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Bons tempos de volta

Por Jeremy Clarkson 10 jan 2013, 09h52

Eu não mudaria uma única coisa no Toyota GT86. Ele é o carro mais interessante já lançado desde o Mazda MX-5.

Nos velhos tempos, quando as pessoas tinham difteria e as crianças viviam cobertas de fuligem, os carros tinham pneus estreitos para que os entusiastas pudessem se divertir fazendo-os derrapar nas curvas. Agora, no entanto, o que importa é a aderência. Os modelos rápidos da Ford são equipados com diferenciais dianteiros para garantir que você mantenha o traçado, mesmo quando estiver a 200 km/h em uma curva fechada numa estradinha de serra. E tem o Nissan GT-R, que usa uma capacidade de processamento de dados suficiente para fazer funcionar toda uma Bolsa de Valores só para tornar possível fazer a mesma curva na velocidade do som.

Na verdade, todos os carros modernos se agarram à estrada como uma criancinha assustada se agarra à mão da mãe. Às vezes, isso não é ruim. Significa que os desatentos e os fra
cos têm menos chance de rodar e 
acertar uma árvore. E também
 que os pilotos dentro de nós 
podem fazer melhores tempos de
 volta em track days. Mas é isso 
que você quer? Realmente? Por
que, quando a aderência realmente for embora, você estará 
em uma velocidade para a qual não terá nem talento nem tempo para colocar as coisas em ordem antes de bater num poste. Se você estiver tentando ganhar uma corrida, velocidade em curva é importante. Mas, se não for esse o caso, é assustadora.

Quando o assunto é andar rápido, o Nissan GT-R é imbatível. Mas, para se divertir e não exagerar, seria melhor um Morris Minor com pneus não radiais. O que me leva ao carro que é o tema aqui hoje. Ele se chama Toyota GT86. É fabricado em colaboração com a Subaru, que vende uma versão quase idêntica com o nome BRZ. Ao contrário da maioria dos cupês, como VW Scirocco e Vauxhall Calibra, o GT86 não é um hatch vestindo carroceria de esportivo. Ele não é um exercício de marketing concebido para aliviar os desejosos por estilo de seu dinheiro extra. Ele nem sequer é bonito de verdade. Nem prático. O porta-malas é grande o suficiente para colocar suas coisas, mas pode desistir de levar qualquer pessoa no banco de trás. Inclusive crianças. A não ser que elas não tenham pernas ou cabeça.

Potência? Bem, ele tem um motor boxer Subaru 2.0 de 200 cv. Não é muito. Mas, como o carro pesa só 1275 kg e o motor alcança rotações bem altas, você chega a 100 km/h em 7,6 segundos e consegue a velocidade máxima de 225 km/h. Ele quase poderia ser confundido com um hatch apimentado.

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Mas é impossível confundir o ronco. O som que ele produz é alto, e não de forma particularmente agradável. Não há uma nota de escapamento nítida, nenhum respirar do sistema de admissão. Só o som da gasolina explodindo numa caixa de metal. O interior também não arranca suspiros.Você tem o necessário em termos de ar-condicionado, som e assim por diante, mas nenhum senso de beleza ou estilo. Exceto por umas costuras vermelhas aqui e ali, tudo passa uma sensação de meramente utilitário.

Assim, não existe nada neste carro, seja no papel, seja ao vivo, que vá acender os desejos de um apaixonado por drift. Mas, na verdade, existe. Porque, ao contrário da maioria dos carros desse tipo, o GT86 tem tração traseira. E tração traseira num carro é como cozinhar com azeite de oliva. Sim, você pode usar a tração dianteira “óleo de soja”, mas, se quiser um resultado realmente bom, tem de colocar algo a mais. Como eixo cardã e diferencial. Em veículos de tração traseira, as rodas dianteiras ficam só com o trabalho de direcionar o carro, enquanto as traseiras cuidam da propulsão. É caro – e complicado – fazer um carro assim, mas o resultado final é melhor, mais equilibrado.

O GT86 também traz um toque da genialidade da Toyota. Ela equipou-o com os mesmos pneus estreitos que usa no Prius. E isso significa muito pouca aderência.Você entra numa curva em uma velocidade que, pelos padrões modernos, é de pedestre e imediatamente começa a sentir a traseira desgarrar. Então você a deixa escapar um pouquinho e, quando chega ao ângulo desejado, acha uma posição do acelerador que mantenha a traseira lá. Para sempre. Você está fazendo uma linda derrapagem controlada, e tudo isso a cerca de 20 km/h. O que significa que, se perder a mão do carro e estiver indo direto para uma árvore, pode abrir a porta e sair.

Mas você não perderá a mão, porque a direção é perfeitamente balanceada e cheia de sensibilidade. Eu prometo. O GT86 vai revelar um talento que você não sabia que tinha. Ele vai liberar seu DNA de herói e você nunca mais vai querer dirigir outro tipo de carro. Não mesmo. Coloque algodão nos ouvidos, engate a segunda no câmbio com uma pegada à moda antiga, pise firme no excelente freio, descubra que teria sido melhor colocar um pouquinho mais de algodão nos ouvidos quando o motor boxer ruge, vire o volante e sinta a traseira começar a ir embora. Tenho certeza de que, nesse ponto, muitos não entusiastas estão se perguntando se eu não perdi a cabeça. Por que, perguntariam eles, alguém iria querer um carro barulhento, pouco prático e que não faz bem as curvas? A resposta é simples: se você está fazendo essa pergunta, o GT86 não é para você.

Acho que poderia levantar uma questão de segurança. Porque, embora ele seja muito divertido numa pista, penso no que aconteceria quando estivesse chovendo, sua cabeça cheia de outras coisas e você tentasse fazer uma curva a 40 km/h. Existe hora e lugar para escapar de traseira, e não tenho certeza de que seja na hora do rush no meio da cidade. Nesse caso, melhor ligar o controle de tração.

E também há outro problema. Eu aposto que algumas pessoas vão achar que o visual do GT86 ficaria melhor com rodas maiores e pneus mais largos. Não faça isso. Porque, embora isso possa tornar o carro mais bonito, vai estragar a receita tanto quanto vomitar em um prato de macarronada. Sinceramente, eu não mudaria uma única coisa no GT86. Por ser meio insípido, ele não atrai muita atenção. Por isso você pode se divertir sem ser marcado pelos outros como alguém tentando se exibir.

E agora, para fechar: o GT86 custa na Inglaterra menos de 25 000 libras (82 000 reais). Isso o torna mais barato que um Astra VXR. Isso o torna um diamante pelo preço de um prêmio de bingo. É estranho. Pensávamos que carros projetados desde o início para serem cupês já eram. Pensávamos que a dirigibilidade caprichosa já era. E tínhamos certeza de que uma boa relação custo-benefício já era. Mas todas essas três coisas estão presentes nesse impressionante carro. Talvez o mais interessante já lançado desde o Mazda MX-5 original. Eu dou a ele cinco estrelas só porque não é possível dar mais.

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