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Não é para mim, mas…

Por Jeremy Clarkson 25 nov 2013, 16h07

Meus filhos não são nem um pouco interessados em carros. Meu filho tem um Fiat Punto só porque é um carro italiano e ele gosta de macarrão e da Inter de Milão. Ele não tem ideia de que motor o carro tem e sua única preocupação é com o consumo de combustível. É a mesma história com seus amigos. Eles sabem de cor os centroavantes de todos os times de futebol da Europa e quantos goleiros da Premier League chutam com o pé esquerdo, mas você acha que conseguem dizer qual a diferença entre um Audi e um Mercedes? Nem em 1 milhão de anos. Seriam capazes de identificar o Kimi Raikkonen? Não, nem se ele estivesse sozinho e usando um crachá.

E então temos os meus amigos. Desses, talvez dê para dizer que três sejam interessados em carros. Os outros simplesmente não dão importância. A maioria deles vai às compras mais ou menos a cada dois anos e leva o Range Rover que estiver disponível para pronta entrega naquele dia. Eu também sei que existe um número significativo de pessoas que não gostam de automóveis do mesmo jeito que não gostam de sabonete e do primeiro-ministro David Cameron. E tudo isso levanta uma questão: quem está assistindo ao Top Gear? Quem compra revistas sobre carros? Por que a Ferrari recentemente bateu seu recorde anual de vendas?

Fiquei matutando sobre isso por um bom tempo e agora acho que tenho a resposta: são as pessoas que vão fazer compras no gigantesco shopping center Westfield de Londres. O estacionamento, de vários andares, está sempre lotado de VW Golf rebaixados, BMW tunados e Mercedes excessivamente equipados. Ele constantemente ecoa o rugido de escapamentos redimensionados, o guincho de pneus esportivos torturados no asfalto e o estrondo de sistemas de som com milhares de watts. É uma catedral da Igreja do Cavalo Vapor. É um ponto de encontro dos discípulos da velocidade.

Eles até inventaram regras próprias ali. O dono do estacionamento criou um sistema de mão única  e indicação da preferencial em vários cruzamentos, mas ele foi substituído por outro mais simples, que é: aquele que tem o carro mais caro tem a preferência. E funciona muito bem. É claro que há pessoas que tentam enganar. Recentemente, um cara em um Mercedes com uma plaquinha AMG tentou tomar o último espaço vago na frente de uma loja, mas eu já tinha percebido que o carro era na verdade um E 250, por isso não dei chance.

Só que na semana passada tudo deu errado, porque estava dirigindo um cross-dresser Peugeot 2008. E isso, no estacionamento do Westfield, significa o nível mais baixo da cadeia alimentar. É a sujeirinha que os insetos comem. Por isso, você tem de dar passagem para absolutamente todo mundo e, então, estacionar no setor dos perdedores, a quilômetros das lojas. E é basicamente a mesma história em todo lugar a que eu fui. Em Notting Hill, dois turistas holandeses vestidos com roupas da moda pararam, apontaram para mim e se racharam de rir. Então tiraram fotos e foram embora, ainda rindo das fotografias. Acho que, se eu tivesse acabado de gastar 19 145 libras esterlinas (cerca de 68 200 reais) com esse carro e as pessoas rissem de mim em todo lugar aonde eu fosse, ficaria um pouco desconcertado.

Mas eu não teria gastado a quantia de 19 145 libras com um carro desses, porque simplesmente não entendo o que ele pode ter de atrativo. E é a mesma história com todos seus concorrentes diretos, como aquele medonho Renault Captur. Você paga mais caro do que um hatch tradicional e tudo que recebe em troca é a possibilidade de dirigir usando um chapéu da altura daqueles usados pelos guardas do Palácio de Buckingham.

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Mas o fato é que muitas pessoas realmente gostam de carros desse tipo, do mesmo jeito que muitas pessoas gostam de programas de TV onde casais tentam mostrar o quanto conhecem um do outro. Mas é meu trabalho analisar o Peugeot como veículo. E a verdade é que… ele não é nada mau.

Ele não faz curvas muito rápido e é tão empolgante quanto estar morto, mas, como um carro para alguém que não vê graça em mais nada na vida, faz sentido. Desde que não dê nenhum problema. Porém, sendo um Peugeot, provavelmente dará. Se não der, contudo, é surpreendentemente bom. Em primeiro lugar, a suspensão é tão deliciosamente macia que você não sente nenhum buraco, lombada ou a bicicleta do vizinho – ou qualquer uma daquelas outras coisas que quem dirige um Peugeot aqui na Inglaterra tem a tendência de passar por cima. Ele flutua como um hovercraft.

Testei a versão diesel desse crossover e novamente fiquei surpreso. Ele puxa tão bem em baixas rotações que você pode colocá-lo na última marcha e usá-la o dia inteiro. E não é só torque: ele ingere diesel da mesma forma que uma velha senhora beberica um licor. E também é um lugar confortável para se sentar. A cabine tem materiais elegantes, com algumas costuras bonitas no estofamento, e meu modelo veio com um teto de vidro que torna a cabine arejada e agradável. O GPS era tremendamente fácil de usar e o exemplar que testei contava com diversos acessórios, até mesmo um sistema de tração estilo Range Rover. Você diz o tipo de superfície em que está andando e ele decide que roda deve receber mais força. O único pequeno problema é que ele não tem tração nas quatro rodas. Por isso, é só um botão para impressionar seu passageiro. Na prática, ele não faz nada.

Suponho que, relutantemente, tenha de admitir que, por causa da carroceria mais alta, mais quadradona, você tem mais espaço neste modelo do que em um hatch comum. Existe espaço de verdade para pessoas no banco de trás, e o porta-malas pode levar três cachorros de tamanho médio. Quatro, se você não gostar muito deles.

Por isso, em termos estritamente utilitários, é preciso dizer que este Peugeot 2008 marca muitos pontos e faz várias coisas extremamente bem. No entanto, eu o detestei. Eu odiei como ele não faz qualquer tentativa de ser empolgante ou divertido. Resumindo, este carro não acrescenta absolutamente nada para mim, e eu não culpo meus colegas de credo do estacionamento do shopping center Westfield por tratar a mim – e a ele – com tamanho desdém e escárnio.

Mas para a grande maioria das pessoas – e com isso quero dizer 97,3% da população – ele faz bastante sentido. Se – e esse é um grande “se” – ele for confiável, então você não pode pedir mais.

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