Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês

Como Romain Grosjean sobreviveu ao inferno no GP do Bahrein?

Em rara cena de um F1 entrando em chamas após colisão, foram os trajes especiais que evitariam o pior ao piloto francês

Por Eduardo Passos Atualizado em 29 nov 2020, 19h25 - Publicado em 29 nov 2020, 15h52
Após quase 30s, Romain Grosjean saiu deste incêndio com queimaduras leves
Após quase 30s, Romain Grosjean saiu deste incêndio com queimaduras leves AFP/Reprodução

Neste domingo (29), Romain Grosjean chocou o mundo ao colidir sua Haas contra o guard-rail do circuito de Sakhir, no Bahrein. Muito mais que uma batida normal, o Fórmula 1 do francês se partiu e foi consumido pelas chamas. Após 30s de muita tensão, o piloto conseguiu sair do cockpit, tendo apenas queimaduras leves. Como isso foi possível?

Black Friday na Quatro Rodas! Clique aqui e assine por apenas R$ 5,90

A resposta está no composto sintético que compõe os macacões dos competidores, feito à base de polímeros especiais com resistência elevada. O Nomex, como é batizado comercialmente, é uma evolução do já conhecido kevlar — matéria-prima de coletes à prova de bala e roupas anti-fogo —, mas aperfeiçoado.

De acordo com sua fabricante, o Nomex oferece propriedades das mais diversas: resistência a ácidos, descargas elétricas e, principalmente, calor. O segredo da proteção térmica está no fato de que, quando expostas ao fogo, as fibras engrossam e acabam carbonizadas, absorvendo toda a energia térmica do ambiente.

O Nomex é muito usado em trajes militares como esses; principalmente quando o militar executa tarefas expostas ao fogo
O Nomex é muito usado em trajes militares como esses; principalmente quando o militar executa tarefas expostas ao fogo Sgt. Brandon Banzhaf/U.S Army

Não à toa, o Nomex é usado nas mais diversas profissões: pilotos de avião, bombeiros, eletricistas e, claro, pilotos de Fórmula 1, que contam com vestuário milimetricamente calculado para oferecer o máximo de proteção sem desconforto ou falta de mobilidade nos apertadíssimos carros.

  • Além dos macacões, as blusas em contato direto com a pele, zíperes, apetrechos e meias também seguem as normas, garantindo resistência de até 800º C de temperatura, 11s de exposição ao fogo sem combustão e manutenção da temperatura sob as roupas em até 41ºC por, no mínimo, 11s.

    Foi por pouco, mas os equipamentos de segurança cumpriram sua missão com louvor
    Foi por pouco, mas os equipamentos de segurança cumpriram sua missão com louvor Reprodução/Twitter

    Ainda que um bólido como o de Grosjean pegar fogo seja fato raro na Fórmula 1 atual, muito dessa rigidez vem de acidentes traumáticos como os sofridos por Niki Lauda e Lorenzo Bandini, entre vários outros que sofreram queimaduras e até morreram em grandes prêmios.

    Continua após a publicidade
    Além de resistente a impactos, o capacete aguenta incêndios. Até mesmo as bolhas — que podem atrapalhar a visão de um piloto em fuga do cockpit — têm limite
    Além de resistente a impactos, o capacete aguenta incêndios. Até mesmo as bolhas — que podem atrapalhar a visão de um piloto em fuga do cockpit — têm limite Haas/Divulgação

    Todo detalhe possivelmente perigoso foi mitigado: os zíperes não derretem sob fogo — para que não atrapalhe a abertura do macacão por equipes médicas —, os patrocínios são impressos em tinta especial, evitando combustão e emissão de gases tóxicos e o capacete, muito por conta do acidente de Felipe Massa, conta com uma ‘blindagem’ com um polímero chamado Zylon, que é resistente ao fogo e tolera impactos com pressão de até 5,9 GPa (58 mil vezes maior que a pressão atmosférica ao nível do mar).

    Todas as roupas nessa foto levam Nomex, e até a tinta que imprime os patrocinadores é anti-chamas
    Todas as roupas nessa foto levam Nomex, e até a tinta que imprime os patrocinadores é anti-chamas Bryn Lennon/Getty Images

    O ‘calcanhar de aquiles’ do traje são, justamente, as luvas; resistentes ao fogo mas com proteção reduzida, a fim de não atrapalhar a operação do volante e seus mais de 25 botões. Isso faz ainda mais sentido quando as piores queimaduras sofridas pelo francês foram, justamente, nas mãos.

    Os ponto mais vulneráveis no traje de um piloto são as luvas, que por questões de ergonomia têm proteção reduzida
    Os ponto mais vulneráveis no traje de um piloto são as luvas, que por questões de ergonomia têm proteção reduzida Mark Thompson/Getty Images

    Naturalmente vanguardistas em boas práticas e tecnologia, a Fórmula 1 tem o hábito de sempre estudar as causas de acidentes graves e realizar mudanças para que esses não se repitam. Foi assim com a morte de Ayrton Senna, com a batida fatal de Jules Bianchi — que acelerou a implantação dos halos, que protegem a cabeça dos pilotos — e do próprio acidente de Massa, citado acima.

    Se gaba por ter dedos ágeis no videogame? Que tal tentar um volante de F1 a 300 km/h e com luvas grossas?
    Se gaba por ter dedos ágeis no videogame? Que tal tentar um volante de F1 a 300 km/h e com luvas grossas? Divulgação/Mercedes-Benz

    Em breve a FIA divulgará detalhes oficiais sobre a grave colisão no GP do Bahrein, esclarecendo outras questões como a separação tão brutal do monocoque, motor e chassi, a atuação do guard-rail na absorção do impacto e os motivos para um incêndio tão vigoroso.

    Resta à FIA e Haas entender as causas do incêndio e pensar soluções para evitar um novo susto desse
    Resta à FIA e Haas entender as causas do incêndio e pensar soluções para evitar um novo susto desse TV Globo/Reprodução

    Até lá, resta agradecer à tecnologia que cumpriu seu papel com honras e à equipe técnica e médica, que contribuíram para evitar uma tragédia maior.

    Não pode ir à banca comprar, mas não quer perder os conteúdos exclusivos da Quatro Rodas? Clique aqui e tenha o acesso digital.

    Capa 739

    Continua após a publicidade
    Publicidade