Ninguém vira líder por acaso. Desde 2001 a Fiat ocupa o primeiro lugar nas vendas no mercado brasileiro, especialmente por entender o que o consumidor brasileiro procura (e deseja) ao comprar um automóvel. E a Strada tem papel fundamental neste fenômeno, liderando o segmento de picapes leves há 14 anos. Nada mais natural para um modelo que não só soube envelhecer com dignidade como se reinventou trazendo opções até então inexistentes na categoria, como a carroceria de cabine dupla – cujo sucesso forçou a Volkswagen a lançar a Saveiro Cabine Dupla quase cinco anos depois.
Mas qual é o segredo da Strada? Depois de avaliar a versão Trekking Cabine Dupla por uma semana, podemos dizer com segurança: apesar dos defeitos, nenhuma concorrente consegue ser tão atraente quanto a representante da Fiat. Não dá pra negar que a Strada sente o peso da idade de um projeto lançado em 1998: a posição de dirigir é elevada demais e levemente deslocada para a direita, o console central encosta no joelho e a ergonomia é ruim (com botões longe do alcance das mãos e as saídas de ar em posição baixa demais). Nestes quesitos, a arquirrival Volkswagen Saveiro nada de braçada, trazendo não apenas uma posição de dirigir mais esportiva (e confortável) como um projeto mais adequado às tendências da indústria automotiva nos últimos anos.
Se estes pontos tornam a vida mais incômoda dentro da Strada, pelo menos a lista de equipamentos pode amenizar a situação. A versão Trekking sai de fábrica com ar-condicionado, direção hidráulica, coluna de direção com regulagem de altura, computador de bordo, faróis de neblina, protetor de caçamba, porta-óculos, rodas de aço com pneus de uso misto, travas elétricas e vidros elétricos. Embora seja mais barata (R$ 53.470, contra R$ 58.310), a Saveiro Trendline Cabine Dupla oferece apenas direção hidráulica, protetor de caçamba e vidros elétricos de série. Se o comprador quiser equipará-la com a Strada, precisará desembolsar mais R$ 5.359 considerando que a VW insiste em oferecer alguns equipamentos (como computador de bordo e faróis de neblina) atrelados a pacotes. Além disso, a picape da Fiat pode ser equipada com dois itens inexistentes na Saveiro: teto solar elétrico (R$ 2.978) e bloqueio do diferencial dianteiro Locker (R$ 1.984).
Há espaço para quatro pessoas, sendo que os passageiros dos diminutos bancos de trás viajam apertados. Comparando com a Saveiro, o caso da Strada é um pouco mais crítico, oferecendo pouco espaço tanto para as pernas quanto para a cabeça – qualquer pessoa com mais de 1,75 metro se sentirá desconfortável mesmo em viagens curtas. Mas só a picape da Fiat traz a comodidade da terceira porta desprezada pela Volkswagen. À primeira vista ela parece inútil, mas o uso diário apenas ressalta sua praticidade para acessar o banco traseiro, apesar do acesso pouco prático.
A Strada também leva a melhor no desempenho. Enquanto a líder usa um motor 1.6 16V e.TorQ de até 117 cv com etanol, a concorrente da VW tem o antigo EA-111 1.6 de 104 cv se abastecido com o combustível etílico. No torque máximo o modelo da Fiat leva a melhor novamente, com 16,8 mkgf a 4.500 rpm contra 15,6 mkgf a 2.500 rpm. Na capacidade de carga a Saveiro leva ligeira vantagem ao transportar até 667 quilos contra 650 quilos da rival.
Para algumas pessoas, escolher entre Strada e Saveiro acaba sendo mais uma questão de gosto. Mas, analisando ponto a ponto, o modelo da Fiat é mais racional do que o da VW, mesmo custando mais. Especialmente considerando as boas vendas da picape, que há meses figura entre os cinco modelos mais vendidos do país, um feito e tanto para um veículo utilitário no meio de automóveis de passeio. No fim das contas, não fica tão difícil entender porque a Strada é primeira colocada há tantos anos. Afinal, ninguém vira líder por acaso.