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Clássicos: Karmann Ghia TC era quase um Porsche 911 nacional

Com linhas que lembram um Porsche 911 e soluções mais práticas que seu antecessor, ele tinha tudo para dar certo. Mas a chuva estragou tudo

Por Sérgio Berezovsky - Atualizado em 12 out 2020, 16h45 - Publicado em 12 out 2020, 08h00
Ricardo Rollo/Quatro Rodas

Publicado originalmente em março de 2004

Para que serve o manual do proprietário? Supostamente, para ajudar o dono a conservar seu carro em boas condições, certo? Bem, pelo menos é assim que costuma ser.

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Mas o que dizer da foto de capa do livreto de instruções da fábrica que mostrava um Karmann Ghia TC à beira do mar com as rodas na água? A prática de expor o carro à água salgada é condenável. Mas, no caso do TC, a cena chega a ser irônica.

Isso porque o carro teve breve existência (1970-1976), em grande parte devido a sua justificada fama de enferrujar ao primeiro sinal de chuva.

Ricardo Rollo/Quatro Rodas

Várias suspeitas foram levantadas para diagnosticar essa reação alérgica. Tratamento incorreto das chapas e armazenamento inadequado foram duas delas. Também as simpáticas entradas de ar dianteiras servem de coletores de chuva para transformar as caixas em pequenos açudes. Os aros dos faróis e a janela traseira eram outros pontos vulneráveis. Enfim, falhas de projeto.

Na sensibilidade às intempéries pode estar a resposta para explicar o naufrágio de um projeto que tinha tudo para dar certo. Era um modelo exclusivo para o mercado brasileiro para suceder o pioneiro Karmann Ghia.

Ao contrário do primeiro, a criação do TC era de autoria dos estilistas da Volkswagen, que depois repassou o projeto para a Karmann Ghia, que fabricava as carrocerias.

Ricardo Rollo/Quatro Rodas

O fastback montado sobre a plataforma dos VW Variant e TL lembrava um Porsche 911 e trazia várias vantagens sobre seu antecessor. Para começo de conversa, ele podia com alguma boa vontade levar até cinco passageiros. E tinha um porta-malas digno desse nome.

Isso sem contar que havia a opção de rebater o banco traseiro bipartido e aumentar o compartimento de carga.

Ricardo Rollo/Quatro Rodas

Ele também eliminou dois inconvenientes do modelo antigo: a turbulência interna com os vidros abertos e o desconforto que o sol causava ao incidir na nuca dos ocupantes. A visibilidade também era superior, assim como o espaço na dianteira.

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Por pouco mais de 10% sobre o valor do KG tradicional (com quem o TC conviveria por três anos), o comprador levava um projeto mais moderno e prático.

Ricardo Rollo/Quatro Rodas

Mas em matéria de desempenho ele mantinha a tradicional limitação dos 65 cv do motor VW 1600 a ar. Os 142 km/h de máxima e a aceleração de 0 a 100 km/h em 23 segundos não condiziam com o visual esportivo. Em compensação, o consumo foi merecedor de elogios.

O câmbio tinha acionamento suave e preciso. A suspensão era macia, apesar das rodas aro 15 originais. Naqueles anos 70, a primeira providência tomada por quem gostava de acelerar era colocar pneus radiais de aro 14 no lugar dos diagonais que vinham de fábrica. Uma pequena rebaixada na suspensão também fazia parte da receita básica, além de uma pitada de veneno no motor.

Interior do Karmann Ghia TC, modelo 1973, propriedade de Carlos Dib. Ricardo Rollo/Quatro Rodas

Com seus pontos fracos expostos em praça pública, as vendas do TC não corresponderam às expectativas da Volkswagen, que em 1976 o retirou de cena.

Nem o TC e tampouco o SP2, outro “esportivo” da marca também lançado em meados dos anos 70, foram capazes de ocupar a vaga deixada pela primeira versão do Karmann Ghia.

Janeiro de 1971

“O desempenho do Karmann Ghia TC não corresponde ao seu aspecto agressivo. Foi o que concluímos com nosso teste, em que verificamos que ele é um carro econômico, bem-acabado e resistente, mas não corre nem acelera como se poderia esperar por sua aparência: pode chegar aos 140 km/h e faz de 0 a 100 km/h em 22,9 segundos (…). A distribuição de massas é boa, e os dois faróis são coerentes com o conjunto. (…) As grades dianteiras cromadas, que cobrem as entradas de ar, e o distintivo VW destoam (…). O painel do TC é igual ao do Karmann Ghia antigo: pobre e com poucos instrumentos. Faltam no mínimo um conta-giros e um termômetro de óleo. (…) O volante comum não combina com a natureza esportiva do TC.”

Ricardo Rollo/Quatro Rodas

Teste QUATRO RODAS – janeiro de 1971

Aceleração de 0 a 100 km/h – 22,9 s
Velocidade máxima – 136,7 km/h
Consumo – 7,8 a 10 km/l (médio)

Preço

Janeiro de 1971 – Cr$ 21.128
Atualizado – R$ 138.517 (IGP-DI, agosto de 2020)

Ficha técnica

Motor: traseiro, 4 cilindros opostos, Cilindrada: 1 584 cm³
Potência: 65 cv a 4 600 rpm
Torque: 12 mkgf a 2 600 rpm
Câmbio: manual, 4 marchas, tração traseira
Suspensão: dianteira, independente; traseira: barra de torção
Dimensões: comprimento, 420 cm; largura, 162 cm; altura, 131 cm; peso, 920 kg

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