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Quando calibradores ruins e pneus vazios renderam um carro ao repórter

Pneus murchos foi um assunto que deu o que falar e até rendeu um Fiat Spazio ao repórter de QUATRO RODAS

Por Fábio Black 20 dez 2021, 08h36

Um texto sobre calibragem de pneus (edição 269, de dezembro de 1982) me rendeu o Prêmio Chico Landi de Jornalismo Especializado e um carro zero-km, nada menos que um Fiat Spazio TR 1.3, o hatch da Fiat na versão esportiva (TR vinha de Turismo Racing).

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E a entrega simbólica das chaves foi feita pelo próprio piloto Chico Landi (o primeiro brasileiro a correr na F1), na sede da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), em São Paulo (SP).

Tudo começou com uma mensagem de leitor. Uma das coisas que eu fazia na época era responder a correspondência da seção Correio Técnico. E chegou uma carta em que o leitor perguntava como poderia ter certeza de que um calibrador de pneus marcava a calibragem corretamente?

Comecei dizendo que calibradores são instrumentos de precisão e, portanto, supõe-se que sejam aferidos. Mas, enquanto escrevia, passei a refletir e questionar se seria isso mesmo. Aí me deu aquele estalo: a revista tinha acabado de comprar um calibrador novo e eu não tive dúvida: liguei para a fabricante do instrumento, a Schrader do Brasil.

O gerente de vendas da empresa, Paulo Novoa, me deu várias informações e disse que poderia me ajudar na resposta ao leitor. A carta, porém, virou uma pauta. Resolvi fazer um teste de calibradores de pneus.

Comecei por avaliar calibradores manuais à venda no mercado. Encontrei oito marcas diferentes. Os testes foram feitos na Fábrica II da VW, na antiga unidade da Vemag (Veículos e Máquinas Agrícolas S/A), no bairro do Ipiranga, em São Paulo, com a assessoria do engenheiro José Carlos Marcos da Silva, então analista de engenharia experimental.

Naquele tempo, os calibradores manuais não tinham nada de tecnológicos. Eram bem simples mesmo. Também os pneus não eram como são atualmente. A coisa toda era mais rústica.

E, no final das contas, os calibradores manuais se saíram bem. Na faixa de 20 a 30 libras de pressão, somente dois foram reprovados. Os outros seis passaram. A imprecisão deles não era tão grande e aparecia somente em pressões mais baixas, de 10 libras, ou mais altas, de 40 e 50 libras.

Aprendi, porém, que o problema desses instrumentos é que eles perdem precisão com o tempo de uso, mau uso ou falta de aferição.

QUATRO RODAS sempre foi muito rigorosa nos testes. Por isso, tratei de aferir nosso calibrador. Estava certo. Só providenciei um plástico para guardá-lo, pois outra coisa que a reportagem me ensinou foi que calibradores protegidos de sujeira e umidade podem durar a vida inteira.

Enquanto escrevia, passei a refletir e questionar se seria isso mesmo. (…) Resolvi fazer um teste de calibradores de pneus

Depois dos manuais vieram os maiores, desses que ficam nos postos de combustível e borracharias, com compressores de ar e manômetros para medir a pressão.

Aferimos os equipamentos de 50 estabelecimentos da cidade de São Paulo e também nas estradas da região. A conclusão foi que 60% deles apresentavam erro. O desvio chegava a 5 libras/pol².

Uma justificativa para isso poderia ser o fato de que a maioria ficava exposta ao sol, à chuva e à umidade. Outra era de que os instrumentos não passavam por manutenção.

Os proprietários dos postos e borracharias simplesmente instalavam o equipamento. Não havia fiscalização legal alguma e os donos também não achavam que precisavam chamar um técnico periodicamente para verificar se os calibradores estavam marcando a pressão certa.

O leitor tinha razão de perguntar. Quantos pneus deveriam estar rodando naquele momento com calibragem errada? Com essa pergunta na cabeça, lá fui eu checar a calibragem de nada menos que 300 carros, para encontrar a resposta.

Usando um calibrador aferidor máster que a Schrader forneceu, visitei postos de combustíveis, estacionamentos de feiras e supermercados da cidade. A primeira constatação da pesquisa foi que a maioria dos motoristas não calibrava os pneus semanalmente, como é recomendado.

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Pouquíssimos tinham calibradores manuais próprios. E a maioria, quando lembrava de calibrar, deixava o serviço a cargo dos frentistas – que nem sempre sabiam quais as pressões corretas para os diferentes tipos de pneus.

Muitos dos motoristas abordados se surpreendiam porque não imaginavam que poderia haver diferença entre o que o calibrador apontava e a realidade.

Chico Landi e Charles
Chico Landi (dir.) me entregou as chaves Acervo Pessoal/Quatro Rodas

O levantamento apurou que 90% dos 300 carros pesquisados rodavam com calibragens incorretas. Sendo que cerca de 50% deles apresentavam pressão de 4 a 10 libras/pol² abaixo da indicada pelos fabricantes.

Considerando que em um teste que fizemos em nossa pista com um veículo em que os pneus estavam calibrados com 5 libras/pol² a menos, foi verificado que o consumo de combustível aumentou 4,9%.

E que outras pesquisas apontavam que, no Brasil, o consumo médio de um automóvel era de 1.500 litros de gasolina e álcool por ano, concluímos então que seriam consumidos 12.750 milhões de litros a mais por conta das calibragens malfeitas.

Ou seja: se metade da frota (que naquela época era de 8,5 milhões de veículos a gasolina e 500.000 a álcool) não estivesse rodando com pneus murchos, poderíamos economizar 305 milhões de litros por ano.

Multiplicando pelo preço dos combustíveis, isso representaria uma economia de quase Cr$ 44 bilhões. O que era muito dinheiro.

Eu havia inscrito duas reportagens no Prêmio Chico Landi de 1983. Uma era essa dos calibradores e a outra falava sobre o comércio de carros usados, sobre a qual já escrevi nesta coluna.

Eu estava louco para ganhar o Spazio TR, que era o carro mais caro da Fiat, patrocinadora da premiação, na época. Mas depositava minha esperança na matéria dos carros usados, porque era a mais polêmica, e também a mais engraçada, contando as artimanhas dos comerciantes, que muita gente nem imaginava.

Eu aguardava ansioso o resultado, mas, no dia em que foi divulgado — naquele tempo as notícias chegavam por telex (um sistema de comunicação ancestral da internet) —, eu estava de saída e apressado porque o chefe de reportagem Emilio Camanzi me aguardava no estacionamento.

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Por isso, bati o olho na mensagem e, quando vi que a matéria de usados foi indicada como destaque, amassei o papel, joguei no lixo e nem falei nada para ninguém.

Saí da redação e, a caminho do elevador, encontrei o diretor de redação Osmar Mendes Júnior, que logo veio me dando os parabéns pelo prêmio. “Não ganhei! Só fui Destaque”, respondi.

“Ganhou!”, ele disse. “Como? Está louco!”, retruquei. “Você ganhou com a matéria dos pneus murchos”, esclareceu. Na pressa, não li o telex inteiro. Quando cheguei ao estacionamento, o Camanzi já estava impaciente, mas, antes que ele reclamasse, anunciei a boa-nova e a vida seguiu. Até hoje rio muito dessa confusão.

Charles Marzanasco
Charles Marzanasco é jornalista e trabalhou nove anos como repórter na QUATRO RODAS Acervo Pessoal/Divulgação

Jornalista, trabalhou nove anos como repórter na QUATRO RODAS, dez anos como assessor do piloto Ayrton Senna
e 25 anos na Audi.

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A edição 752 de QUATRO RODAS já está nas bancas! arte/Quatro Rodas

 

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