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A fantasia de um nerd

Por Jeremy Clarkson 22 jun 2012, 13h16

Se você imagina que o novo 911 foi poupado das complicações dos carros atuais, então fique sonhando

Nos anos 60 e 70, máquinas que economizavam mão de obra e tempo estavam na moda. A Ronco Buttoneer, por exemplo, transformava a tarefa de pregar um botão em algo rápido e fácil. O que era bom, já que o botão recém-pregado por ela soltava-se novamente em questão de momentos. A lavadora de roupa com tampa na parte superior tinha substituído a de abertura frontal e surgiu o controle remoto para a TV, o que significava que não precisávamos mais ficar assistindo ao noticiário inteiro só porque não queríamos tirar o traseiro da poltrona. A vida era boa.

Mas, em algum ponto nos últimos anos, alguém resolveu trazer a complicação de volta. Agora, em vez de adicionarmos água fervendo a uma colherada de café instantâneo, temos máquinas que exigem constante atenção. Toda santa manhã a minha pede mais água ou mais café. Ela exige que eu esvazie suas bandejas, limpe seus canos e descalcifique suas entranhas. Fazer uma simples xícara de café tornou-se uma atividade de 30 minutos.

Foram-se os dias em que
 você só colocava uma fita VHS
 no video cassete e assistia ao 
filme. Agora, com o Blu-Ray, o aparelho leva 10 minutos para aquecer e você tem de ficar sentado horas e horas vendo avisos de isenção de responsabilidade, ameaças contra a pirataria e trailers. Minha lava-louças é mais complexa que a Apollo 11, e a centrífuga tem um manual de 200 páginas.

Naturalmente, os carros atuais também são muito complicados. A chave de ignição do seu carro moderno provavelmente é mais complexa do que um Austin A35 inteiro. O que significa, é claro, que volta e meia ela não funciona. Eu perdi a conta do número de vezes que estive em um carro piscando uma mensagem que dizia “chave não detectada”, enquanto ficava lá sentado, balançando a danada.

Hoje o BMW M5 vai de 0 a 100 km/h em 13 minutos… porque você passa 12min55s7 explicando ao computador de bordo que tipo de ajuste você quer no câmbio, chassi e motor, e só então gasta 4,3 segundos para acelerar de 0 a 100.

Você poderia imaginar que o novo 911 tinha sido poupado de todo esse absurdo. Afinal, os 911 deveriam ser esportivos puros, limpos. E não existe espaço para complexidade nessas coisas. Bom, fique sonhando, porque o novo 911 é a fantasia de um nerd. Cada componente pode ser ajustado e agora há dois novos mostradores no painel informando em que marcha você está. O que parece um tanto estranho em um carro com câmbio manual. Eu sei que estou em terceira – acabei de mover a alavanca.

A questão é que, sendo um Porsche, é tudo muito instintivo e sensato. Como não há botões no volante, espantosamente você não precisa entrar em sub-menus ou ficar mantendo botões pressionados por 2 segundos para fazer as coisas acontecerem. Eu tenho de admitir: achei brilhante.

O grande debate sobre o novo carro está na direção elétrica. Devido às normas europeias sobre emissões, os fabricantes estão sob pressão para introduzir sistemas que usem menos energia, sejam eles melhores ou não. Assim, a direção hidráulica convencional tem sido deixada de lado. Da mesma forma que Neil Young continua reclamando sobre o quanto o som digital é horrível em relação ao do disco de vinil, vários puristas do 911 dizem que a sensação clássica do modelo se perdeu. E eu concordaria com isso. Mas, como não sou um purista do 911, tenho de dizer que gosto mais do sistema novo. É claro que você está tendo uma sensação artificial de como os pneus estão interagindo com o asfalto e, sim, em uma pista você pode perceber isso. Para dirigir no dia a dia, no entanto, o sistema elétrico é ótimo.

As normas de emissões também tiveram outros efeitos. O motor agora desliga nos semáforos e a Porsche precisou instalar um câmbio de sete marchas. Em teoria, tudo bem.Você roda pela rodovia com suavidade, consumindo gasolina como um padre beberica um licor. Mas, quando você está a 100 km/h em sétima marcha, não consegue as reações rápidas e a efervescência que seria de esperar de um esportivo desse tipo. Ele passa uma sensação um pouquinho chocha. É claro que, quando você sai da rodovia e percebe que está atrasado, ele não é nada chocho. É simplesmente delicioso. Posto isso, eu optaria pela versão S, com motor maior. A versão que dirigi, embora adorável, às vezes não parecia ser tão rápida quanto eu esperava.

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Bom, nos artigos anteriores que escrevi sobre o 911, este seria o ponto em que eu diria que, embora o carro seja muito divertido, este Porsche de motor traseiro não é para mim. Mas ele é diferente. Ao longo dos anos, o motor foi rastejando mais para a frente, de forma que ele não fica mais pendurado atrás do eixo traseiro, esperando para se tornar um pêndulo gigante. E hoje ele é refrigerado a água, o que significa que o barulho de Fusca se foi.

Dentro, os botões simplórios que pareciam balinhas meio lambidas foram substituídos por bons itens, de alta qualidade. A posição de dirigir é melhor, os assentos são maravilhosos e, embora ele esteja maior do que nunca, ainda é pequeno quando comparado aos concorrentes.

Pontos negativos? A meu ver, dois. O porta-malas está na frente, o que significa que você vai sujar os dedos sempre que for abri-lo. E o Porsche nunca perdeu de verdade aquela imagem de carro de menino rico que ganhou nos anos 80. O que significa que você nunca, jamais, deixará de ser notado. Está bem… dois e meio. O motor não é forte o suficiente. Mas escolha a versão S e isso está resolvido.

Estou certo de que no modelo novo há muitas coisas que desapontarão o fã obstinado do 911. Mas há muitas outras para encantar aqueles de nós que nunca gostaram tanto do 911. Eu até pensaria em comprar um. É um carro fabuloso. Realmente fabuloso. E, colocando tudo na balança, tem boa relação entre custo e benefício.

P.S.: Depois que terminei este artigo, percebi que o Porsche é inútil. Domingo passado o pneu furou. Não há estepe. E loja nenhuma tinha alguma coisa que eu pudesse instalar nele. Recentemente, um amigo meu teve um pneu do seu 911 furado e a Porsche levou duas semanas para encontrar um novo. A não ser que o fabricante resolva isso, simplesmente não faz sentido comprar seus carros. Porque um dia você precisará, digamos, levar sua mãe ao hospital, mas terá que telefonar a ela e dizer que não pode.

 

 

 

 

 

 

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