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Auto-serviço: a empurroterapia ainda existe e você pode driblar ela

As diversas situações em que o motorista se sente coagido a comprar produtos e contratar serviços que não quer. Veja como se proteger

Por Fernano Miragaya - 10 ago 2020, 14h20
Ricardo Sanches/Quatro Rodas

Que levante a mão o motorista que nunca se sentiu intimidado em uma oficina, loja de autopeças ou posto de combustível. No dia a dia, o dono de um carro pode passar por diversas situações em que se vê pressionado a adquirir um serviço ou comprar algo.

E muitas dessas situações são o que se chama de “empurroterapia”. É a prática de tentar empurrar produtos e reparos que, muitas vezes, nem são necessários.

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E o proprietário do automóvel, por pressa ou mesmo por não estar inteirado daquele assunto, pode acabar aceitando.

Informação 

Nenhum dono de carro é obrigado a ser especialista em engenharia ou mecânica. Mas é bom pesquisar e estudar sobre o veículo que está em sua garagem.

É a melhor forma de não ser enrolado por estabelecimentos que agem de má-fé. A principal fonte de informação que você tem é o Manual do Proprietário.

“Lá tem todas as informações sobre verificação, prazos e trocas de peças e serviços, que variam de fabricante para fabricante”, explica Edson Orikassa, vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).

“Inicialmente, o dono do automóvel deve estar ciente daquilo que é necessário para a manutenção. Ter noção do que é fundamental para seu uso diário. Com esse conhecimento, tudo que for oferecido fora daquele escopo deve ser recusado”, orienta Marcele Soares, coordenadora de atendimento do Procon-SP.

Na oficina 

As lojas de autosserviço e oficinas mecânicas podem intimidar muita gente já ao entrar. E é aí que mora o perigo. Demonstrar desconhecimento total sobre o reparo ou diagnóstico pode ser um prato cheio para espertalhões.

Antes de mais nada, procure um estabelecimento de sua confiança ou que tenha sido bem recomendado. Tome cuidado com diagnósticos apocalípticos. Daqueles que condenam todo um sistema.

Por exemplo, em lojas de componentes de suspensão. Algumas dão a extrema-unção ao amortecedor só de olhar, mas você mesmo pode observar como está a peça através do comportamento do carro.

Em uma lombada ou valeta, preste atenção se, depois de passar com o veículo, a parte de trás do carro está “quicando” de forma excessiva.

Ou, com o automóvel estacionado, vale também aquela velha dica: pressione a carroceria do carro para baixo na altura das rodas com força e solte abruptamente. Se continuar oscilando para cima e para baixo mais de uma vez, pode ser amortecedor gasto.

Pesquise também fotos de outros itens, como buchas, bandejas e batentes para ter uma ideia de como elas se apresentam em condições de funcionamento. Na loja, peça para o mecânico levantar o carro no elevador e acompanhe a inspeção do profissional para ver se elas precisam ser trocadas.

“Alguns problemas nestas peças são facilmente identificados. A bucha dá para verificar se caiu ou se está para fora do componente. A bandeja é possível ver se está trincada ou amassada. Quanto à mola, basta verificar se um anel do espiral está batendo no outro”, afirma Orikassa.

Outra recomendação comum é verificar em mais de uma loja. “O que o Procon orienta é que o consumidor faça uma pesquisa com mais de um fornecedor, para que ele possa avaliar não somente o valor e as condições de pagamento como também a reputação do próprio prestador”, ressalta Marcele Soares.

O famoso trio 

Alinhamento de direção, balanceamento de pneus e cambagem parecem anúncio de açougue de supermercado, algo como “pá, peito e acém”.

Mas muita calma, que um não é pré-requisito para o outro. O fato é que, colocou pneus novos, faça, sim, o balanceamento.

“As montadoras exigem dos fornecedores uma uniformidade no perfil do pneu, com uma tolerância bem estreita. Então, quando você compra um novo no mercado de reposição, provavelmente ele não estará dentro daquela uniformidade. Essa variação afeta rolamento, ponta de eixo e faz a direção vibrar. Por isso a necessidade de balanceamento”, explica o vice-presidente da AEA.

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Mas o alinhamento da direção não é obrigatório ao trocar o pneu. E costuma ter prazos mais dilatados para verificação, a cada 20 mil ou 30 mil km. O mesmo vale para cambagem, que geralmente tem intervalos ainda maiores.

Na concessionária 

Mesmo na rede autorizada, as revisões seguem um plano de serviços predefinido – e geralmente com preço fixo. No próprio site da marca você pode observar quais verificações e trocas são feitas a cada visita e qual o custo delas.

Mas é comum a oferta de serviços extras, como a famosa limpeza dos bicos injetores. Se o seu carro não está falhando nas acelerações ou nenhuma luz do painel acendeu, não precisa fazer nenhuma “limpeza”.

Outra usual é a higienização do ar-condicionado, mas essa geralmente é recomendada a cada 20 mil ou 30 mil km (olha lá no Manual!).

“O consumidor não é obrigado a ter um produto ou serviço que não solicitou ou que não está previsto nos requisitos de manutenção em contrato. Por isso, o Manual deve informar e o cliente deve se informar do que é coberto pela garantia e de suas obrigações para manter essa garantia”, afirma a coordenadora do Procon.

A venda de acessórios originais nas revendas também é comum – e até válida, pois são itens homologados pelo fabricante e que não comprometem a garantia de fábrica do carro. Mas é preciso ter bom senso e medir desejo-necessidade-vontade.

No posto de combustível 

O assédio ao motorista também se dá nos postos de serviços. Quem nunca ouviu aquela voz gutural do frentista perguntando se pode completar o nível do óleo.

Calma lá! Antes de mais nada, é preciso esperar uns três minutos depois de desligar o carro para puxar a vareta do cárter. É o tempo que o lubrificante leva para escorrer dos componentes do motor.

Aí, sim, é possível ver como está o estado do óleo. É necessário enxugar a vareta com uma flanela limpa e seca – que não solte fios –, introduzi-la novamente e então ver o nível do produto, que deve estar entre as marcações de mínimo e máximo.

Se estiver nessa “altura”, não caia na conversa de que é preciso completar para chegar no “máximo”. Colocar óleo acima do nível é prejudicial ao processo de lubrificação.

Mas se o lubrificante estiver abaixo do nível mínimo, aí é recomendável colocar mais. Mas lembre-se que ele tem de seguir as especificações do fabricante do veículo – que constam no Manual do Proprietário.

Mesmo assim, na primeira oportunidade, retire todo o óleo em uma oficina especializada e coloque lubrificante novo.

No semáforo 

Sim, nem ao parar em um semáforo vermelho o motorista consegue ter paz. Em grandes cidades como Rio e São Paulo dificilmente você não terá alguém te oferecendo toda sorte de bugigangas para o carro.

Carregadores de celular, suportes para telefones, capas para volante e bancos… Mas será que aqueles itens são mesmo necessários? E eles servem de fato para alguma coisa?

Tome cuidado com aquelas capas para o aro do volante que, além de diminuir a sensibilidade da pegada, podem afrouxar com o tempo e deslizar durante uma manobra. Grampos que limitam o funcionamento dos cintos, então, são um atentado à segurança.

Recibos e orçamentos 

Lembre-se que você só deve aceitar serviços os quais contratou. Por isso, guarde recibos, orçamentos e notas fiscais de tudo o que você fizer no carro. Também mantenha o Manual do Proprietário bem conservado e com as anotações das revisões.

“Caso se sinta lesado, a primeira providência é registrar a contestação e reclamação junto ao estabelecimento. Não havendo solução, procure o órgão de defesa do consumidor”, diz Marcele Soares, do Procon.

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