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Desmonte: Caoa Chery Tiggo 5X revela surpresas boas e ruins aos 60.000 km

Primeiro Caoa Chery no Longa Duração, o Tiggo 5X mostra como se saiu após o teste de 60.000 km

Por Henrique Rodriguez Atualizado em 5 ago 2021, 03h32 - Publicado em 5 ago 2021, 03h30
Desmonte carroa chery tiggo 5x longa duração teste 60.000 km
A carroceria acabou sendo a parte mais surpreendente do SUV durante o desmonte Fernando Pires/Quatro Rodas

Desde o nosso primeiro contato, ainda na China, o Tiggo 5X se apresentou promissor. Bem equipado, com bom espaço e silencioso, se mostrou capaz de ajudar a Caoa a construir uma nova imagem da Chery no Brasil.

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Agora, desmontado após ter rodado 60.000 km, é hora de conferir a integridade mecânica do SUV montado em Anápolis (GO) e atestar se o serviço da rede de concessionárias foi prestado corretamente.

A expectativa por esse momento foi grande. Não por ser um carro com projeto chinês, pois já havíamos notado um enorme salto de qualidade do famigerado Effa M100 (que não concluiu o teste) para o JAC J3, que surpreendeu no desmonte. Mas pela oportunidade de conhecer mais a fundo os carros da Chery e seus processos construtivos.

Comprado em junho de 2019 por R$ 95.000 (R$ 104.580, se corrigido pelo IPCA), nosso Tiggo 5X TXS concluiu o teste avaliado por até R$ 82.000 em concessionárias Caoa Chery. Difícil seria bancar a troca em um zero-km equivalente, que custa, hoje, R$ 122.990.

Um fato é que, do ponto de vista mecânico, o convívio com o Caoa Chery Tiggo 5X foi relativamente tranquilo. Não houve quebra, a não ser a do para-brisa, vitimado por uma pedra aos 29.145 km.

  • Em garantia, fizeram a troca das duas molduras dos faróis de neblina – apenas uma estava com a pintura descascada, mas a concessionária D21 instalou duas novas para não ter diferença na coloração – e do retrovisor interno, pois a função antiofuscante não funcionava. Até mesmo os pneus, Michelin Primacy 3, resistiram bravamente com dois furos no histórico (sempre no traseiro esquerdo) e com borracha para rodar, pelo menos, mais 10.000 km.

    Por outro lado, o diário de bordo tem registrado as pequenas ocorrências e as percepções dos 19 motoristas que revezaram na direção do Tiggo 5X. Muitas anotações sobre o comportamento da transmissão, da qual falaremos mais adiante, mas também apontamentos sobre a central multimídia (sobre a interface confusa, travamentos no uso do Apple CarPlay, do espelhamento de Android, cujo aplicativo deixou de funcionar), lâmpadas dianteiras queimadas (faróis baixos e neblinas dos dois lados) e sobre o comportamento da suspensão.

    Aprovadas motor tiggo 5x
    Renato Pizzutto/Quatro Rodas

    Características do carro também foram destacadas, como a falta de indicação da velocidade ao ativar o piloto automático ou ter de ligar a função auto-hold do freio de estacionamento e o compressor do ar-condicionado a cada nova partida do motor. O ar-condicionado é digital, mas não automático: não é possível definir uma temperatura.

    O motor, por si só, agradou. O 1.5 Acteco com turbo e injeção multiponto flex entrega até 150 cv e 21,4 kgfm – em uma faixa de preço onde ainda há motores 1.8 e 2.0 aspirados, ou 1.0 turbo, eventualmente com injeção direta –, números que se mostraram adequados para seus 1.424 kg (menos que os 1.448 kg de um Jeep Renegade 1.8 flex).

    Quando o câmbio permitiu, o motor conseguiu entregar um bom desempenho. Só não foi tão econômico quanto seus concorrentes: a média dos 60.000 km foi 8,9 km/l, sempre com gasolina.

    Respiração forçada

    O motor recebe atenção especial no desmonte, mas só depois de uma breve rodagem para obtenção das impressões derradeiras e para colocar os sistemas em temperatura de trabalho. Antes de soltar os parafusos, nosso consultor, Fábio Fukuda, faz as medições estáticas.

    Para as pressões de óleo, a Caoa Chery indica como nominais, respectivamente, acima de 0,7 bar em marcha lenta e acima de 2,5 bar a 3.500 rpm. Aos 60.000 km, nosso carro apresentou 1 e 3 bar para a pressão do óleo. Na linha de combustível, medidos 410 kPa, pouco abaixo dos 420 kPa indicados pela fabricante.

    Aprovadas motor e freio tiggo 5x
    Renato Pizzutto/Quatro Rodas

    Com a pressão de compressão dos cilindros, um dos principais indicativos da saúde de um motor, tudo certo. O material técnico da fabricante estipula 10 bar como nominal e 7 bar como mínima tolerada, sem estipular a diferença entre os cilindros. Por padrão, são feitas três medições em cada cilindro.

    Os cilindros 2 e 3 mostraram médias de 9,83 e 9,66 bar, com 10,33 bar no cilindro 1 e 10 bar no cilindro 4. Todos muito próximos da pressão nominal.

    Antes da retirada do conjunto mecânico, a atenção se volta para as caixas de roda. Nos freios, as medições de espessura de discos e pastilhas estavam dentro dos limites tolerados pela marca chinesa, com pouco mais de 1 mm de material em cada disco e as pastilhas na metade da vida útil.

    Contudo, a Chery não define uma tolerância para desvio lateral dos discos, sendo que o traseiro esquerdo apresentou desvio de 0,35 mm e o direito, de 0,40 mm, sendo eles os culpados pela trepidação nos freios relatada pelos usuários nos últimos tempos.

    O passo seguinte é a desmontagem da suspensão, um conjunto que deu o que falar e também trabalho às concessionárias. Isso porque, por mais que garantisse uma boa estabilidade em retas, vacilava com rebotes fortes ao encontrar relevos.

    Atenção suspensão tiggo 5x
    Renato Pizzutto/Quatro Rodas

    Foram constantes os relatos de barulhos na suspensão, que as concessionárias corrigiam com reapertos recorrentes. Mesmo na revisão dos 50.000 km, quando o carro chegou à concessionária tombado para a esquerda e com a dinâmica prejudicada.

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    O efeito de tantos reapertos foi notado no desmonte. “Alguns componentes, como as bandejas da suspensão, estavam com torque excessivo. Se tivéssemos que realizar a manutenção delas ainda montadas no veículo, teríamos extrema dificuldade”, explica o técnico Fábio Fukuda.

  • Soltar tudo deu trabalho, mas não encontramos sinais de fadiga nos componentes das suspensões, McPherson na dianteira e multilink na traseira. Todas as buchas de bandejas, terminais de direção, mancais e ligações das barras estabilizadoras e amortecedores estavam em bom estado levando-se em consideração a distância percorrida. Só os coxins dos amortecedores dianteiros apresentaram desgaste maior.

    Os componentes, em si, estão aprovados. Resistiram aos 60.000 km. Mas a fixação deles, os efeitos no comportamento do carro e a constante necessidade de reapertos são problemas e requerem atenção dos proprietários, dos concessionários e da fabricante.

    Atenção carroceria tiggo 5x
    Fernando Pires/Quatro Rodas

    Com a suspensão fora do carro, retiramos motor e câmbio. E tivemos boas surpresas. Ao retirar o cabeçote, veio a confirmação do que a aferição de compressão indicara: a câmara de combustão estava extremamente limpa e sem sinais de carbonização nas válvulas e cabeça dos pistões.

    Pela parte inferior do bloco (que é de ferro) retiramos um virabrequim em estado de novo, ainda com munhões e moentes dentro das especificações da fábrica para uma peça nova. Não constatamos desgaste nenhum nele ou em suas bronzinas de mancal e bielas, apesar de o fabricante não disponibilizar os valores de espessura das bronzinas.

    Desmonte carroa chery tiggo 5x longa duração teste 60.000 km
    Assoalho tem pontos de oxidação superficial através da pintura e em junções Fernando Pires/Quatro Rodas
    Desmonte carroa chery tiggo 5x longa duração teste 60.000 km
    Trava da tampa do porta-malas ficou oxidada Fernando Pires/Quatro Rodas

    O clima dentro dos cilindros pode não ser tão agradável entre compressões e detonações, mas não vimos nenhum sinal desse estresse nos anéis dos pistões ou na parede dos cilindros. A propósito, medimos meros 0,01 mm de ovalização nos cilindros 1 e 4. “O motor chegou ao final do teste em perfeito estado e com todos os parâmetros por nós aferidos rigorosamente dentro do especificado pela Chery”, relata Fukuda.

    E, então, chegamos ao personagem mais angustiante deste longo teste: o câmbio. Este câmbio de embreagem dupla a seco e seis marchas, 6DCT250 é o Powershift que tantos processos rendeu à Ford, em uma versão atualizada. Ainda assim, rendeu muitas reclamações sobre trepidação, trocas agressivas e reações lentas ao longo dos 60.000 km.

    Desmonte carroa chery tiggo 5x longa duração teste 60.000 km
    Fernando Pires/Quatro Rodas
    Ferrugem caoa chery tiggo 5x
    QR/Quatro Rodas

    Não houve contaminação de óleo nas embreagens, falha que acometeu muito dos Ford, assim como não houve as patinadas características ou superaquecimento. O que restou dos tempos de Ford foram as trepidações e trocas com solavancos.

    “Tais problemas vêm do controle de altura do sistema de dupla embreagem, com software que falha por não conseguir identificar a altura correta de liberação do disco de embreagem. Sem sinais de danos na área das embreagens e com o fluido da transmissão em bom estado e sem indicar problemas de desgaste nas engrenagens internas, optamos por não desmontar a caixa por completo”, explica Fukuda.

    câmbio powershift caoa chery tiggo 5x
    Identificação do câmbio 6DCT250 da Getrag/Magna. É um PowerShiift Henrique Rodriguez/Quatro Rodas

    As várias reprogramações do câmbio nas passagens pelas concessionárias não foram capazes de normalizar o comportamento da transmissão.

    As grandes surpresas vieram na desmontagem do interior. Terminais elétricos íntegros, tomadas de passagem bem localizadas e ausência de oxidação são pontos positivos do sistema elétrico.

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    Ponto preto ao centro é a trava plástica pela qual entrava a água Fernando Pires/Quatro Rodas

    Mas chamou atenção que todos os painéis de acabamento têm poucos pontos de fixação, o que permite que sofram torção e isso pode ter resultado no aumento no nível de ruído interno entre o primeiro e o último teste.

    “O caso mais impressionante é dos painéis laterais do porta-malas, que são extensos e, além de poucos pontos de fixação, têm apenas um acolchoado (o que evita que o painel vibre) de cada lado. Na última volta com o carro, notei barulhos vindos da traseira”, detalha o consultor.

    Desmonte carroa chery tiggo 5x longa duração teste 60.000 km
    Água e pó entravam pela trava. E isso deixou marcas por dentro da moldura plástica da tampa Fernando Pires/Quatro Rodas

    Outro ponto fraco está nas vedações do Chery Tiggo 5X. Borrachas das portas permitiram a entrada de grande quantidade de pó no habitáculo. Além disso, a infiltração de água no porta-malas se mostrou muito mais grave do que aparentava. O acúmulo no tampão do porta-malas, na verdade, era a exceção.

    Convívio Tiggo 5X
    Acervo/Quatro Rodas

    O apêndice na tampa, que faz as vezes de aerofólio, é fixado por dois parafusos nas extremidades e por uma trava central, sem porca ou qualquer vedação, permitindo a entrada de pó, que se acumulou na moldura interna. A água descia pelo vidro e pela tampa até atingir a fechadura do porta-malas e, assim, chegar ao assoalho do compartimento.

    O efeito disso foram pontos de ferrugem superficial espalhados pelo assoalho do porta-malas e até sob o banco traseiro (possivelmente por outra falha de vedação), além de ter deixado a trava da fechadura com aspecto de metal de sacrifício, tamanha a quantidade de oxidação na peça, que era escondida pelos plásticos de acabamento.

    comparação valores tiggo
    Arte/Quatro Rodas

    O Tiggo 5X foi bem nos componentes que mais costumam sofrer com o “fator Brasil”, que são motor e suspensão. Mas fazia tempo que não víamos falta de cuidado com acabamentos internos, especialmente nessa faixa de preço. O Volkswagen Virtus também teve problema com entrada de água no porta-malas, mas não sofreu com pó ou ferrugem. São essas as ressalvas dessa aprovação.

    O mais difícil a Chery já fez. Agora falta corrigir coisas bobas e trocar o câmbio pelo CVT dos sedãs Arrizo para ter um carro sem ressalvas.

    Veredicto

    Com motor e suspensão resistentes, e bom serviço das concessionárias, o Tiggo 5X foi aprovado. Mas ainda não é o melhor do mundo. A Caoa Chery tem a oportunidade de melhorar o SUV na linha 2023 com a troca do câmbio vacilante pelo CVT, revendo a fixação da suspensão e melhorando a vedação da cabine.

    Fichas Tiggo 5x
    Arte/Quatro Rodas

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    Edição de julho

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