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Não estragaram nada

Por Jeremy Clarkson 28 mar 2013, 14h42

O novo Range Rover não é apenas o melhor fora de estrada, mas um dos melhores carros do mundo

O aeroporto de Helsinque é enorme. Você anda por quilômetros e passa por centenas de lojas até chegar a uma fileira de guichês de inspeção de passaporte, que se estende por seis fusos horários. E então avisam que sua bagagem está chegando na esteira de bagagem número 36 – dando a entender que haveria 36 esteiras dessas. Faça-me o favor! Por que seriam necessárias tantas na Finlândia? Bem, eu fiz umas investigações e descobri que na verdade só existem seis. A numeração delas começa em 31. Uma vez que você descobre isso, mata-se a charada. E as pessoas? Simplesmente atores, empregados pelo governo para fazer com que o país pareça atarefado e laborioso.

Muitos países pequenos fazem isso. Eles sabem que seu aeroporto é a vitrine da nação e, por isso, fazem um tremendo esforço para
que seus seis visitantes anuais sin
tam que chegaram a um país pro
gressista. O problema é que, quando o visitante chega à fila do táxi e,
 com sorte, ainda não percebeu que
eles são todos carros cheios de 
manequins, ele acha que fez um 
triatlo Ironman e está exausto. Esse 
é um problema principalmente para aqueles que visitam Helsinque no inverno, porque, a não ser que você chegue entre 12h03 e 12h07, estará escuro como breu. E, se você conseguir chegar dentro desse horário, estará cinza-escuro.

Foi por isso que, quando saí do aeroporto de Helsinque, exausto, com meu estômago exigindo um bom almoço e meus olhos dizendo que era hora de uma caneca de chocolate, eu achei que estava entrando em um Range Rover normal. Só quando cheguei ao hotel e fui pegar minha bagagem no porta-malas notei que ali havia algo estranho. Eu tenho um Range Rover. Nós usamos uma frota deles para fazer os programas da Top Gear. Não há carro que eu conheça melhor. Eu sei onde fica a maçaneta de abertura do porta-malas. Mas no carro da Finlândia ela estava em um lugar diferente.

Eu sei que alguns fabricantes incluem pequenas diferenças em seus modelos em determinados mercados. Os carros vendidos na China, por exemplo, têm um entre-eixos maior porque os proprietários lá gostam de ter mais espaço no banco de trás. Eu também sei que americanos e franceses insistem em que o volante seja montado do lado esquerdo.

Mas mudar um carro desse jeito é caro. E eu não podia imaginar por que motivo a Land Rover concordaria em mudar de lugar a maçaneta de abertura do porta-malas exclusivamente para os finlandeses. Então, fiz algum trabalho jornalístico e descobri, em não mais de 15 minutos, que tinha ido do aeroporto ao centro de Helsinque no novo Range Rover. Um dos carros mais aguardados dos últimos tempos. E assim, ao raiar do dia seguinte, saí correndo do café da manhã para dar uma olhada melhor.

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O Range Rover tem de manter um equilíbrio delicado. Sim, a maioria é vendida nas grandes cidades, mas só porque o pessoal fica alimentando o sonho de ter uma casa no campo. E eles precisam saber que muitos lordes têm um. Assim, antes de tudo, o Range Rover precisa agradar a esse público. Os exemplares mais recentes do modelo antigo estavam ficando muito cafonas. A Land Rover ouvia as pessoas que estavam comprando seus carros – jogadores de futebol e traficantes – e perdendo de vista o porquê. Alguns lordes, por exemplo, não gostam de grade cromada. Ou estofamento com pregas.

Eu tinha medo de que a empresa perdesse a cabeça e desistisse por completo da vocação para o campo. Mas não aconteceu. A breguice foi contida. Minha única reclamação: no último modelo, as guelras extratoras de calor ficavam nos para-lamas dianteiros e, por isso, pareciam ter alguma finalidade. Já no novo, elas foram movidas para as portas, onde parecem simplesmente idiotas, já que são evidentemente falsas. Do lado de dentro, por sua vez, nada a reclamar. O carro que dirigi era um quatro lugares puro, com uma caixa de agradinhos tecnológicos separando os assentos traseiros. É legalzinho, mas você não compraria tal opcional no mundo real – a não ser que seja louco. Na frente, fiquei impressionado como tudo passa uma sensação semelhante à do modelo anterior. Você tem o mesmo porta-luvas com abertura bipartida, os mesmos controles. Tudo que a empresa realmente fez foi redesenhar os botões e instalar uma alavanca de câmbio de Jaguar. E agradeça a Deus por isso.

Mas há algumas novidades. O sistema de som é simplesmente o melhor que eu jamais encontrei. Os assentos são sublimes. E agora você pode escolher de que cor deseja a iluminação do interior. E não estou falando de azul ou vermelho. Estou falando de metade de um catálogo de cores da Suvinil. A que eu gostei mais foi o azul puxando para púrpura. Tirando isso, no entanto, ele tem o visual e a sensação que um Range Rover deve ter. Até que uma hora a maçaneta da porta caiu, causando o temor de que um Range Rover pudesse ter a mesma qualidade de fabricação. Para ter certeza, abri e fechei a porta 20 vezes. No último modelo, isso teria arriado a bateria, porque, cada vez que o carro era destravado, o computador pensava: “Oh, nós vamos a algum lugar. Eu vou ligar”. Então, quando a porta fechava, ele desligava. Mas a Land Rover obviamente corrigiu o problema, porque dessa vez a bateria ficou em ordem.

Na estrada? Bem, aí achei uma coisa realmente legal. O novo carro pode ser maior que o antigo, mas algumas versões são, espantosamente, quase meia tonelada mais leves. Eu até estava com medo de que isso fizesse com que ele passasse uma sensação de ser menos substancial, mais tipo carro japonês… No entanto ele não passa isso. Agora temos melhor aceleração e consumo de combustível bem menor. E ele parece tão sólido, aristocrático e confortável quanto antes. Fora da estrada? Não tive a chance de descobrir, mas todos os recursos que havia no modelo anterior continuam a equipar o novo. Por isso, deve ser mais ou menos igual.

Há três motores: o V8 5.0 superalimentado, que é ótimo se você não tiver a cabeça 100% no lugar, e também um V6 3.0 diesel, que oferece um extraordinário consumo para um carro desse tamanho. Entre os dois, também há um V8 4.4 a diesel. Essa seria minha escolha. Será minha escolha, na verdade…

Minha principal emoção após dirigir este carro foi basicamente a mesma que senti durante a cerimônia de abertura da Olimpíada. Alívio, por eles não terem estragado nada. Então, à medida que o tempo passou, comecei a perceber que se trata de mais do que simplesmente não estragar. Ele é, na verdade, brilhante. Sim, caro, mas vale a pena.

A Land Rover gastou 1 bilhão de libras (3,3 bilhões de reais) projetando o novo chassi leve. E então eles o vestiram com uma interpretação atualizada do que tornou o modelo anterior um sucesso tão grande, não apenas entre as pessoas que usam short de nylon no trabalho, mas também entre aquelas que usam short de tweed para praticar esportes. É um carro fantástico. Não apenas o melhor fora de estrada do mundo, mas um dos melhores carros. E ponto.

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