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Por que o coronavírus não colapsou mercado de caminhões como o de carros

Mercado de pesados também registrou queda em meio à pandemia, mas impacto foi muito menor do que o sentido pelo mercado de veículos leves

Por Renan Bandeira - Atualizado em 3 jul 2020, 20h34 - Publicado em 3 jul 2020, 18h01
Divulgação/Volkswagen

A Fenabrave (associação nacional dos concessionários) divulgou o balanço de vendas referente ao mês de junho e ao fechamento do semestre na última quinta-feira (2).

Os números publicados pela associação mostram uma melhora tímida do mercado após a reabertura de fábricas, concessionárias e departamentos estaduais de trânsito (Detran) após a quarentena pela pandemia do coronavírus.

No entanto, se os 122.772 automóveis e comerciais leves emplacados representaram um crescimento de 116,78% em relação a maio, ainda ficaram 42, 47% abaixo do registrado em junho do ano passado.

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O recuo das vendas pode ser visto também no comparativo semestral entre 2019 e o 2020: se na primeira metade do ano passado foram 1.248.843 emplacamentos, neste foram 763.280, recuo de 38,88%.

Para piorar, a desvalorização do real frente ao dólar, para patamares acima de R$ 5, vem forçando uma elevação rápida dos preços dos carros, tornando a aquisição ainda menos segura.

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No entanto, um setor da indústria automotiva não tem tido muito do que reclamar: o de caminhões.

Segundo dados da mesma Fenabrave, esse mercado não colapsou como o de veículos leves, embora os fatores citados acima também tenham reduzido as vendas do setor.

No acumulado do primeiro semestre deste ano, foram 37.629 emplacamentos de pesados, contra 46.865 do primeiro semestre do ano anterior. A queda percentual é de apenas 19,71%, metade do impacto que sofreu o mercado de leves.

Em junho, não apenas as vendas de caminhões registraram crescimento importante em relação a maio, 85,05% (para 8.762 unidades): elas surpreendentemente ficaram 12,28% acima do registrado no mesmo período do ano passado.

Scania/Divulgação

Mas por que o mercado de caminhões não fracassou como o de automóveis durante a pandemia? Esse foi o questionamento feito por QUATRO RODAS às principais empresas do setor.

Os executivos de vendas de Volkswagen, Scania e Mercedes-Benz, afirmaram de forma unânime que um dos motivos para o mercado de caminhões não ter caído foi justamente a desvalorização do real frente ao dólar.

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Expliquemos: ao mesmo tempo em que pressiona preços de componentes e modelos importantes no mercado de leves, o dólar alto favorece setores ligados à exportação, como agronegócio (que teve safra recorde nos últimos meses) e extração de minérios.

“As exportações estão mais rentáveis”, analisa Ricardo Alouche, vice-presidente de vendas da VW Caminhões e Ônibus.

Segundo ele, foi isso que estimulou o investimento em novos caminhões para diversas frotas. “[O mercado de caminhões] não é baseado em pessoas, mas nas atividades econômicas. O caminhão é um bem de produção, não material”, compara.

Além disso, na visão de Alouche, contribuiu o fato de o transporte de cargas ter sido considerado um dos “serviços essenciais” durante o isolamento.

Fernando Pires/Quatro Rodas

Se um agronegócio pujante estimula a venda de caminhões grandes, Roberto Leoncini, vice-presidente de vendas de caminhões Mercedes-Benz, acrescenta outro fator.

Segundo ele, a “alta do transporte de recursos hospitalares e farmacêuticos e a forte demanda do comércio eletrônico de produtos (visto que muitas lojas físicas estão fechadas)” faz o mesmo com o segmento de caminhões pequenos, destinados a rodar em perímetro urbano.

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Scania/Divulgação

“O mercado representa a continuidade das operações de transporte”, analisa Alan Frizeiro, gerente de vendas de caminhões da Scania no Brasil.

Para ele, o cenário só não foi melhor por conta de nichos como, por exemplo, o de caminhões-cegonha, demandados em menor escala justamente por causa da forte queda na demanda por veículos leves.

QUATRO RODAS também conversou com empresários que decidiram investir na compra de novos caminhões em meio à crise do coronavírus, e confirmou as análises dos executivos.

Adelino Bissoni, representante da Botuverá Transporte, declarou que o que motivou a compra dos veículos por sua empresa, mesmo durante a pandemia, foi a valorização do dólar.

Sua empresa trabalha com transporte de grãos na região Centro-Oeste do Brasil, setor que é favorecido pela alta do câmbio e que tem operado em normalidade.

“A continuidade do trabalho, motiva a gente a investir”, diz.

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Os irmãos e sócios-diretores da Terra Master, empresa de transportes no setor portuário, Fernanda e Thiago Veneziani, concordam que a desvalorização do real favorece a área.

A empresa não sofreu com o isolamento social, porque a demanda por transportes para exportação está em alta. Um item em específico chama a atenção: álcool, usado na fabricação de álcool em gel.

“Para o pessoal dos grãos e do álcool, é uma oportunidade. Eles estão bombando e isso traz muito serviço para a gente”, afirma Thiago.

Entre clientes de caminhões menores, o investimento parece mais arriscada. Por exemplo, o proprietário das transportadoras ANS e Alê Tranportes, Alex Nogueira, percebeu uma queda de 50% na demanda por entregas de produtos para lojas físicas.

No entanto, resolveu investir na renovação da frota por causa do crescimento do e-commerce.

O mesmo ocorreu com Antônio Jorge da Silva, dono da Bonneville Vidros, que renovou sua frota mesmo tendo calculado uma queda de 40% no volume de seus negócios.

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Neste caso, segundo todos os analistas consultados, as empresas costumam respeitar seus calendários de troca de frota, caso estejam em situação financeira minimamente saudável.

Mais um fator para explicar por que o mercado de pesados segue estável mesmo diante de uma das mais (se não a mais) fortes crises que impactaram a indústria automotiva nacional.

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Fernando Pires/Quatro Rodas
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