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Jeremy Clarkson: Volkswagen Arteon, obrigado por nada

O VW Arteon atende a uma demanda que não existe. Por que alguém desejaria um bonito cupê de quatro portas enorme na parte de trás e ordinário sob o capô?

Por Jeremy Clarkson - Atualizado em 4 abr 2018, 11h26 - Publicado em 2 abr 2018, 18h34
Você escolheria um Mercedes CLS ou Audi A5 que tem o logotipo da Volks? Divulgação/Volkswagen

Elon Musk diz que mandou seu Tesla Roadster para a órbita de Marte para que algum dia seja encontrado por alienígenas.

Ele poderia ter aproveitado e ter colocado no foguete outras coisas que parecem não ter uma finalidade óbvia, como o novo Volkswagen Arteon.

É um desses carros que aparece de repente no mercado, como um franco-atirador das forças especiais. Normalmente sabemos em que cada empresa está trabalhando e aproximadamente quando o produto final chegará ao mercado, mas no caso do Arteon não parecia haver nada, e então com um zumbido e um som de explosão distante, uma noite eu saio do escritório e lá está ele.

Ele não é um substituto para o cupê Passat de quatro portas, que eu achava que tinha sido tirado de linha porque a Volkswagen teve uma crise de bom senso e pensou: “Espera aí. O que estava na nossa cabeça? Ninguém vai querer uma versão elegante de um carro que fabricamos para vendedores de cimento. É como fazer Crocs com pompom. Não faz sentido”.

Ele também não é um substituto para o Phaeton, um carro feito de sobras. A VW gastou uma fortuna para desenvolver na época o novo Bentley Continental GT e pensou: “Por que não usar esse motor grande e a tração 4×4 em um carro com a nossa marca?”

Traseira tem spoiler e lanternas horizontais com leds Divulgação/Volkswagen

O Phaeton era brilhante, só que os capitães da indústria não gostam de esconder seu esplendor sob roupas reformadas. Não queriam um carro brilhante, a não ser que também parecesse brilhante e tivesse um emblema brilhante.

Portanto, o Arteon é um carro que não substitui nada. E olha que ele é bonito. Em geral não gasto muito tempo andando ao redor de um novo carro que chega para testes. Eu apenas dirijo.

Mas no caso do Arteon, meus sapatos guincharam como se fossem de desenho animado, quando parei abruptamente. Ele literalmente faz você parar.

Não só por causa da grade larga, que o faz parecer mais baixo e grudado ao solo do que é, ou das portas sem molduras ou da chamativa pintura mostarda. Não. É a maneira como todas essas coisas se juntam por trás de um grande emblema da VW.

Ele não é um Crocs com pompom. É um Crocs feito com o mais macio couro sueco e incrustado com diamantes e pérolas. E tem mais. Ele é enorme.

Mesmo com tanto luxo lá dentro, o banco do Arteon tem regulagem por alavanca Divulgação/Volkswagen

Guardei minha pasta no porta-malas e foi como colocar um ratinho no edifício de montagem de foguetes da Nasa. E isso se repete na cabine.

Desde que você consiga acomodar sua cabeça sob o teto elegante (e baixo), o espaço no banco de trás é generoso como o de um Mercedes Classe S. Você consegue se esticar lá atrás.

E não quero ser racista aqui, mas há uma razão curiosa para isso: os chineses. Hoje em dia a China é um mercado importante para todos os fabricantes de veículos, mas no caso da VW ela representa uma grande fatia de suas vendas.

Isso significa que todo engenheiro, quando desenha um novo carro, fica se perguntando: “O que os chineses vão pensar?” E é por isso que o Arteon tem um espaço tão generoso na parte de trás.

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Porque, estranhamente, em um país em que o homem tem em média cerca de 1,67 metro de altura e a mulher pouco mais de 1,50 metro, esse é o aspecto que mais pesa na hora da compra.

Dianteira tem harmonia entre os filetes da grade e os faróis Divulgação/Volkswagen

Eles não se preocupam com consumo de combustível, velocidade ou dirigibilidade: só com o espaço no banco de trás.

E isso é uma ótima notícia, já que quanto maior for a parte de trás de um carro, mais felizes serão nossas crianças, cada vez mais robustas. O que significa menos briga sobre quem vai sentar no meio e um ambiente muito mais agradável.

Então, esse é o Arteon: muito bonito e espaçoso. E belamente construído e totalmente lógico de usar. Mas primeiro eu tenho de colocar meu assento no lugar certo e, espere um pouco… o que é isto aqui? Uma alavanca? Como a que encontraria numa ferrovia da era vitoriana? Como um carro como esse não tem botões e motores elétricos nos bancos?

E, quando ligar o motor, não importa o quanto o seu modelo tenha custado, você ouvirá o barulho comum de um motor de quatro cilindros (2.0 de 285 cv). Não há V6 e nenhum W12, como no velho Phaeton.

É claro que há versões a diesel, mas ninguém vai comprá-las, porque esse combustível é o atual vilão das emissões de poluentes.

Por isso eu testei um carro a gasolina, que também tinha tração nas quatro rodas e acabamento R-Line. O que significa rodas grandes e uma pose esportiva. Tudo muito confuso.

Normalmente, quando testo um carro, eu sei que tipo de pessoa estaria interessada nele e analiso-o com isso em mente. Não faz sentido dizer que o porta-malas de um Lamborghini Huracán não é grande o suficiente para você usá-lo se tiver um negócio de reforma de residências, nem criticar um Fiat Punto por ele não chegar a 320 km/h.

Mas eu não consegui pensar em ninguém que eu conhecesse – ou não – que desejaria um cupê de quatro portas bonito, enorme na parte de trás e ordinário sob o capô.

Espaço no banco traseiro foi ampliado
Espaço no banco traseiro enorme foi feito pensando nos chineses Divulgação/Volkswagen

Alguém que queira a economia de um motor de quatro cilindros e tração nas quatro rodas para ir ao supermercado, com um emblema da VW e um preço de 40.000 libras (R$ 182.000). Este carro é como um mocassim de luxo e uma galocha juntos na mesma caixa.

E, antes de fechar o negócio, você tem de pensar: “Não, não quero um Mercedes CLS, BMW Série 4 ou Audi A5 Sportback. Eu quero esse tipo de coisa, mas com um emblema da VW na frente e um porta-malas do tamanho de uma caverna”.

É um carro agradável. Ele faz tudo de forma muito competente e a suspensão também agrada. Além disso, quando aperta um botão ou ajusta o assento, você tem a sensação de que o botão e a alavanca continuarão a funcionar por muitos e muitos anos, o que significa, como meu avô costumava falar sobre seus ternos, que é um carro que “vai durar mais do que eu”.

Mas eu não compraria um. E nem você, porque ele satisfaz uma demanda que não existe. Ele é, como disse no início do texto, o equivalente ao Lotus elétrico do Elon Musk.

Ele pode ser lançado ao espaço, para que dentro de 1 milhão de anos um alienígena possa se entreter por algumas horas tentando entendê-lo. Eu espero que eles tenham mais sucesso do que eu.

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