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O fim do terror

Por Jeremy Clarkson 29 abr 2013, 21h46

A CLS 63 AMG Shooting Brake é muito rápida. Mas parou de urrar e apavorar, um comportamento antes comum entre os AMG

Não há nada mais difícil neste ramo que fazer a avaliação de um Mercedes-Benz AMG. Porque o motor domina tudo nele. Não importa se você está em um esportivo de dois lugares, um off-road com tração nas quatro rodas ou um sedã executivo grande: tudo em que você pode pensar – e ouvir e sentir – é aquela massa palpitante, anabolizada, de musculatura sob o capô.

Todos os AMG têm dirigibilidade parecida. No sentido que não tem dirigibilidade de verdade. Você pisa no acelerador e logo começa a andar de lado. E quando você está na estrada, no meio da nuvem de fumaça produzida pelos pneus, ensurdecido pela trilha sonora de britadeira, é meio difícil pensar em conforto, visibilidade ou qualquer coisa. Em um
AMG, o resto do carro é simplesmente o garfo e a faca. O motor é sua refeição. E exatamente como no restaurante, onde a comida é que importa, não os talheres usados para levá-la do prato à sua boca.

No entanto, nos últimos meses as coisas mudaram. Quando a AMG começou a produzir carros de maior volume, ela tinha motores V8 de 4,5 litros com diversos níveis de preparação. Então criou uma linha de V8 de 6,2 litros que, por razões que desconhecemos, são anunciados como tendo 6,3 litros. Todos esses V8 eram iguais. Escolher seu favorito era como escolher seu tipo preferido de trovão. Alguns eram ligeiramente mais potentes que os outros, mas quando você está gritando, rezando e suando frio por todos os poros, não dá para ver a diferença.

Agora as coisas mudaram. Todos os novos motores da AMG são V8 biturbo de 5,5 litros, e eles são diferentes. O urro sumiu, e com ele o terror. Você agora pode dirigir um AMG sem protetores auriculares nem fraldas. E isso significa que você pode prestar atenção nos talheres. Sendo uma perua a diesel, a CLS Shooting Brake não parece ser tão boa assim. Ela é menos espaçosa, mais lenta no 0 a 100 km/h e mais cara que as concorrentes da Jaguar, Audi e BMW. Mas esse não é o caso da versão 63 AMG. Porque ela não tem realmente concorrentes.

Diz-se que o CLS sedã foi projetado por um designer da Mercedes quase como um rabisco. Ele queria saber como seria o visual de um Jaguar se fosse feito por sua empresa. Gostaram do que viram, seus rabiscos entraram em produção e agora existe uma versão perua, chamada de Shooting Brake. Até para os britânicos o nome é estranho. Esse era o nome dado no passado a uma carruagem usada para amansar cavalos rebeldes. Depois, proprietários rurais britânicos modificaram essas carruagens para que levassem pessoas, armas e cães em caçadas.

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Então, nos primeiros dias dos automóveis, qualquer coisa desenhada para carregar a tralha na parte de trás era chamada de shooting brake (o “shooting” vinha de atirar). E, quando esses modelos se tornaram comuns nas propriedades rurais britânicas (chamadas de “estates”), o nome genérico mudou para “estate car” (o que no Brasil é chamado de perua).

Hoje, para fugir dessa imagem elitista na Grã-Bretanha, os fabricantes chamam suas peruas por outros nomes. A BMW as batiza de Touring e a Audi, de Avant. E os americanos, de station wagon, porque lá carros grandes e práticos evoluíram nas estações de trem, baldeando produtos de uma composição para outra.

A versão 63 AMG é muito, muito rápida. E, como boa parte do comportamento escandaloso sumiu, às vezes você quase nem percebe que ela é rápida. Há uma tensão momentânea nos músculos do pescoço quando você crava o pé no acelerador, mas a próxima coisa que você percebe é que as faixas da estrada estão borradas e você já está em outra cidade. Ela faz bonito até em estradas mais exigentes. Os AMG mais antigos sempre passavam a sensação de fazer questão de que você usasse seus músculos para ajudá-los a fazer as curvas. É algo de que eu gosto. Mas também gosto da suavidade como a AMG Shooting Brake se comporta. Ela passa a sensação de ágil e leve – o que não é de forma alguma.

E, apesar da potência e da corpulência, ela parece ter aderência. Você não precisa mais contraesterçar sempre que estaciona para pegar 1 litro de leite. Você até consegue cruzar uma cidadezinha inteira sem fazer as rodas patinarem. E ela também é confortável. Mesmo nas estradas britânicas mais esburacadas, ela seria uma plataforma de tiro tremendamente estável. É um pouquinho como um roqueiro que já passou dos 40. A anarquia continua no seu DNA, mas hoje ele prefere um cafezinho à cocaína.

Problemas? Sim. O câmbio automático tradicional com conversor de torque foi substituído por um automatizado de dupla embreagem. Tem gente que pode gostar, mas, como todas as soluções modernas com borboletas no volante, acho irritante. No modo Comfort as coisas são aceitáveis, mas quando está no Sport ela se torna lerda. Especialmente na cidade, onde ela tem o hábito de responder aos pedidos de maior velocidade exatamente 0,5 segundo após a brecha no tráfego que você queria desaparecer.

Além disso, meu carro de teste tinha tantos acessórios que o painel de instrumentos era quase indecifrável. E, se você mergulha em um submenu para ver do que se trata, ou talvez para desligar a assistência de mudança de faixa, você pode ficar perdido em um mundo de jargão de informática por um ano.

Lá atrás, descobrimos que a tampa do porta-malas abre e fecha eletricamente. Por quê? Quem foi que achou que os clientes gostariam de ficar esperando um tempão debaixo de chuva, parecendo idiotas, enquanto os motorezinhos elétricos fazem seu trabalho lentamente? Eu tenho braços. Eu posso abrir um porta-malas perfeitamente bem, obrigado.
Não que faça muita diferença, porque a CLS não foi desenhada para quem tenha interesse de levar móveis e outros objetos grandes em alta velocidade. Você não vai conseguir colocar um armário ali – nem perca tempo. Mas isso é porque este carro é como seu irmão sedã: o importante é o estilo.

E sou obrigado a dizer que, nesse aspecto, o objetivo foi bem atingido. Muitos dos Mercedes atuais têm desenho exagerado. Frisos demais nas laterais e excesso de detalhes desnecessários. Mas este acertou na mosca. Seu visual é arrebatador, o que me leva a uma conclusão peculiar. Se quiser um carro para carregar malas grandes ou seu aparato
de equitação, é melhor procurar uma das opções da Jaguar, Audi ou, especialmente, da BMW. Eu acho que a 530d Touring é um dos melhores carros já feitos até hoje, mesmo não tendo exatamente o mesmo apelo. A CLS não é um carro esportivo. Ela não é realmente uma perua. Mas, ao contrário de qualquer outra, ela tem um pouco de ambos.

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