem alguns toques de estilo que remetem ao deslumbrante 124 Sport Spider de 1966. Só que, por baixo, é um Mazda MX-5.

Quando ouvi que a Fiat procurou a Mazda para produzir uma versão He-Man do esportivo mais vendido (e o melhor) do mundo, fiquei tão empolgado que tive de me sentar por alguns instantes. E aqui está o porquê.

Fazer um esportivo deveria ser simples. Mas fazer ovo pochê na torrada também deveria ser. E no entanto, quase todos os hotéis do mundo fazem errado. Cozinham o ovo por tempo demais, colocam-no na torrada antes de ter drenado a água, ou cobrem de matinhos como salsa, o que é desnecessário.

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E é isso o que acontece quando uma marca tenta projetar um esportivo atualmente. Ela o otimiza para uso na pista, em vez de na estrada, ou coloca o motor em posição central, e você fica pensando: “Olha, seus idiotas. Eu quero o motor na frente, tração traseira e uma capota de lona que possa ser aberta quando eu quiser aproveitar o sol. Não compliquem. Façam só isso. E bem”.

E é por isso que a Mazda acertou em cheio com o MX-5: é simples e executado de forma perfeita. O melhor ovo pochê na torrada que o mundo já viu. Tem o tamanho perfeito. Seu preço é perfeito. Seu motor tem o tamanho certo e ele só traz os brinquedos de que você realmente precisa. Eu o adoro.

No entanto, não há como evitar o fato de que ele é meio que… Como posso colocar isso? Delicado? Você não vê muitos caras duros na queda em Mazdas. Não é o tipo de carro que seria usado pelo Exterminador do Futuro.

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E é por isso que fiquei tão empolgado com essa história da Fiat.

A ideia era simples: pegar a arquitetura do Mazda, o que economizaria uma fortuna no desenvolvimento, e acrescentar seu próprio motor e estilo, o que pensei que transformaria um dedo de Baileys em um galão de bloody mary, com todos os enfeites.

O problema é que a característica mais marcante e atraente do 124 antigo era o formato das laterais traseiras, que se projetavam como as asas de uma gaivota a partir da tampa do porta-malas, plana. A Fiat tentou copiar isso, mas a tampa do porta-malas do Mazda não é plana, por isso o resultado ficou estranho.

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Fiat 124 Spider
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E tem mais. Embora não haja problema em tornar a carroceria do seu carro maior e mais musculosa, isso não funciona bem se você a enfiar na base de um veículo mais delicado. Fica parecendo um elefante sentado em um monociclo. Um carro grande com rodas de carro pequeno perdidas nas caixas de roda.

A dianteira não é de todo má, mas eu não gostei das duas saliências no meio do capô. O 124 original as tinha porque precisava de altura extra para seu motor com duplo comando. Já no atual elas estão só para efeito visual, como as estúpidas saí­das de ar falsas do Range Rover. E isso me incomoda.

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Eu gastei mais tempo do que o normal analisando o visual porque é isso o que importa nele. A principal razão para você comprá-lo é achar que falta “musculatura” no design do MX-5. A outra razão é querer algum tempero italiano, e isso me leva ao motor, que na versão que testei era o 1.4 turbo da Fiat.

Não é ruim, mas esperava que no 124 a Fiat fizesse com que ele tivesse um som mais vigoroso. Mas isso não aconteceu. O que não é bom. Quando está em um esportivo em um dia ensolarado e a capota recolhida, você quer ouvir o rugido da admissão do ar e estalidos do escapamento. Mas o que você tem no 124 é um ruído “papai e mamãe” da dianteira e um escapamento com tom “feijão com arroz”. É uma pena.

Antigamente eu dizia que, quando a capota está baixada, qualquer carro, de um supermoderno Rolls- Royce Dawn a um antigo Sunbeam Alpine, passa a mesma sensação. Há tanto barulho e rajadas de vento que se concentrar nos detalhes da dirigibilidade e do som do escapamento é como se concentrar na vista ao seu redor quando você está sendo devorado por um urso. Mas é bom saber que, se você se concentrasse nessas coisas, elas estariam certas.

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Ao dirigir, o Fiat é mais macio do que o MX-5, o que não chega a ser um problema, mas a falta de firmeza faz com que você tenha a sensação de que está em um daqueles conversíveis antigos, cuja carroceria ficava se contorcendo.

Fiat 124 Spider
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E para distanciar ainda mais o 124 dos Mazdas mais apimentados, a maioria das versões não tem diferencial de deslizamento limitado, por isso você não vai conseguir tirar fumaça dos pneus em drifts. É estranho. Era de se esperar que o Fiat, sendo italiano e tudo mais, seria mais esportivo e teria mais pegada do que o MX-5. Mas na verdade ele é mais silencioso e menos divertido.

Meu colega Richard Hammond disse que a versão Abarth, que tem diferencial de deslizamento limitado, é bem diferente. E é bem mais cara. Por falar de preços, a notícia também não é boa. Porque o Fiat que testei é mais de 1.000 libras (R$ 3.900) mais caro do que o MX-5.

Se parece que tive uma decepção com o 124, é isso mesmo. Porque eu estava esperando que ele fosse algo que não é. Mas, dito isso, ainda é um bom jeito de se passear. A capota pode ser baixada e levantada com uma mão, sem que você tenha de sair do banco. E eu adoro o fato de que ela não seja elétrica. Também adorei os bancos de couro marrom e o nível dos equipamentos. E o porta-malas tem um tamanho decente. Provavelmente porque a tampa não é plana, como deveria ser.

O mais importante de tudo, no entanto, é a sensação de bem-estar que sinto ao saber que, neste exato momento, na porta da minha casa está um esportivo italiano de dois lugares. Mas o que diminui essa sensação um pouco é que ele simplesmente não é tão bom quanto seu irmão japonês.

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