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“Preferia ter herpes”

Por Jeremy Clarkson - 9 mar 2012, 00h13

O Lamborghini Aventador é um monstro feroz no qual, quando se acelera, você não pilota mais, apenas dá um jeito de não cair da sela

Como regra geral, todas as cidades dos EUA são exatamente iguais. Todas têm um lugar da moda no centro, rodeado por grandes lojas vendendo comida sem gosto em grandes quantidades. Os hotéis também são todos iguais. É por isso que Miami para mim sempre é uma surpresa agradável. Ela é diferente. A faixa conhecida como Miami Beach conta com centenas de hotéis e prédios residenciais em estilo art déco, algo que você não encontra em nenhum outro lugar.

No resto do mundo, o fim da década de 50 foi cheio de fumaça, feiura e miséria, mas na América foi uma época de esperança, aventura e bravos jovens bebendo e dirigindo, indo a festas regadas a álcool e conversas embaladas pelo sonho de ir ao espaço. E você ainda consegue sentir esse clima em Miami Beach hoje. Eu gosto daqui. Infelizmente, há um problema. Você não pode aparecer com seu cabelo desgrenhado, peitorais flácidos e barriga de cerveja porque vai parecer ridículo. Em Miami, você precisa fazer um esforço.

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Por isso, ter uma lancha não é suficiente. Você precisa ter um barco com três motorzões na popa e um tigre enorme pintado na lateral. Da mesma forma, não basta ter uma moto. Ela tem de ser tão customizada quanto o corpo de sua namorada e deve ter um garfo de 3 metros, banco coberto de pele de baleia e escapamentos que não fazem absolutamente nada para silenciar o som do motor V8 de 7 litros, ao redor do qual você não conseguirá acomodar suas pernas.

Eu fui jantar em um restaurante chamado Prime One Twelve. Como é considerado o lugar mais na moda, entrar não foi fácil. “O senhor tem reserva?”, perguntou a garota na recepção. Após saber que eu não tinha, ela me olhou de alto a baixo, viu que sou gordo e que meus dentes têm a cor de um teto de madeira e decidiu que, ao contrário de todas as evidências, o local estava cheio. É claro que não estava, mas alguns minutos depois o garçom me passava o cardápio, que era baseado na quantidade servida no prato. Meu acompanhamento de espinafre foi servido em uma banheira. E a carne? Santa Mãe de Deus! Era como se tudo tivesse sido produzido em um daqueles vales perdidos de um filme B de Hollywood, onde as formigas têm o tamanho de homens e melões são maiores que aviões.

No entanto, eu não prestei atenção no brontossauro morto no meu prato porque eu estava totalmente fascinado pelo espetáculo que se desenrolava do lado de fora. O Prime One Twelve atrai a nata dos exibidos. Os carros que chegavam eram loucos. Camaros conversíveis com suspensões extremamente elevadas e rodas com calotas giratórias. Bentleys com rodas de 24 polegadas. Um sujeito chegou em algo que parecia um inseto de neon. Outro em um Rolls-Royce rebaixado. Eu só posso começar a imaginar como esses carros devem ser terríveis de dirigir – isso sempre acontece quando você coloca rodas que poderiam servir de estepe de caminhão –, mas isso não importa. Em Miami, carros não são para dirigir. Eles são para chegar.

Eu juro que não estou inventando o que vem a seguir. Casais surgiam no saguão do prédio  residencial que fica do outro lado da rua do restaurante. Eles, então, aguardavam de 5 a 10 minutos para que o manobrista trouxesse seu carro da garagem subterrânea. E dirigiam 50 metros até o manobrista do restaurante. No fim, quem se importa se a suspensão foi detonada? Quem se importa que você precise de uma escada para descer do Camaro? E quem se importa que o escapamento modificado do seu Porsche possa deixá-lo surdo depois de rodar 10 km? Você nunca vai andar tanto assim.

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No resto do mundo, as pessoas compram carros pelas mais variadas razões. Economia de combustível. Velocidade. Espaço interno. Conforto. Já em Miami as pessoas compram (ou alugam) carros para se exibir; para demonstrar que lá na Filadélfia sua fábrica de argolas para cortinas de banheiro está indo muito bem.

O novo Lamborghini Aventador combinaria bem com o resto. Mesmo antes de você equipá-lo com rodas ridículas e uma pintura customizada, as pessoas certamente perceberiam as 250 000 libras investidas (700 000 reais). Ele é 5 cm mais largo que um Range Rover; aproximadamente a mesma largura de um ônibus de Londres. E usa um V12 de 6,5 litros. Tenho minhas dúvidas sobre se voltaremos a ver a produção de outros motores como esse. Hoje, graças às normas de emissões de poluentes europeias, turbocompressores são a única resposta realista.

É uma pena, porque a presença do empuxo é inebriante. A aceleração é tão intensa quanto a vista do mar de Miami (0 a 100 km/h em 2,9 segundos), e a velocidade máxima é de 350 km/h, ou cerca de 340 km/h acima do que ele jamais andaria por aqui.

E fora desse ambiente? Por exemplo, no mundo civilizado de dinheiro antigo e bom gosto?

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A Lamborghini faz questão de destacar que o motor é o primeiro V12 totalmente novo desde aquele do Miura, que o sistema de tração nas quatro rodas é o mais avançado que a tecnologia pode oferecer, que possui freios de cerâmica de carbono e que sua suspensão tipo push-rod é inspirada diretamente nas usadas na Fórmula 1.

No caso do último item, a única vantagem seria reduzir a massa não suspensa. Mas não sei o quanto isso faz diferença em um carro que pesa quase tanto quanto um vagão de trem. Eu suspeito de que a única razão real de equipá-lo com tal sistema é para que seu feliz proprietário sinta que, atrás da vastidão e por baixo do estilo extravagante, brilhante e exibicionista, existe alguma credencial estilo Ferrari.

Sinceramente? Não existe. É um carro bruto. Você não o dirige. Você luta contra ele. Ele é mais refinado que os Lambo antigos e menos inclinado a querer matá-lo. Mas, quando pisa mesmo no acelerador, você não está mais pilotando. Você está dando um jeito de não cair da sela.

Eu o pilotei pela Itália e, embora seja silencioso e surpreendentemente confortável, e mesmo tendo controles e sistema de navegação por satélite da Audi, você nunca pode se esquecer de que se trata de um monstro feroz. E foi isso que eu adorei.

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Adorei a velocidade. Adorei o visual – é provavelmente o carro mais bonito já feito – e adorei a absoluta estupidez e tolice de seu painel, seu bico e sua traseira insana.

Eu não gostaria de ter um. Preferia ter herpes. Dito isso, eu realmente quero viver em um mundo onde possa sentar na parte de fora de um restaurante de Miami e ver uma pobre garota tentar sair do banco do passageiro sem acabar mostrando sua calcinha.

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