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Impressões: Lada Niva 4×4, robusto e antiquado — como sempre

Dirigimos, na Rússia, um Lada Niva novinho – igualzinho ao que se vendia aqui há mais de 20 anos

Por Marcello Oliveira, de Moscou e Togliatti (Rússia) - Atualizado em 13 set 2018, 13h52 - Publicado em 13 set 2018, 13h51
Lada 4x4
Niva e Catedral de São Basílio, dois ícones russos que resistiram à passagem do tempo Pedro Vilela/Quatro Rodas

Quando o Lada Niva chegou ao Brasil, no fim de 1990, já era um veterano: nasceu em 1977, ainda na União Soviética. Passados 28 anos, ele parece hoje mais um clássico vintage do que um automóvel dos tempos atuais.

Então dá para imaginar a surpresa de alguns brasileiros que foram ver a Copa do Mundo na Rússia e toparam com esse mesmo jipe sendo vendido como zero-quilômetro nas concessionárias locais.

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Na traseira, as lanternas verticais vieram em 1996. De lá para cá, tudo igual Pedro Vilela/Quatro Rodas

Sim, ele ainda é produzido basicamente do mesmo jeito. E não espere evoluções mecânicas: ao longo das décadas, recebeu só alguns recursos e leves atualizações de estilo.

Quem compra hoje um Niva 2018 pode pedir vidros e espelhos elétricos de fábrica, mas a trava elétrica não está disponível – só pode ser instalada como acessório na autorizada. Freio ABS até tem, mas é opcional.

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Painel rústico e peças herdadas de carros dos anos 70 Pedro Vilela/Quatro Rodas

Aproveitando o clima de Copa do Mundo, fomos dirigir o Niva na sua terra natal, nas duas principais versões vendidas a civis – há mais de 40 opções, que servem desde produtores rurais em versão utilitário até o Exército com variantes blindadas e pneus gigantes.

Como a Lada só tinha o 5-portas para nosso test drive, conseguimos emprestado com um motorista russo o 3-portas, mas da linha 2014 – que é praticamente igual, com mínimas diferenças em volante, roda, para-choque e grade.

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Versão 5-portas tem 50 cm a mais de distância no entre-eixos para tratar melhor os passageiros Pedro Vilela/Quatro Rodas

Andar no Niva é uma volta ao passado, mesmo sendo um veículo novo. Algumas peças são compartilhadas com modelos que já não estão entre nós há muito tempo.

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O hodômetro digital só veio em 2014 Pedro Vilela/Quatro Rodas

A chave de seta, as maçanetas externas e os pinos das portas, por exemplo, vieram do finado Fiat 147. O freio de mão é do velho Uno. Os comandos de ventilação também são dos antigos Fiat. O quadro de instrumentos pouco mudou: continua simples, porém de fácil visualização e só tem o básico. 

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Há alavanca de câmbio e seletor do bloqueio de diferencial Pedro Vilela/Quatro Rodas

Sob o capô, o motor 1.6 de 72 cv deu lugar em 1996 a um 1.7 de 80 cv com injeção eletrônica monoponto. É o mesmo até hoje, apenas com adocão da injeção multiponto (83 cv) em 2014, para se adequar aos critérios do programa Euro 5 de emissões.  

Apesar da fama de durão, o Niva surpreende ao rodar na cidade. A expectativa era de conforto zero no trânsito pesado de Moscou, mas a adoção da direção hidráulica e da embreagem mais leve tornou a vida a bordo bem suportável. Assim como as molas helicoidais no eixo rígido traseiro e duplo ANoi dianteira.

O espaço é razoável para quatro adultos no 3-portas, mas quem vai atrás sofre em longas viagens, pois o banco de trás é baixo, o que faz os joelhos ficarem altos e colados aos assentos da frente.

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No 5-portas, bom espaço para pessoas e carga Pedro Vilela/Quatro Rodas

Aliás, entrar na cabine já é um desafio: temos de vencer uma suspensão  alta, feita para enfrentar até 37 cm de neve no inverno russo. Os bancos no geral são macios, mas o acabamento de portas e painéis é bem rústico. 

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Apesar da pouca potência, o motor responde bem em baixa rotação, mas grita demais acima de 2.500 rpm. Fica claro que velocidade não é sua praia: vai da inércia a 100 km/h em 17 segundos, segundo a marca. Por isso, tem fama por lá de ser um carro lento e que atrapalha a fluidez do trânsito.

Mas sua casa é a terra e isso não daria para provar em Moscou, metrópole com 12 milhões de habitantes, o mesmo que a cidade de São Paulo. Fomos, então, a Togliatti, onde fica a fábrica que produz o Niva.

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Estepe ainda fica no motor Pedro Vilela/Quatro Rodas

Aqui, dirigimos o 5-portas. Para desenvolver essa versão, os russos não quebraram a cabeça. O improviso fica nítido nas soldas aparentes nos pontos em que o monoloco do 3-portas foi cortado para emendar as portas traseiras.

“Foi só isso que fizemos. Simples assim”, revelou o engenheiro russo que nos acompanhou na visita à fábrica. A versão maior representa 30% das 25.000 unidades anuais do Niva.

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Na direção, a diferença em relação ao 3-portas é que nas curvas o Niva alongado acaba rolando mais, mas se revela mais amigável aos passageiros de trás, que têm o acesso das duas portas extras e 50 cm a mais para as pernas, além de um porta-malas que cresce de 265 para 420 litros. 

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Bolsa e caixa de ferramenta de série Pedro Vilela/Quatro Rodas

No caminho para a praia do Rio Volga por dentro de uma floresta, o Niva encarou aclives de terra e grandes crateras com muita facilidade. Com 4×4 permanente, pneus 185/75 R16 e ângulo de ataque de 38 graus e de saída de 32, ele entrou e saiu dos buracos com desenvoltura invejada por qualquer off-road.

Mas ele mostra que é um jipe raiz na hora de usar o bloqueio do diferencial e a reduzida. Nada de teclas: tudo é feito por duas alavancas pesadas (uma só para acionar a reduzida) e que nunca funcionam de primeira. Precisa sempre de jeitinho e um pouco de força. E o engate do câmbio de cinco marchas vai pelo mesmo caminho.

Nas mãos da GM

Um dos engenheiros me conta que a Lada já tentou tirar o Niva de linha várias vezes. Até lançaram uma nova geração no fim dos anos 90, bem mais moderna e confortável. Mas o mercado pediu e a marca teve de manter as duas gerações.

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O Chevrolet Niva foi feito para o mercado russo
Chevrolet Niva, um jipinho exclusivo para o mercado russo Divulgação/Chevrolet

Foi quando a GM comprou os direitos do nome Niva. Assim, em 2002 o novo passou a sair da fábrica da Lada com o logotipo Chevrolet e o antigo foi rebatizado de Lada 4×4 em 2006, como é chamado oficialmente hoje.

Porém, uma nova geração está a caminho, prevista para 2022. Será baseado no conceito 4X4 Vision, mostrado no final de agosto no Salão de Moscou, e que surpreendeu o público pelo nível de inovações. É muito diferente do Niva ao qual estamos acostumados.

Conceito tem alguns traços em comuns com o Niva original Divulgação/Lada

Mas os fãs do Niva raiz não ficarão órfãos.

A marca confirmou que o atual continuará por tempo indeterminado, pois hoje não há nada no mercado que concorra com ele. O Lada 4×4 é vendido na Rússia por valores que vão de US$ 7.000 (R$ 27.000) e chegam aos US$ 9.800 (R$ 37.700). Mesmo antigo, o Niva continua o maior barato.

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Veredicto

Ultrapassado, o Niva em nada lembra um carro atual. Mas o que falta de conforto, segurança e equipamentos, sobra de carisma e robustez.

Ficha técnica – Lada 4×4 (3-portas)

  • Preço: a partir de US$ 27.000 na Rússia
  • Motor:  gas., diant., longit., 4 cilindros, 8V, 1.690 cm3, 83 cv a 5.000 rpm, 13,2 mkgf a 4.000 rpm
  • Câmbio: manual
    5 marchas, tração 4×4 permanente, reduzida 
  • Suspensão: Duplo A à frente, eixo rígido atrás, com molas helicoidas nas 4 rodas
  • Direção: hidráulica
  • Pneus: 185/75 R16
  • Dimensões: compr., 374 cm; largura, 168 cm; alt., 164 cm; entre-eixos, 220 cm; peso, 1.285 kg; tanque, 42 l; porta-malas, 265 l
  • Desempenho: 0 a 100 km/r em 17 s; vel. máx., 142 km/h
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