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Nas curvas da estrada de Santos

Conheça os bastidores do centro de operações do sistema de gerenciamento de uma rodovia

Por Simone Tobias

Como funciona o centro de operações de uma rodovia

“Hoje está muito tumultuado.” A frase do supervisor de tráfego Raul Boff, dita entre um atendimento e outro de telefone, refletia o clima de tensão na sala do Centro de Controle Operacional (CCO) da Ecovias – concessionária que opera o Sistema Anchieta-Imigrantes – no retorno do fim de semana prolongado, dia 12 de outubro, feriado da padroeira. Minutos depois, a situação piorou. Às 17h10, um dos 16 monitores do centro nervoso que administra o tráfego exibia a cena de uma pista obstruída no sentido norte da Cônego Domênico Rangoni (nome oficial da estrada conhecida como Piaçaguera-Guarujá). A movimentação para apurar a razão do congestionamento eleva ainda mais a eletricidade do pessoal da sala de controle. Em menos de 2 minutos chega por rádio a informação: um condutor de moto caiu na estrada e foi atropelado por um motorista em alta velocidade que não parou para prestar socorro. O motociclista morreu no local. Se em 20 minutos o tráfego foi restaurado, o mesmo não ocorreu com o clima da sala de 120 metros quadrados que funciona 24 horas por dia.

O centro conta com 135 câmeras distribuídas nos 177 km do sistema Anchieta-Imigrantes. Por meio delas, dispostas tanto a céu aberto como nos túneis, podia-se ver um tráfego intenso na Cônego Domênico Rangoni, chateação para os motoristas que vinham de Guarujá e cidades do Litoral Norte e veículos parados no acostamento.

Tamanha quantidade de informação não é fácil de ser processada apenas visualmente pelos operadores. Para auxiliá-los, há um programa inteligente que analisa as cenas e detecta alterações no fluxo de veículos. Se a imagem mostrar algo anormal, o software emite um alerta. Mas há outras fontes de informação: profissionais que atendem às oito linhas de 0800, equipe de manutenção de viaturas que prestam socorro na pista, três policiais rodoviários, área de tecnologia, operadores das áreas técnica e elétrica, monitoramento das sete praças de pedágio e balança de caminhões e, claro, o chefe da equipe, que coordena os trabalhos.

QUATRO RODAS acompanhou duas operações: na noite de sexta-feira, dia 4 de setembro, descida dos motoristas que se dirigiam às cidades do litoral, e no dia 12, noite de segunda-feira, retorno dos carros. Nas duas ocasiões, o supervisor de tráfego era Boff. “Temos que agir muito rápido, alguns minutos podem salvar vidas, não só de pessoas envolvidas em possíveis acidentes mas também dos demais usuários.”

Na operação do feriado da padroeira, que teve início na sexta-feira dia 10 e terminou à meia-noite da segunda-feira, o movimento foi de 299000 veículos e 137 acidentes, 38 envolvendo motos, 95 veículos de passeio e 20 caminhões. Do total, 49 tiveram feridos, além da morte do motociclista. Foram 1701 socorros mecânicos, 158 atendimentos médicos e 1810 assistências com uso de guinchos.

A Ecovias conta com parceria da Porto Seguro, que emprestou 30 guinchos para a operação no último feriado, mas um número insuficiente, como pudemos confirmar no banco de carona de um Dobló, viatura do encarregado de tráfego da Ecovias Hélio Ornelas. Ele tem 39 anos, sendo 12 trabalhando no campo, sentindo na pele a temperatura da estrada.

Nossos percursos foram de curta distância. Encontramos diversos carros parados, precisando de socorro mecânico. Outros já tinham passado por atendimento, mas aguardavam o guincho. “Moço, já estou aqui faz cinco horas, sozinho. Pede para alguém me resgatar aqui”, disse um motoboy com a moto quebrada. “O problema é falta de manutenção dos veículos e imprudência dos motoristas”, diz Hélio, que, para atuar junto ao usuário, fez cursos de direção defensiva, primeiros socorros e básico de mecânica. “Trabalhar na estrada me fez valorizar a vida.”

Sorria, você está sendo filmado

Nem todas as ocorrências têm origem em acidentes ou defeitos mecânicos. “Há quem estacione o carro no acostamento e comece a namorar lá dentro. Eles pensam que ninguém está vendo, mas é perigoso porque estão se expondo ao risco de um acidente ou assalto”, diz o coordenador de planejamento Fábio Ortega, que trabalha na Ecovias desde 2002.

No dia 4 de setembro, acompanhamos a viatura de inspeção do operador de tráfego Fernando Jaques, de 30 anos. Ao volante de uma Saveiro, ele percorre a via pelo acostamento e leva componentes mecânicos que podem ser utilizados na solução de uma pane. Apesar do frio de 15 ºC do fim daquela noite, ele transpirava. Das 21h49 às 22h34, realizou dois socorros. O primeiro, um carro quebrado que o esperava havia 15 minutos. A família vinha de São Paulo, do Ipiranga, e estava a caminho de Itanhaém, mas o passeio terminou antes. “É problema na bateria, melhor chamar o guincho”, disse ele.

Enquanto explicava seu trabalho, avistou outro carro parado. O pneu furou e, na hora de manobrar, o motorista prendeu a parte inferior do Gol. Utilizando um macaco, depois de 30 minutos Fernando conseguiu tirá-lo de lá. “Agora vamos dar um mergulho no mar”, disse o usuário da pista. “E eu vou para casa”, disse Fernando. Ele aciona o rádio e informa ao CCO o atendimento que prestou aos veículos. No caminho de volta para a base da Ecovias, explica que nem sempre encontra casos simples. “Teve um dia que eu quis parar de trabalhar na estrada. Um motociclista furou o comboio. Como é proibido, houve uma perseguição. O condutor da moto se apavorou e continuou correndo, mas a visibilidade era muito ruim. Ele saiu da pista, bateu a cabeça em um hidrante, caiu da moto e morreu na hora”, disse o operador de tráfego.

Tunelfobia

Em um dia considerado tranquilo pela equipe do CCO, o 0800-197878 recebe 3000 chamados. “É verdade que o acesso para Guarujá está fechado?” “Não, senhora. A alça está liberada”, diz o atendente. “Meu marido está atrasado e disse que não chegou em casa, ainda, por esse motivo.” Telefonemas tragicômicos não chegam a ser incomuns. Há chamados de pessoas nervosas no tráfego e até com fobia de túnel, e também quem pare o carro na pista e se torna um potencial causador de acidentes.

Eduardo di Gregório, que atua há 18 anos na área de trânsito e é gerente de atendimento da concessionária, explica que alguns minutos fazem a diferença quando a questão é uma obstrução de pista. A lentidão pode ter como origem desde uma simples pane seca (falta de combustível) até acidentes com vítimas fatais. “Outro dia uma senhora com fobia de túnel parou o carro na faixa central e não conseguia dirigir. Como não podemos guiar o automóvel de nenhum usuário, chamamos o guincho e a levamos até Santos.” A segunda pista da Imigrantes tem três túneis longos, com um total de 8230 metros.

Em 2008, a Ecovias contabilizou a redução de 37% no número de mortes em comparação a 2007. A quantidade de vítimas fatais caiu de 156 para 98. Um progresso, sem dúvida, mas a cifra mostra que há ainda um bom caminho a ser percorrido, tanto por motoristas como por administradores.

DEMORA?

Há quem tenha pânico só de se imaginar parado na estrada durante um congestionamento. Desde o último dia 4 de setembro, a Ecovias informa o tempo estimado de viagem para Santos, Guarujá, Praia Grande e São Vicente, 24 horas, em dez painéis de mensagem variável instalados nas rodovias do Sistema Anchieta- Imigrantes. A medição é feita com base numa amostra de vários carros que passaram pela rodovia e, a partir dela, o cálculo é repassado aos painéis.

APOIO

  • 11 guinchos da Ecovias (no feriado de Ano Novo, onde há maior movimento de veículos, a concessionária conta com mais 70 guinchos), 6 ambulâncias (uma UTI) e 9 motos para atendimento
  • 550 profissionais cuidam das operações, tanto na área restrita como nas praças de pedágio e no Centro de Controle Operacional (CCO), em três turnos
  • 7 a 11 minutos é o tempo médio que uma ambulância ou guincho leva para chegar ao local do acidente

POR SEMANA

  • 22 000 ligações atendidas no 0800-197878
  • 450 000 veículos trafegam pelo sistema
  • 220 atendimentos médicos
  • 820 socorros mecânicos