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Como o primeiro teste com o Miura virou caso de polícia

Quando retirou o esportivo na fábrica, o jornalista, que chegou a ser preso, mal sabia o que o aguardava na viagem até a pista de testes

Por Charles Marzanasco Atualizado em 16 dez 2020, 00h52 - Publicado em 16 dez 2020, 08h00
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Acervo/Quatro Rodas

De todos os testes que fiz para a QUATRO RODAS, entre 1977 e 1986, o que mais ficou marcado foi o do Miura Targa, publicado em março de 1979. Imagino que nem em sonho, daqueles mais inspirados, eu viveria tudo o que aconteceu por causa do esportivo, que era fabricado em Porto Alegre (RS).

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Viajei até o Sul com a missão de entrevistar o fabricante e trazer o carro para testar em nossa pista, em Limeira (SP). Fui recebido por ninguém menos que o próprio projetista do carro, Itelmar Gobbi, que nos deixou no último dia 23 de outubro, e seu sócio, Aldo Besson, falecido em 2011. De posse das informações, no dia seguinte iniciei a viagem que seria cheia de acontecimentos.

Tudo começou quando um chefe de polícia gaúcho cruzou o meu caminho. Era por volta de 7 horas da manhã, quando tentei ultrapassar o Corcel II particular que o policial (que até então eu não sabia que era policial) dirigia. Ele não quis abrir passagem e me fechou, quando tentei mudar de faixa, passando a fazer sinais para que eu parasse, exibindo um documento com uma larga faixa verde e outra amarela.

Naquela época a gente não tinha medo de assalto. Por isso, parei, expliquei quem eu era e o que estava fazendo e aparentemente ficou tudo bem. Poucos quilômetros à frente, fui parado novamente. Só que, desta vez, por um grupo de guardas rodoviários e o próprio policial condutor do Corcel II. Eles não quiseram conversa. Me levaram para a delegacia da cidade mais próxima, que era Osório, a 90 km de Porto Alegre. Entrei na cidade escoltado por três carros e com um oficial sentado no banco do passageiro do Miura.

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Página dupla de abertura: o teste do Miura foi publicado na edição 224, em março de 1979. Acervo/Quatro Rodas

Aquele policial do início da viagem, que nunca procurei saber o nome, se comportava como se fosse o chefe. Por isso, não retruquei quando ele disse ao delegado que eu o desrespeitei com palavrões, que tentei fugir em sua primeira abordagem e que não quis dar a minha carteira de motorista. A única acusação verdadeira foi a última, porque ele havia dito que a carteira ficaria com ele e eu deveria seguir a viagem para São Paulo sem o documento.

Durante o “interrogatório”, esse senhor chegou bem perto de mim e me olhou nos olhos dizendo que a minha cara não era nada estranha e, depois, ordenou aos policiais que vistoriassem o Miura e a minha bagagem. Não encontraram nada e, felizmente, também não colocaram coisa alguma em minha mala, como imaginei que pudesse acontecer naquele momento de medo.

Depois de uma hora de conversa, em que eu respondia só o que me perguntavam, o chefe disse ao delegado que eu podia ser liberado, mas somente após duas horas. E, antes de sair, me encarou novamente e falou, de modo que só eu escutasse, que eu havia dado muita sorte de ter ficado quieto, senão aquela história teria outro final.

Fiquei indignado com toda a situação e minha vontade era de fazer uma matéria relatando tudo o que havia acontecido. Meu tio Heitor Feitosa, jornalista mais experiente, me convenceu de que o melhor a fazer seria esquecer o ocorrido, certo de que aquele chefe de polícia, com toda a força que deveria ter, poderia me prejudicar.

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Pode ser coincidência, mas chegamos à conclusão, eu e meu tio, de que ele havia feito aquilo justamente porque eu trabalhava na Editora Abril, a mesma casa da Veja, que meses antes havia denunciado arbitrariedades de um chefe do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Naquele tempo, nós vivíamos em plena ditadura militar.

Seja lá como for, naquele dia respirei aliviado e pude seguir com o Miura rumo à pista de testes. Não pense você, porém, que esse foi o único incidente da viagem. Eu tinha saído de Porto Alegre pensando em chegar em Limeira à noite, para testar o carro no dia seguinte, e entregar a matéria escrita, no máximo, dois dias depois. Aquelas horas na delegacia, somadas a outras duas paradas em postos rodoviários, atrasaram meus planos. Fui parado porque o carro não tinha placas, só uma licença de deslocamento entre Porto Alegre e São Paulo e, além disso, como os guardas não conheciam o modelo, ainda me seguravam olhando o esportivo.

Acabei dormindo na estrada e, quando cheguei à capital paulista, por volta das 9 horas da manhã do dia seguinte, peguei o início da Rodovia Anhanguera e, mais uma vez, fui parado, no posto rodoviário que ficava bem no início da estrada.

O policial me perguntou para onde eu estava indo. Ele já tinha visto pela licença, que ficava no vidro lateral do Miura, e disse que o carro teria de ser apreendido porque não podia seguir até Limeira, já que tinha chegado a São Paulo.

Tentei argumentar que aquela detenção não podia ser feita porque ele mesmo não tinha deixado eu sair da capital paulista, já que o posto da Polícia Rodoviária estava no município de São Paulo. Ele falou que o que valia era a minha confissão dizendo que iria para Limeira e recolheu o Miura, que só consegui retirar dias depois, com a emissão de uma nova autorização que permitia rodar com o carro até Limeira.

Por causa desse atraso, perdi o prazo de fechamento da edição de fevereiro. Os contratempos não terminaram com esse episódio, porém.

Na pista de testes, foi a vez de o carro aprontar, se revelando bem mais lento que a VW Brasília, veículo do qual o esportivo usava o motor. O Miura ficou quase 1 segundo atrás da perua nas provas de aceleração de 0 a 100 km/h. Eu não costumava revelar os tempos obtidos pelos carros de teste para os fabricantes antes de sua publicação, mas, naquele caso, achei melhor avisar o Aldo Besson, imaginando que o motor daquela unidade pudesse estar com algum problema.

Foi eu falar e ele enviou um preparador para conferir a regulagem do motor e pediu que a medição de 0 a 100 km/h fosse feita por um piloto (que corria de JK em Interlagos). Com o motor revisado, o tempo do piloto foi meio segundo mais lento que o meu (que foi o publicado).

Charles Marzanasco
Jornalista, trabalhou nove anos, como repórter na QUATRO RODAS, dez anos como assessor do piloto Ayrton Senna e 25 anos na Audi Reprodução/Internet

Não demorou para eu descobrir que a razão da lentidão do esportivo era o peso, 200 kg a mais que o da Brasilia. Quando soube, o Aldo me explicou que, preocupado com a segurança, ele utilizava várias camadas de fibra de vidro na carroceria, mas, que dali em diante, diminuiria um pouco para o carro pesar menos e andar mais. Tempos depois, soube de outra providência: a fábrica suspendeu os empréstimos de carros. O teste de QUATRO RODAS foi o único com os Miura dessa safra.

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