Arca dos tesouros
Acervos surpreendentes guardam metais preciosos e brilhantes sobre rodas
Por Isadora Carvalho | fotos: Alexandre Severo | 08/01/2013
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Diferente de outros países, o Brasil não é pródigo em museus oficiais. Comuns na Europa e nos Estados Unidos, acervos organizados e mantidos pelas marcas são instituições reconhecidas e fazem parte do circuito turístico das localidades que os abrigam. No entanto, nosso patrimônio histórico sobre rodas é considerável. Basta ver a quantidade de encontros de antigos espalhados pelo país, que ocupam praticamente todos os fins de semana ao longo do ano. Mas existem também algumas reservas especialíssimas que ficam longe dos olhos do público.

É o caso das duas que ilustram esta reportagem. Paulo “Louco” Figueiredo, como é conhecido no meio, fala como curador de uma coleção que conta hoje com 318 automóveis e 270 motos – e continua crescendo. O acervo é reconhecido na comunidade antigomobilista pela qualidade das restaurações e pela variedade de versões de marcas como Ferrari, Rolls-Royce, Lamborghini, Corvette, Porsche e Cadillac. “A coleção também tem foco no automo- bilismo e o acervo inclui a coleção completa de carros campeões da Stock Car de 1975 a 2000. São 26 unidades”, afirma Figueiredo. Entre os bólidos está o Fórmula 2 Brabham BT38 1971 utilizado por Wilson Fittipaldi, o Chevrolet Carretera 1934 que ganhou as Mil Milhas de 1965 usando motor de Corvette e um veteraníssimo Dodge 1925.

Segundo o curador, o critério para aquisição de cada carro é sua relevância histórica. Entre os destaques do acervo estão o Hispano-Suiza H6 1916, com apenas quatro modelos no mundo, o Cadillac Limousine 1954, modelo utilizado pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek, o Mercedes TE 1988 que foi de uso pessoal de Ayrton Senna, e o Opel Olímpia 1936 Cabriolet, que veio para o Brasil como presente para GetúlioVargas. Segundo Paulo Louco, ele foi trazido a bordo do dirigível Zeppelin de Berlim, na Alemanha, para o Rio de Janeiro.

Engana-se quem acha que esse conjunto foi amealhado ao longo de décadas. A reunião dos modelos levou apenas quatro anos. “Tivemos acesso a carros de família. As pessoas sabiam da nossa intenção de preservar a história e davam preferência a vender para nós”, afirma Figueiredo.

Para felicidade geral da nação, o objetivo não é deixar o tesouro escondido. Inicialmente, a ideia era construir um prédio dentro do autódromo de Interlagos que abrigasse a coleção, mas o projeto não saiu do papel. “Agora o plano ganha vida em São Roque, com o apoio da prefeitura”, diz Figueiredo, que adianta que o projeto prevê um autódromo junto a um museu de automóveis antigos. O projeto prevê uma construção de 12000 metros quadrados, com espaço destinado aos colecionadores que quiserem expor sua coleção por período determinado. As obras, que devem durar dois anos, estavam marcadas para começar em janeiro.

Já não deve ter o mesmo destino outra coleção não menos surpreendente, obra de um empresário que prefere não se identificar e que guarda seu tesouro no interior de São Paulo. “Decidi mostrar minha coleção apenas a amigos, familiares e antigomobilistas”, afirma o colecionador. São 154 carros divididos em quatro espaços, devidamente organi- zados entre europeus, americanos, nacionais e raridades. “Há ainda um quinto espaço dedicado aos carros de competição”, diz.

As instalações lembram um verdadeiro museu, com direito a placas de identificação, histórico e ficha técnica completa. A preferência por esportivos é evidenciada pela presença deles nos quatro ambientes. Entre seus preferidos estão Jaguar XKE 1974, MG TC 1946, Corvette 1954, Impalaconversível 1959, Chrysler 300G 1961 e Lamborghini Miura 1967. O Willys Interlagos 1966 se destaca entre os nacionais. No “território europeu” brilham estrelas como Porsche 356 S90 1959, Ferrari Dino 1974 e Mercedes 300 SL “Asa de Gaivota” 1955, objeto de desejo de dez entre dez colecionarores.

A paixão do colecionador começou na infância, com os carros americanos de seu pai. No entanto, o primeiro antigo que ele teve em 1965 foi um alemão, um Mercedes-Benz SSK 1932, modelo concebido por Ferdinand Porsche. Foi o único clássico a ser vendido, motivo de arrependimento mais tarde. Em 1999, a coleção tinha cerca de 20 carros. A partir daí, eles se multiplicaram e nenhum deles voltou a ser posto à venda.

A ideia é que o acervo tenha pelo menos um exemplar de cada brasileiro esportivo. Nessa direção, o GT 4R de cor cobre, um dos três encomendados pela revista QUATRO RODAS à Puma em 1969 para serem sorteados entre os leitores, foi incorporado ao acervo.

Pavilhão nacional


Na comissão de frente do setor brasileiro repousa parte importante da história. Lá está o Gol L 1980 da primeira safra e ainda praticamente zero-quilômetro e três Karmann Ghia: um cupê 1969, um conversível 1967 e um modelo TC 1973. Detalhe: o conversível é o número 001 dos 177 fabricados. Se um Willys Interlagos já é figura difícil, imagine o conjunto de um conversível 1962, um cupê 1964 e a Berlinetta 1966.

Os carros da Vemag estão bem representados pelo jipe Candango 1961, pelo luxuoso Fissore 1966 e pelo sedã Belcar. Exemplares de Fusca, Galaxie, o último Opala de 1992, o primeiro Omega de 1993, uma Rural Willys, um Gordini e um Maverick GT V8 branco também habitam o território nacional.

A diversidade de modelos europeus chama atenção à primeira vista dos privilegiados convidados a conhecer os espaços. Organizados por marcas e estilos, enfileirados à esquerda ficam apenas modelos da Mercedes, entre eles SL conversíveis, como o 190 1959 e o 280 1971. Na ala dos britânicos, destacam-se o Jaguar XK 140 1954 conversível, o sedã Mark II 1960, o Morgan Plus 4 1952 e o Austin Healey 1959.

A distribuição geográfica continua com membros da Porsche, como Carrera RS 1973 e 914 Targa 1974. Entre os representantes italianos estão o Fiat Dino 1968 e os raros Lamborghini Spada e Lancia Fulvia Zagato 1968, autênticos símbolos da escola italiana de design.

Com sotaque francês, o Citroën SM 1974, com seu motor V6 Maserati, é outro destaque doVelho Mundo. No galpão dos europeus ainda há lugar para os estrangeiros, como os dois samurais, o Acura NSX 1991 e o Mazda RX-7 1993.

Já no continente americano, os cromados de conversíveis sofisticados como o Buick Roadmaster 1947 e os Cadillac de 1947 e 1949 roubam a cena. Um impressionante mostruário de modelos Bel Air, dos anos 1950 a 1959, ajuda a compor o quadro. Da Ford, um Skyliner conversível com teto de acionamento elétrico esbanja a tecnologia da época, enquanto um impecável Lincoln Zephyr TownCar 1939, representante do estilo streamline, disputa olhares com Chrysler 300G e Studebaker Regal Coupe 1954.

Chamados pelo dono de “Dreams in Motion” (sonhos em movimento), estão todos prontos para andar. Para dar conta da manutenção do acervo que levou 40 anos para ser constituído, há uma oficina mecânica própria. Entre os planos futuros do colecionador está a criação de cenografia de época, com lojas, uma lanchonete dos anos 50 e uma minicidade na escala 1/18 com cerca de 150 automóveis.

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