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Expectativa frustrada

Por Redação - 11 nov 2014, 09h00

Todo ano, viajo várias vezes para gravar programas na Itália, e adoro a experiência. A Itália me alegra, ela me empolga. Gosto dos seus tomates e do seu estilo de dirigir exuberante. A Itália me deixa muito feliz. E, no entanto, sempre passo minhas férias de verão no sul da França. Tenho uma razão muito boa para isso. Quando tenho tempo livre na Itália, sinto o dever de sair pela cidade onde estou e procurar um afresco para contemplar. Quando tenho tempo livre no sul da França, sinto o dever de sair e procurar uma taça refrescante de vinho rosê para beber. E eu prefiro vinho rosê a afrescos. Este ano, Saint-Tropez estava ainda melhor do que o normal, porque houve uma mudança sutil. Normalmente, em agosto o centro da cidade está entupido de carros com placas britânicas, mas neste ano foi difícil ver um. Isso porque eles foram todos apreendidos pela polícia rodoviária no
meio do caminho.

Já comprovei várias vezes nos últimos anos que é mais rápido chegar ao sul da França de carro do que de avião ou de trem. Mas isso acabou, porque os franceses perderam totalmente o senso de humor sobre excesso de velocidade. Eles empregam tecnologias que a CIA consideraria futurista e acabaram com todas as delicadezas de um sistema judicial. Você é parado e, na hora, eles pegam todo o dinheiro que você tem. E sua carteira de motorista. E seu carro. Achei tudo isso ótimo, porque ficou fácil achar um lugar num café para uma taça de vinho. E uma moleza achar lugar para estacionar, mesmo para meu enorme Jaguar XJR.

Eu não poderia ter escolhido um carro mais inadequado para Saint-Tropez. Ele ficava estacionado naquelas ruas estreitas de vila de pescadores como aqueles superiates gigantes ficavam ancorados no porto. Ele parecia ridículo e bloqueava a vista, e tirá-lo de um estacionamento subterrâneo era como tirar o ursinho Pooh da casa depois de ele ter comido todo seu mel. No entanto, para chegar a Saint-Tropez é outra história. Para evitar os nazistas da polícia rodoviária, cheguei à França pela porta dos fundos – pela Itália. Pense nisso. De Siena a Saint-Tropez em um belo dia ensolarado com um potente Jaguar. Está com inveja? Deveria.

Para contornar o problema comum das estações de rádio europeias, que transmitem um som que parece o tipo de ruído que deve ser tocado para prisioneiros da Baía de Guantánamo quando eles estão sendo torturados, conectei meu iPod ao painel, encaixei-o no console central do ar-  condicionado, ajustei a temperatura para 21 °C e apontei aquele nariz grande e imponente em direção a Côte d’Azur.

Você não vê muitos desses Jags enormes na Europa, e os números de venda corroboram isso. Ele não tem sido um sucesso retumbante e acho que há duas razões. A primeira é que, embora não seja um carro feio, não tem o visual que esperaríamos de um Jaguar. Ele não é leve nem gracioso. E também não é bonito de verdade. E no interior é a mesma história. Esperaríamos um clube de cavalheiros cheio de fumaça de cachimbo, mas a marca nos deu um bar de vodca. Não que seja ruim. Mas está errado. Há ainda outro problema. Mesmo os sedãs mais esportivos da Jaguar costumavam flutuar sobre os buracos da estrada. O XJR não. Numa estrada italiana tipicamente estreita, ele pegou uma emenda de asfalto e deu uns pulos bem alarmantes. Isso não pode. Se a Jaguar quiser vender uma quantidade razoável de carros, vai precisar reaprender a arte de fazer uma suspensão que suspenda e absorva ao mesmo tempo.

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Se eu estivesse fazendo um test-drive com um carro e ele pulasse para o lado ao passar por uma emenda de asfalto, eu sairia do carro o quanto antes e iria comprar um BMW Série 7. Mas eu tinha muita quilometragem para cobrir e o tempo estava contado, por isso não dava. Eu precisava estar no aeroporto de Nice em 3 horas, para pegar várias crianças. Eu tinha um tanque cheio de gasolina, um maço de cigarros pela metade, estava escuro e eu usava óculos de sol. Então ficou claro. E daí ficou escuro novamente. Nossa, como há túneis na autoestrada que sobe a costa oeste da Itália. E vários radares fotográficos de velocidade, também. Mas um amigo tinha me falando em Siena, na noite antes da minha partida: “Ah, não se preocupe com os radares. Todos eles estão quebrados”. Essa é outra razão para amar a Itália. Você pode ter quantas leis quiser, desde que elas não sejam fiscalizadas na prática. Basta contar quantos carros andam por zonas exclusivas para pedestres para apreciar isso.

Então comecei a fazer a festa com aquele grande V8 com compressor de 550 cv, que despeja potência na estrada como creme de leite. Não há exageros teatrais e, exceto pelo rugido contido dos escapamentos, não existe uma sensação real de estar acelerando ou da velocidade em que você está. Às vezes, alguns motoristas italianos tentavam apostar corrida com o grande Jag na saída dos pedágios. Todos perderam. Bom, principalmente porque a maioria deles estava dirigindo carros pequenos da Fiat. Com motores a diesel.

Nem vou dizer como cheguei rápido à fronteira da França. Mas posso dizer que, depois de cruzá-la, passei a dirigir suando frio como um jogador de futebol em uma prova de física quântica. O limite de velocidade variava entre 90, 130 e 110 km/h só para pegar os incautos. Mas eu não estava entre eles. Eu estava alerta, o que, após um percurso longo, fala muito sobre o refinamento do Jaguar. Ele é um carro muito bom para viagens. Em Nice, ele engoliu toda a bagagem extra (mesmo que meu filho tenha trazido apenas uma camiseta e dois pares de bermudas para as duas semanas de férias). E lá fomos nós novamente, a 90, então 110, daí 130… e a 90 km/h novamente. E após uma voltinha curta pela baía de Saint-Tropez, que só levou 6 horas, chegamos ao chalé. E fomos para uma festa em um iate, que terminou às 5h30 da manhã. Como disse, esse Jag não o deixa esgotado.

Mas a verdade é que nenhum carro grande desse tipo deixaria você cansado. Os BMW, Audi e Mercedes-Benz grandes são todos silenciosos e rápidos, todos têm eletrônica faz-tudo, que pode mantê-lo refrescado, encontrar seu destino e tocar músicas do Genesis armazenadas no seu iPod.

Mas não há como escapar do fato de que, em pisos ruins, o Jaguar não anda de forma adequada. E isso é razão suficiente para eu ir procurar outro carro para comprar.

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