WRC: mundial de rali mostra a paixão argentina pelo automobilismo

Fanáticos por velocidade, nossos <em>hermanos</em> goleiam o Brasil quando falamos em paixão pelo esporte a motor

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Milhares de carros ocupavam as margens de uma grande rodovia nos arredores de Villa Carlos Paz, uma minúscula cidade na Argentina. Alguns estão lá há vários dias, dormindo em barracas de camping ou até no próprio veículo. Cadeiras de praia e churrasqueiras portáteis são os maiores luxos disponíveis no local. Poderia ser uma legião de fãs à espera de um grande show, mas a expectativa era apenas pela passagem dos pilotos do Campeonato Mundial de Rali, o WRC. Seriam poucos segundos diante dos carros, mas o suficiente para levar os fanáticos hinchas à loucura.

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Este episódio ilustra a paixão que os argentinos cultivam pelo automobilismo. Embora não tenha representantes na Fórmula 1 desde 2001 (quando Gaston Mazzacane disputou sua última corrida no GP de San Marino) e nunca tenha conquistado resultados expressivos na categoria após os cinco títulos mundiais de Juan Manuel Fangio, nossos vizinhos veneram o esporte a motor quase na mesma intensidade que outras modalidades mais populares em seu próprio país – perdendo apenas para o futebol. São mais de 24 autódromos espalhados pelo país, que recebem diversos campeonatos regionais e nacionais, como a TC2000 e a Turismo Carretera.

Tamanha paixão atraiu algumas das principais categorias do planeta: atualmente, os argentinos sediam etapas da MotoGP e WTCC (Campeonato Mundial de Carros de Turismo), além de ser palco do rali Dakar desde 2008. Enquanto isso, o Brasil recebe a Fórmula 1, mas sofre com a falta de infraestrutura dos autódromos, que não raramente são vendidos para construtoras (como ocorreu em Curitiba) ou até mesmo destruídos para dar lugar a outras obras, caso do famoso Autódromo de Jacarepaguá, colocado abaixo para a construção do Parque Olímpico. De repente fica fácil entender o abismo que existe entre os países quando falamos em automobilismo…

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A Argentina faz parte do calendário do rali mundial desde 1980 – apenas em 1982 não houve corrida por conta da disputa pelas Ilhas Malvinas. A prova é classificada como uma das mais desafiadoras e imprevisíveis da temporada, por conta das variações climáticas e de relevo. Neste ano, a etapa teve 18 estágios, totalizando 364,68 quilômetros de corrida – a distância total contando todos os deslocamentos é de 1.333,26 quilômetros.

Durante os quatro dias de prova, a pequena cidade de Villa Carlos Paz se mobiliza exclusivamente em torno do rali, recebendo milhares de turistas de todas as partes da Argentina e do mundo. Mas a empolgação pela presença dos melhores pilotos de rali do mundo começou na semana anterior, quando a Volkswagen organizou um evento de exibição do Polo R WRC em Tigre. Andreas Mikkelsen e o tricampeão mundial Sebastien Ogier fizeram a alegria dos fanáticos argentinos, que ficaram debaixo de chuva vendo as manobras do Polo.

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Pudemos testemunhar de perto esta paixão dos argentinos pela velocidade. Com livre acesso às dependências do parque fechado, frequentemente éramos confundidos com membros da alguma equipe. Do lado de dentro, víamos fãs aglomerados em frente à barreira de cavaletes por horas, esperando apenas pela passagem de algum veículo ou até mesmo um simples aceno de um piloto. Simpáticos, muitos deles se aproximavam do público para tirar fotos e dar autógrafos. Até os chefes de equipe foram tietados. Neste ponto, aliás, o WRC em nada se parece com a glamourizada Fórmula 1, na qual a relação entre torcedores e pilotos praticamente inexiste, tamanhas as restrições impostas pela mesma FIA que organiza ambas as categorias. No rali não tem essa de proibição aqui e ali. 

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Por isso, o frisson em torno do “circo” do WRC aumentou consideravelmente nos dias seguintes. O auge aconteceu na desafiadora super especial 16, ligando El Condór a Copina. Com 16,32 quilômetros de extensão, o trecho combina estradas sinuosas recobertas de terra e cascalho com uma paisagem de tirar o fôlego, com montanhas deslumbrantes que fazem parte do percurso dos carros. Neste dia, aliás, nos deparamos com vários veículos tomando acostamentos, estradas vicinais e até mesmo algumas partes das montanhas da região. A maioria dos espectadores estava lá há pelo menos três dias, sobrevivendo em meio ao frio congelante – no domingo da etapa realizada em El Condór, o termômetro estava perto de zero grau. Eram turmas de amigos (e amigas), casais sem filhos e famílias inteiras. Não havia conforto algum, mas todos estavam lá em nome da paixão imensurável pelo rali.

Chega a hora da passagem dos carros, e fica cada vez mais difícil conter a empolgação dos fãs, que se aglomeram perigosamente nas laterais da pista à espera dos seus ídolos. Uma imagem capturada pela equipe de filmagem do WRC resume bem a veneração dos argentinos: à beira da estrada, três homens começam a reverenciar Ogier assim que o Polo surge no meio da paisagem jogando pedras para todos os lados, e continuam os gestos mesmo depois do piloto passar pelos espectadores agora recobertos de poeira e terra.

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As manifestações de carinho seguiram até o último dia, quando os pilotos voltaram a Villa Carlos Paz para a cerimônia de premiação. Além do forte acidente sofrido por Jari-Matti Latvala (Volkswagen) após a quebra de um dos amortecedores, a etapa portenha ficou marcada pela primeira vitória da carreira de Hayden Paddon, da Hyundai – e a primeira da equipe coreana neste ano. O segundo lugar ficou com Ogier, que chegou a tirar uma diferença de 19 segundos para Paddon na penúltima especial do rali, mas novamente não conseguiu triunfar na Argentina – a única etapa em que nunca venceu até hoje. Andreas Mikkelsen (VW) foi o terceiro colocado.

Apesar do resultado frustrante, a marca alemã voltou para casa com motivos para comemorar. Afinal de contas, Ogier lidera o campeonato com 96 pontos, 39 a frente de Paddon. No Mundial de Construtores, a situação também ainda é confortável: a VW soma 117 pontos contra 81 pontos da Hyundai. A próxima etapa será realizada em Portugal, entre os dias 19 e 22 de maio.

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