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Porsche inicia obras de usina de gasolina sintética para salvar esportivos

Com 70% de todos seus carros fabricados ainda rodando, alemã reforça atenção ao futuro dos carros não-elétricos e para o futuro da aviação

Por Eduardo Passos Atualizado em 12 set 2021, 01h17 - Publicado em 12 set 2021, 01h16
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Novo Porsche 911 GT3 Cup correrá com gasolina sintética já em 2022 Divulgação/Porsche

Em um evento que reuniu autoridades chilenas e europeias a um grupo de empresas lideradas por Siemens e Porsche, a primeira fábrica de gasolina sintética do mundo teve sua construção iniciada na última sexta-feira (10). O e-combustível, como vem sendo chamado, será produzido a partir de água e gás carbônico e pode ser utilizado normalmente em qualquer carro a gasolina.

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Parece simples, e de fato basta relembrar a Química da escola para entendermos a lógica que levou os alemães ao extremo sul do Chile, na região de Magalhães: dado que o “grosso” da gasolina é composto pelos hidrocarbonetos (átomos de carbono e hidrogênio), bastaria obtê-los e juntá-los através de processos industriais para produzir o combustível sem recorrer ao petróleo.

Esse, entretanto, é um processo caro, e que não representaria vantagem alguma não fosse em lugares como a Patagônia chilena, onde ficará a usina de Haru Oni. Lá os ventos da “fronteira” entre América do Sul e Antártida não são apenas abundantes, como também constantes em frequência e direção — perfeitos para a geração de eletricidade.

  • Essa energia elétrica serve para o simples (porém gastão) processo de eletrólise, que separa a água em moléculas de gases hidrogênio e oxigênio utilizando o produto de turbinas eólicas instaladas pela Siemens no local.

    O novo Porsche 911 GT3 Cup aproveita a plataforma do 911 Turbo, mas não trás turbocompressor
    O novo Porsche 911 GT3 Cup aproveita a plataforma do 911 Turbo, mas não tem turbocompressor Divulgação/Porsche

    Não bastasse um processo energético não-poluente, a ambição do consórcio apoiado pelo governo chileno é de, na verdade, limpar a atmosfera, uma vez que ⅔ da água vira “hidrogênio verde” enquanto o resto volta ao meio ambiente em forma de oxigênio puro. O lucro aumenta no processo seguinte, que acrescenta o carbono à receita num processo que captura gás carbônico (CO2) do ar, diminuindo o efeito estufa.

    A inóspita região foi escolhida também para mostrar o potencial transformador do comércio de energia renovável
    A inóspita região foi escolhida também para mostrar o potencial transformador do comércio de energia renovável Siemens/Divulgação

    Daí em diante a coisa fica mais complexa — tão complexa que foi necessária participação de gigantes energéticas como a ExxonMobil, responsáveis por tecnologias cedidas à iniciativa. O resultado, por outro lado, não poderia ser mais simples: gasolina, transportada de navio à Europa, onde começarão testes que incluem a Porsche Supercup de 2022.

    A confiança da fabricante no projeto é muito grande, e um dos argumentos citados é a necessidade de diminuir emissões ao mesmo tempo que a corrida por carros elétricos não se torne um processo caro para os consumidores e marcado por desperdício. “Cerca de 70% de todos os Porsche já construídos ainda estão rodando hoje. Os e-combustíveis permitirão a redução em até 90% de emissões em motores a combustão”, disse Michael Steiner, membro do Conselho Executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da marca.

    fazenda eólica Siemens
    A energia elétrica da usina será captada por turbinas eólicas Divulgação/Porsche

    Ao contrário do que volta e meia parece, os carros com gasolina sintética poluirão, mas com créditos graças à limpeza feita na etapa de produção do e-combustível. É justamente esse entendimento, acredita Steiner, que falta nos planos de proibição de motores térmicos a partir de 2035, como proposto pela União Europeia.

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    “O problema não é o motor, mas a origem fóssil do combustível (atualmente utilizado). Sabemos da questão do banimento (…), mas acredito que convenceremos os legisladores quanto a isso”, disse a QUATRO RODAS. “Atualmente há cerca de 1 bilhão de carros no mundo movidos a combustíveis fósseis e precisamos cuidar dessa gigantesca frota também”, acrescentou destacando que o esforço da Porsche — envolvida em carros a gasolina sintética, hidrogênio e eletricidade — representa a mudança ampla, gradual e sustentável na qual acredita.

    Obras durarão poucos meses
    Projeto da usina ao fim das obras, que durarão poucos meses Arte/Quatro Rodas

    As ambições do alemão são tão altas quanto os aviões comerciais, que realizaram quase 40 milhões de voos ao longo de 2019. No caso dos jatos, a eletrificação é quase ficção científica, uma vez que o peso das baterias (já um fardo para os carros) torna inviável qualquer “Tesla dos ares”, ao menos em breve.

    “Olhando para indústrias como as de navios e aviões, não tenho ideia de como os combustíveis líquidos podem ser substituídos. A saída é trocar os combustíveis fósseis pelos e-combustíveis, e nosso projeto representa um primeiro passo, uma demonstração dessa oportunidade”, explicou.

    Brasil de fora?

    Questionado sobre a escolha de uma região mais distante da Europa enquanto o Nordeste brasileiro, por exemplo, ofereceria ventos e infraestrutura bem localizados, Steiner ressaltou que a ideia também envolveu criar infraestrutura onde até então há apenas potencial.

    Estima-se que a região de Magalhães possa produzir sete vezes o que hoje é gerado por todo o Chile, que usou a oportunidade para gerar empregos e, principalmente, fincar bases como exportador de energia. “Mais do que ventos, o Chile tem autoridades interessadas nesse tipo de energia e na ideia de exportá-la”, fez questão de frisar o executivo.

    Infraestrutura do Brasil acabou sendo favorável ao Chile, com maior potencial não-explorado
    Infraestrutura do Brasil acabou sendo favorável ao Chile, com maior potencial não-explorado Claudio Fachel/Palácio do Piratini

    De acordo com a Siemens, o comércio de energia pode trazer prosperidade a “áreas desérticas, sem recursos para produção de biomassa, ou regiões com muitos ventos mas pouco desenvolvimento industrial”. E se o petróleo que estava debaixo do deserto vem sustentando a pujança do Oriente Médio, pode ser a energia solar e eólica a salvação desses países, assim como de Brasil e Espanha, que já firmou tratados com a empresa.

    Com a construção na Patagônia iniciada, é questão de meses para que a usina chilena seja aberta; previsão para meados de 2022. Já no ano que vem serão fabricados 130.000 litros de gasolina sintética, com ambição de 55 milhões de litros produzidos ao longo de 2024.

    Dando tudo certo, daqui a cinco anos a Haru Oni fabricará 550 milhões de litros de gasolina anuais — equivalente a 10.000 barris de petróleo ao dia. Dá para dizer que os petrolheads têm motivos para dormir esperançosos e sem culpa.

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