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Grandes Brasileiros: Buggy Glaspac

O primeiro bugue brasileiro, criado artesanalmente a partir de uma miniatura de brinquedo, era uma cópia do Meyers Manx americano

Por Felipe Bitu 17 jan 2017, 19h38
O Buggy Glaspac não teve produção em série
O Buggy Glaspac não teve produção em série Xico Buny

Amigos de infância e filhos de ingleses, Donald Pacey e Gerry Cunningham fundaram no Brasil a Glaspac, em 1962. Eles eram fornecedores de empresas automotivas e foram pioneiros no país no uso de plástico reforçado com fibra de vidro – material utilizado para fabricar guaritas, carrinhos de sorveteiro, pedalinhos e pranchas de surfe.

O contato com os surfistas fez com que os sócios conhecessem o estilo de vida desses jovens. Nos EUA, a cultura praiana dos anos 60 estava ligada ao Meyers Manx – um bugue desenvolvido por Bruce Meyers sobre a mecânica Volkswagen.

A dupla viu a oportunidade de replicar o Manx por aqui – e a ideia era genial, pois o Brasil tinha muitos Fuscas e, claro, muitas praias. Só faltou pedir permissão ao fabricante. “Nunca contactamos o Meyers, nem tínhamos licença para replicar o Manx”, afirma Gerry Cunningham.

“O primeiro protótipo veio de uma miniatura da Corgi Toys em escala 1:43, ampliada em compensado, poliuretano e massa plástica. A partir dela desenvolvemos o molde e depois os gabaritos para encurtar o chassi Volkswagen em 35 cm”, conta.

Baixo centro de gravidade e pneus grandes o deixavam tão estável que alguns nem usavam a barra anti-capotamento que vinha com o kit
Baixo centro de gravidade e pneus grandes o deixavam tão estável que alguns nem usavam a barra anti-capotamento que vinha com o kit Xico Buny

O Glaspac diferenciava-se do Manx por três detalhes: formato do capô, parte traseira da carroceria e apliques laterais para melhorar o acabamento. Mas, apesar da simplicidade, o início da fabricação não foi fácil. “A resina de poliéster passou a ser produzida aqui, mas a fibra de vidro continua­va importada da Inglaterra.”

Outra dificuldade foi desenvolver os componentes. Nenhum fornecedor manifestou interesse em um automóvel que parecia ter vindo de outro planeta.

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Com pouco dinheiro em caixa, as negociações eram complicadas. A solução foi produzir as rodas de aço alargadas e armação do parabrisa na própria Glaspac. Os pneus vieram da Goodyear, por iniciativa de um executivo norte-americano que queria presentear o filho com um bugue. O volante Fórmula 1 era fornecido pelo vizinho e amigo pessoal da dupla, o piloto Emerson Fittipaldi.

A homologação exigiu inúmeras viagens ao Rio de Janeiro e até o emplacamento foi um problema: os vistoriadores implicavam com detalhes técnicos, que iam do motor exposto à largura dos para-choques.

O primeiro Buggy Glaspac foi montado em 1969, pintado de laranja. O segundo era rosa e foi decorado com adesivos hippies flower power. A estratégia de marketing consistiu em viajar até o Rio e estacioná-lo na Praia do Arpoador: o alvoroço do público interditou o trânsito até Copacabana. O carro retornou a São Paulo como o novo objeto de desejo da juventude: recebeu convites para aparecer em novelas e reportagens e tornou-se o preferido de artistas e esportistas.

Painel era personalizado: este aqui tem instrumentação completa e dois porta-copos
Painel era personalizado: este aqui tem instrumentação completa e dois porta-copos Xico Buny

A produção chegou ao limite de 30 bugues por mês, totalizando mais de 1.000 carrocerias. Mas apesar do relativo sucesso, era difícil fechar as contas, já que a VW não fornecia nem o chassi nem motores. “Chegamos a comprar Fuscas novos para desmontar e vendíamos as carrocerias para frotas de táxi, mas o Buggy zero-quilômetro era inviável financeiramente”, lembra Gerry.

Então passaram a vender apenas o kit com carroceria, bancos, console, armação e vidro do para-brisa, barra anticapotagem, faróis, para-choques e outros acessórios, como o volante Fittipaldi, capota (rígida ou de lona) e até kits para aumento de cilindrada (1,6 ou 2 litros).

A partir de 1972, o cliente podia enviar à Glaspac um Fusca acidentado ou em mau estado. O corte do chassi e a montagem foram realizados pela Montauto até meados dos anos 1970, quando a Glaspac deixou de produzir kits. Os moldes foram cedidos sem ônus à Montauto, dando origem ao bugue BRM. A Glaspac continuou no mercado de réplicas até o falecimento de Pacey, em 1984, e encerrou suas atividades na década de 1990.

Ao todo 1.000 unidades foram vendidas
Mais de 1.000 carrocerias foram feitas pela Glaspac em São Paulo Xico Buny

Ficha técnica – Glaspac 1973

  • Motor: longitudinal, 4 cilindros contrapostos, 1.584 cm3, comando de válvulas simples no bloco, carburador de corpo simples
  • Potência: 49 cv a 4 000 rpm
  • Torque: 10,3 mkgf a 2 200 rpm
  • Câmbio: manual de 4 marchas, tração traseira
  • Dimensões: comp., 360 cm; largura, 120 cm; altura, 125 cm; entre-eixos, 205 cm; peso, 520 kg
  • Pneus: 5.60×15
  • Preço (junho de 1990): Cr$ 6.010 (valor do kit básico, sem a base de Fusca)
  • Preço (atualizado IGPM/FGV): R$ 19.400
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