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Leão adestrado, rede desastrada

Por Redação 29 out 2012, 10h20

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Por Péricles Malheiros | Foto Pedro Rubens | Estúdio Burti HD

A opção por incorporar o 3008 à frota de Longa Duração, em março de 2011, teve um ar de aposta. Repleto de equipamentos e com porte avantajado e conjunto mecânico atraente, o carro chamou nossa atenção. Acertamos em cheio: logo após a compra, uma fila de espera de até três meses se formou na rede, e mais recentemente, na edição de maio de 2012, o Peugeot saiu vitorioso de um comparativo entre SUVs e crossovers. Percorridos 60 000 km, chegou a hora do balanço. Do carro e da rede…

O primeiro sinal de falta de intimidade da rede com o 3008 apareceu logo na (falta de) cerimônia de apresentação do carro. Na Aquitaine, onde o adquirimos, em março de 2011, o técnico que fez a entrega demonstrou pouco conhecimento dos recursos – justamente um dos destaques do crossover. Depois, a cada revisão, problemas. De verificações solicitadas não realizadas a cobrança de itens não substituídos, passando por um longo período sem o carro por falta de peças básicas, como pastilhas de freio e amortecedores. Até a última passagem na rede foi frustrante. Na simulação de venda, quando nos anunciamos interessados na troca por um 3008 zero, os valores ofertados pela rede foram inferiores aos de lojas particulares: 40000 reais na concessionária Paris e 55000 reais na Aquitaine. Em lojas multimarcas, as ofertas flutuaram entre 56 000 e 60 000 reais. Como pagamos 81 000 reais pelo 3008 em fevereiro de 2011, dá para afirmar que a rede impõe ao modelo uma desvalorização muito alta, entre 50,6% e 32,1%.

Sinais vitais

Na Fukuda Motorcenter, nosso consultor técnico e responsável pelos desmontes, Fabio Fukuda, deu início às medições estáticas. Na linha de alimentação, a pressão estava em 5 bars, o valor nominal exato divulgado pela Peugeot. A pressão de óleo também estava dentro dos limites: 2 bars em marcha lenta e 3 bars a 3500rpm.

Como a fábrica não divulga a pressão de compressão nominal dos cilindros, ficamos sem valor de referência. “Quando há algum problema grave, o sintoma mais comum é uma variação da pressão entre os cilindros. Na medição, todos estavam com 80 psi. Não serve como atestado de saúde, mas dá alguma tranquilidade”, diz Fukuda.

Vencida a etapa das medições estáticas, Fukuda iniciou a desmontagem. Motor e câmbio retirados, surgiu o primeiro sinal de desgaste. “O coxim inferior do câmbio está com sinais de início de rompimento do elemento elástico. Em pouco tempo, poderia se agravar e causar vibração e ruído nas arrancadas”, disse o técnico.

Também foi notado um pequeno sinal de vazamento entre a tampa de válvulas e o cabeçote. Problema reincidente, uma vez que o defeito já havia sido detectado e sanado, em garantia, pela autorizada Victoire, na revisão dos 30000 km, com a susbtituição da junta da tampa de válvulas.

Motor aberto, o destaque negativo foram as válvulas de admissão com depósito excessivo de carvão. “A contaminação está num nível severo, a ponto de comprometer a vedação na fase em que se comprime a mistura, o que pode ajudar a explicar os 80 psi de compressão dos cilindros, um valor baixo mesmo para um motor turbo”, diz Fabio.

Injeção direta

A investigação da origem de tanto óleo carbonizado se iniciou pela análise dos componentes alojados no bloco. Os cilindros estavam perfeitos, com diâmetro, ovalização e conicidade toleráveis, assim como a folga entre pontas dos anéis de compressão e raspadores. Diferentemente de outros motores com injeção convencional desmontados até então, a gasolina é pulverizada na câmara de combustão, não no coletor de admissão. “Com os cilindros e anéis de pistão em perfeito estado, só há duas causas prováveis para o depósito excessivo de carvão: ineficiência dos retentores ou do sistema de recirculação de vapores de óleo lubrificante”, diz Fukuda. Pelo bom estado, comandos de válvulas, virabrequim, camisas de cilindro e velas de ignição ganharam elogios do consultor.

Susto na curva

O turbo se mostrou robusto: o rotor frio estava intacto, comprovando a eficiência do filtro de ar. O eixo, sem folga, atestou a qualidade de rolamento, mancal e lubrificação. O câmbio automático, sem qualquer histórico de mau funcionamento ao longo dos 60000 km foi poupado do desmonte. A suspensão, em contra- partida, recebeu atenção especial. Aos 33 800 km, o próprio Fabio Fukuda levou um susto ao retornar de uma viagem: “Estava a 100 km/h numa curva e de repente, sem passar por qualquer buraco, a traseira do carro ficou solta. O 3008 dançou de um lado para o outro, mudando de faixa e assustando os motoristas que estavam próximos”, conta ele, que completou o trajeto rodando a 60 km/h. Ao realizar a troca dos amortecedores traseiros na revisão dos 30000 km, a Victoire montou os componentes invertidos, danificando a linha hidráulica que existe entre eles e que forma uma espécie de barra estabilizadora ativa. Comprimido contra um suporte da suspensão, o metal acabou se rompendo, provocando o vazamento instantâneo do fluido. Outro conjunto foi instalado (corretamente, também em garantia) pela Super France. Agora, no desmonte, o sistema comprovou ser robusto: buchas, terminais e mancais estavam em perfeito estado, assim como os amortecedores e seus coxins, buchas e coifas.

Disco fino

As pastilhas de freio dianteiras foram substituídas na revisão dos 40000 km, por 398 reais. O problema é que a concessionária Paris não fez qualquer recomendação de acompanhamento de desgaste dos discos. “Por isso, eles chegaram aos 60000 km com espessura muito próxima do limite tolerado”, diz Fukuda. A concessionária responsável pela revisão dos 50000 km deveria ter detectado a proximidade da necessidade de troca, pois não havia como garantir que o componente chegaria íntegro à revisão seguinte. Os sistemas de direção e elétrico encerraram a jornada intactos. “A caixa de direção estava bem fixada ao agregado, com suas barras axiais e terminais sem folga e estanques. Os chicotes e terminais são de ótima qualidade, firmes e bem isolados”, diz Fukuda.

Também causou boa impressão o acabamento do crossover. Apesar de uma guarnição solta da porta do motorista, o 3008 é um carro montado com esmero e materiais de alta qualidade. As presilhas e travas garantem fixação perfeita dos plásticos da cabine, o que explica o baixo nível de ruído.

O 3008 saiu do Longa Duração aprovado, mas com ressalvas. No entanto, a rede autorizada Peugeot, com as exceções de praxe, demonstrou desatenção e até desconhecimentos ao cometer erros primários. Ainda precisa evoluir muito para chegar ao nível do produto que vende.

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APROVADO

Turbo em cima

O bom estado do rotor da caixa fria do turbo comprova a eficiência do filtro de ar. O eixo sobreviveu ao teste intacto, sem sinais de folga, travamento ou desbalanceamento.

Azeite virgem

O sistema de lubrificação poupou as zonas de atrito do virabrequim e dos comandos de válvulas, todas dentro dos padrões de fábrica e livres de trilhas ou azulamento.

Caixa de (boa) surpresa

A assistência da direção funcionou perfeitamente do início ao fim
do teste, sem qualquer sinal de vazamento na linha hidráulica ou folgas nas barras axiais e terminais.

Velas acesas

Substituídas na revisão dos 40000 km, as velas de ignição estavam
em perfeito estado.

Atenção na tensão

Apesar da sobrecarga repentina quando o amortecedor traseiro vazou, as molas não apresentaram marcas de batidas de elos.

O silêncio dos inocentes

Amortecedores decepcionaram, mas a suspensão em si se mostrou robusta. Buchas e pivôs encerraram os 60 000 km sem folga ou ruídos.

Alta Costura

Mantas e espumas moldadas, travas
e presilhas de alta pressão e materiais de qualidade dão ao 3008 o título de um dos carros de melhor acabamento dos últimos anos do Longa Duração.

Truco na troca

A Paris alegou
ter substituído
os amortecedores dianteiros em garantia, mas nem os tocou. Menos mal, pois
os ruídos vinham
das bieletas.

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ATENÇÃO

Cabeça quente

Além das válvulas, o lubrificante do motor também atingiu a cabeça dos pistões, porém de um jeito menos severo. Em pouco tempo, as partículas desprendidas poderiam riscar as camisas.

Fim da linha

A linha hidráulica e o
compensador passam o óleo
de um amortecedor para o
outro, atuando como uma
barra estabilizadora traseira.
Com defeito, o kit foi trocado em garantia. Montado invertido, quase provocou
um acidente aos 33800 km.

Troca o disco!

Na revisão dos 40 000 km, a Paris viu que era preciso trocar as pastilhas. Mas na de 50 000 a Van Gogh deveria ter sugerido um acompanhamento de desgaste dos discos. aos 60000, tanto os dianteiros quanto os traseiros estavam muito próximos do limite.

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RUIM

Exame de admissão

Tudo indica que os retentores das válvulas de admissão não suportaram nosso combustível e deixaram o óleo do motor escorrer pelas hastes. As de escape, por trabalharem em temperatura mais elevada, sofrem um efeito autolimpante e se apresentam menos contaminadas. A vedação do cabeçote chegou a ser prejudicada.

Estresse

Com o material elástico rompido, o coxim inferior do câmbio sai do teste reprovado. Os outros dois estavam íntegros.

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HISTÓRICO

10 174 km – Direção trepida acima de 100 km/h

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25 314 km – para-brisa atingido por uma pedra

29 755 km – Vazamento de óleo na tampa
de válvulas e ruídos na caixa de direção

30 045 km – amortecedor tras. esq. vazando

36 571 km – Troca do jogo de pneus

37111 km – Ruídos na suspensão dianteira

39632 km – Ruídos nas frenagens;
pastilhas sem alarme de desgaste no painel

55295 km – Ruído proveniente da polia tensionadora da correia

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CHECK-UP

Quilometragem / 1 425 km / 60 049 km / Diferença (%)

0 a 100 km/h (s) 9,6 / 10,7 / 11,46

0 a 1000 m (s) 31 / 32,3 / 4,19

De 40 a 80 km/h (s) 4,3 / 4,7 / 9,31

De 60 a 100 km/h (s) 5,3 / 6 / 13,21


De 80 a 120 km/h (s) 6,8 / 8,5 / 25

Frenagem 60 km/h a 0 (m) 13,6 / 14,1 / 3,68

Frenagem 80 km/h a 0 (m) 24,4 / 25 / 2,46

Frenagem 120 km/h a 0 (m) 56 / 56,3 / 0,54

Consumo urbano (km/l) 10,8 / 11,2 / 3,71

Consumo rodoviário (km/l) 14,7 / 14,7 / =

Ruído interno PM (dBA)
 34,2 / < 34 / –

Ruído interno RPM máx. (dBA) 62,7 / 61,5 / 1,91

Ruído interno 80 km/h (dBA) 56,7 / 56,1 / 1,06

Ruído interno 120 km/h (dBA) 62,9 / 62,7 / 0,32

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FOLHA CORRIDA

Preço de compra: 81000 reais (fevereiro/2011)

Quilometragem total: 60286 km

39352 km (65,3%) rodoviário

20934 km (34,7%) urbano

Consumo total: 6236,48
 litros de gasolina (17434,29 reais)

Consumo médio: 9,7 km/l

Custo por 1000 km: 39,08 reais

10 000 km –
 297 reais (Pavillon)

20 000 km –
 422 reais (Alpes)

30 000 km –
 297 reais (Victoire)

40 000 km – 655 reais (Paris)

50 000 km –
 306 reais ( Van Gogh)

Peças extras às revisões

Jogo de pneus, 1 996 reais;

Pastilhas dianteiras, 398 reais;

Limpeza de injeção, 263 reais;

Limpeza de radiador, 153 reais;

Alinham., balanc. e rodízio, 733 reais

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VEREDICTO

Com tecnologia alinhada à nova tendência de motores menores e mais eficientes, equipamento e acabamento
à altura da categoria e preço competitivo, o 3008 mostrou-se moderno e bem construído. Os senões ficam na conta da rede autorizada, que parece não estar preparada para um produto diferenciado: da assistência
à avaliação, uma demonstração de desatenção.

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