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Especial - Jovens, álcool e direção - parte 1
Julho 2007

Especial - Jovens, álcool e direção - parte 1

Dose de imprudência: Eles sabem dos perigos da mistura de álcool e direção. Mas confiam em si mesmos a ponto de arriscarem todo o futuro que têm pela frente

Por Jonas Oliveira | Fotos: Roberto Setton
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ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Já passa da meia-noite de sábado, quando vários grupos de jovens aglomeram-se em um posto da Vila Madalena, bairro boêmio de São Paulo. Mas ninguém está ali pelo combustível: todos vieram à loja de conveniência, onde é possível abastecer-se de bebidas por um preço menor que o de bares e baladas da cidade. Uma turma de amigos aguarda o momento de entrar em uma festa, que acontece a um quarteirão dali. "Hoje o esquema é bebida liberada", diz Bruno, 23 anos, o dono do Citroën C3 estacionado no posto. Em seu carro estão Antônio, Fernando e Rafael. A este último, garantem, caberá a missão de levar o carro no caminho de volta, caso Bruno não tenha condições de dirigir - embora o próprio Rafael, 22 anos, admita já ter bebido uma lata de cerveja. O único do grupo que demonstra estar bem alterado é Thiago, 21 anos, que já transpira álcool e não fala com clareza. Em uma mão traz uma lata de cerveja; na outra, as chaves do Palio de sua mãe.

Agitado, Thiago intimida-se com a lente do fotógrafo. Ele diz não querer "dar esse desgosto à mãe", ainda que ela já saiba de seu hábito de dirigir embriagado. Pressionado pelos amigos a posar para a foto, ele ensaia um discurso desconexo sobre seu direito à liberdade, e arranca risadas dos companheiros. Mas, se tem pudor de mostrar o rosto, não o tem para assumir seus atos. "Pode escrever aí que isso não tem solução. Todo mundo sai, bebe e dirige. Se alguém disser que não, está mentindo", diz. Certo de que não lhe restam alternativas, ele se justifica. "Se eu for pegar táxi toda vez que sair para beber, vou à falência", afirma. Os amigos fazem coro. "É impossível a gente sair e alguém não beber. Um de nós pode beber menos, mas passar a noite a seco é difícil. Não tem como se divertir assim", diz Antônio.

Thiago e seus amigos conhecem muito bem as conseqüências da mistura de álcool e direção. São jovens comuns, de boa educação e amplo acesso à informação. Mas, cada noite que se arriscam ao volante na tênue linha da sobriedade, cometem um crime - com pena prevista de seis meses a três anos de detenção - que segue tirando a vida de milhares de jovens de sua idade. Uma atitude tão condenável quanto comum, que faz dos acidentes de trânsito a segunda maior causa de morte entre os jovens brasileiros - só perde para os homicídios, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Estima-se que entre 40% e 50% das mortes de jovens no trânsito estejam associadas ao uso de álcool. "Sei que é errado, mas não tem jeito. Todo mundo faz isso e, enquanto eu continuar a sair, vai ser assim", diz Thiago.

A sinceridade de Thiago chama atenção, mas não é raro encontrar outros jovens que pensam e agem da mesma maneira. Uma semana depois, a mesma cena repete-se em outro posto da Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Em um dos grupos está Helton, 21 anos, dono do Audi A3 estacionado em frente à loja de conveniência. Ele carrega uma garrafa de cerveja, mas logo trata de se justificar. "Sempre procuro beber dentro do meu limite. Hoje, na balada, pretendo beber só umas três doses de uísque", afirma. "Antes, quando tinha um Palio com câmbio manual, era difícil dirigir bêbado, por causa da rampa da garagem. Agora, com câmbio automático, é sossegado." Em outro grupo, Fernanda, de 19 anos, e Bruno, de 20, contam as histórias de acidentes da turma - que, a julgar pelas garrafas de bebida, não serviram como exemplo. "Há pouco tempo, dois amigos bateram feio ao voltar de uma festa e ficaram em coma", diz a estudante. Bruno por sua vez, já se envolveu em uma colisão por causa da embriaguez de um amigo ao volante. "Por sorte não aconteceu nada com a gente."

Do outro lado da rua, outra turma também faz o aquecimento para a balada, regado a vodca. "A gente vem direto para este posto, quase todo fim de semana. É mais barato já beber bastante antes e chegar à balada calibrado", diz Wilton, 19 anos. Daniel, 21 anos, afirma sempre ser muito cauteloso na volta para casa, mas admite já ter vivido seus deslizes. "Confesso que um dia desses bebi demais, e não sei como cheguei dirigindo em casa. Só sei que acordei no dia seguinte e o carro estava lá, mas não me lembro de nada", diz. Foi dele a dica de outro local onde encontrar gente de sua idade cometendo a mesma imprudência. "Na próxima semana tem uma micareta. Começa à tarde, mas é só chegar mais cedo para ver um monte de carros com o porta-malas aberto, cheio de bebidas. Pode apostar", diz Daniel.

A cena não poderia ter sido descrita com mais fidelidade. Por volta das 11 da manhã do domingo seguinte, o trânsito atípico na rodovia dos Imigrantes denuncia o que vem pela frente. O fluxo de veículos com destino ao carnaval temporão é tão grande que forma uma enorme fila. Cada carro leva quatro, cinco jovens, com ao menos uma lata de cerveja ou garrafa de vodca na mão - inclusive os motoristas, que não se intimidam com a presença da polícia nas proximidades. Ao volante, o estudante Allan, 19 anos, coloca meio corpo para fora do carro para trocar garrafas com um jovem em outro carro, também em movimento. Horas depois, ele já estava tão embriagado que mal parava no lugar, dançando ininterruptamente.

No estacionamento, o que se vê é uma multidão de jovens no auge da euforia, bebendo como se fosse aquele o último dia. Em meio à festa, Francisco, 21 anos, discorre sobre sua responsabilidade no trânsito. "Hoje, por exemplo, meu primo Leandro disse que queria beber muito, e eu assumi a direção. A gente sempre se reveza dessa maneira." Visivelmente alterado, com a fala arrastada, ele confessa que já havia bebido. "Esta aqui é a sexta latinha, e antes bebi mais uns três copos de vodca. Mas, a partir do momento que eu entrar no show, não bebo mais nada", afirma. Às 3 da tarde, quando os portões se abrem para o show, vários jovens ficam do lado de fora, no posto médico, devido ao consumo abusivo de álcool. "Normalmente, em um evento desse porte, a grande preocupação é com brigas. Mas, neste caso, praticamente só temos ocorrências de gente que bebe até cair e depois ainda quer voltar dirigindo", diz o soldado Wesley, um dos 77 bombeiros de prontidão no evento.

Pressão do grupo
Para o psiquiatra Jairo Bouer, existe um grande desencontro entre o que os jovens dizem acreditar e a maneira como realmente se comportam. "Em diversos comportamentos dos jovens é possível perceber essa distância entre o valor e a atitude, entre o que eles acham e o que realmente fazem", diz. O psiquiatra afirma que, especialmente entre os mais jovens, esse tipo de distorção é influenciada pela pressão do grupo. "Ele pode até acreditar em determinadas coisas, mas deixa alguns valores de lado para ser aceito pelo grupo, para não ser excluído, para não ser visto como um estranho", afirma. Bouer lembra que o jovem tem boa parte da responsabilidade, mas que o problema envolve ainda outras variáveis. "Existe uma questão estrutural que é muito maior que isso. As ruas não são seguras à noite e não temos um transporte público eficiente que funcione durante a madrugada. O carro acaba sendo visto pelos próprios pais como única opção", afirma.

Na opinião do sociólogo e especialista em trân sito Eduardo Biavati, o comportamento dos jovens no trânsito reflete uma visão limitada da conseqüência de seus atos. "Muitos jovens dizem que só correm quando dirigem sozinhos, às 3 ou 4 da manhã, voltando da balada. Isso mostra uma dificuldade muito grande de conceber que no trânsito nunca se está sozinho, que sempre existem outros no espaço", diz. Ele corrobora a idéia de que o jovem confia em excesso em seu poder de decisão, que é naturalmente mais limitado devido à inexperiência. "Fisicamente, não há nada que impeça um adolescente de 16 anos, por exemplo, de dirigir um carro. O que falta aos jovens motoristas é capacidade de negociação nas situações que o trânsito lhes impõe. Nisso eles erram no dia-a-dia, e ainda mais quando estão sob efeito de álcool."

Ao contrário do que a maioria dos jovens acredita, não existe quantidade segura de consumo de álcool, nem fórmulas eficazes para amenizar seus efeitos em um curto espaço de tempo. "O organismo inicia o metabolismo do álcool logo que o indivíduo começa a beber, e ainda leva até meia hora para absorver o álcool", afirma a doutora Vilma Leyton, toxicologista da Faculdade de Medicina da USP. Isso significa que receitas como parar de beber meia hora antes de ir embora, beber café ou comer doces não passam de mitos. "Nada disso funciona. Depois que a pessoa pára de beber, o organismo pode levar até quatro horas para eliminar o álcool, dependendo da dose", diz ela.

Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia que ouviu mais de 1 000 universitários de São Paulo e Rio de Janeiro revelou que 36% dos entrevistados sempre voltam para casa dirigindo, mesmo quando ingerem bebidas alcoólicas. Outros 80% afirmaram sempre sair de festas com amigos que bebem e voltam dirigindo. Uma outra pesquisa da Universidade Federal de São Paulo revelou que os motoristas brasileiros bebem muito acima da média internacional. Entre mais de 2 000 motoristas que fizeram o teste do bafômetro em blitze educativas, 20% dirigiam com índice de álcool acima do permitido pela lei. A maioria dos motoristas alcoolizados (69%) tinha entre 18 e 30 anos. "Esse número nos surpreendeu bastante, já que em pesquisas semelhantes, nos Estados Unidos e Europa, uma porcentagem de 2% de motoristas alcoolizados já é apontada como preocupante", afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que conduziu a pesquisa.

Outro dado alarmante é que, em 78% dos casos, os pesquisadores não souberam identificar quem estava acima do limite legal. "São profissionais treinados para reconhecer sinais de embriaguez, e mesmo assim erraram. Imagine, então, se o jovem que bebeu saberá se o amigo está bem ou não para dirigir", diz Laranjeira. Como se vê, motivos não faltam para que os jovens repensem sua relação com o álcool e o trânsito. A toda a sociedade, cabe trabalhar por uma profunda mudança cultural, que evidencie a incompatibilidade entre bebida e direção, em qualquer idade. E torcer para que, com a mesma coragem com que defendem suas atitudes, nossos jovens passem a defender a própria vida.


Caminho de volta
Depois de sofrer uma lesão na medula, Maurício esbanja força de vontade para voltar a caminhar e andar de moto


Maurício: os médicos não lhe deram previsão para caminhar

"O que me entristece é que já fui imprudente outras vezes. Já dirigi depois de beber, ultrapassei pela direita. Mas aconteceu justo quando não fiz nada disso", diz o gaúcho Maurício Frigo, 20 anos. Em 16 de julho do ano passado, um domingo chuvoso na cidade de Nova Bassano, ele estava em um bar no centro da cidade com alguns amigos. No início da noite, decidiu ir embora - sem ter bebido nada, afirma. "Eu tinha acabado de deixar um amigo em casa e voltei ao bar para devolver o capacete que ele usou. Depois ia para casa, por causa da chuva", diz.

No caminho de volta, tentou ultrapassar um Polo. Ele diz que levou uma fechada brusca e não conseguiu desviar a tempo. Com o impacto, Maurício foi arremessado a 17 metros do local. O socorro não demorou a chegar, mas, dada a gravidade de sua situação, teve que ser transferido para um hospital de Passo Fundo. Lá, constatou-se que ele havia fraturado a clavícula e sofrido lesão medular, perdendo a sensibilidade abaixo do tórax. Onze meses após o acidente, ele ainda não movimenta as pernas. "Os médicos me disseram que lesão medular é como uma impressão digital; cada caso é bem diferente do outro. Posso voltar a caminhar em dez meses ou dez anos", diz.

Depois de um período em tratamento no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, no último mês Maurício preparava-se para retornar à cidade natal, onde reencontraria a família, que não pôde acompanhálo na capital federal. "Com o tempo, alguns amigos começam a se afastar. No começo vêm visitar com mais freqüência, mas depois somem. Mas isso não me chateia", diz. Como não poderá retomar seu trabalho como metalúrgico, ele agora quer cursar direito e prestar concurso público.

Após o tratamento de reabilitação, Maurício sente-se mais independente. "Aprendi a lidar com situações do dia-adia, tive aulas de reeducação intestinal e sexual. À medida que eu evoluir, quero praticar natação e basquete", diz. Ele acredita que sua força de vontade é fundamental e deposita grande esperança nos avanços da medicina. "Creio que nos próximos anos deve haver alguma evolução nas pesquisas de células-tronco", diz. Confiante em que um dia irá se recuperar, Maurício guarda consigo outro desejo. "Tem gente que fica traumatizado, mas eu não. Ainda quero ficar bem e poder andar de moto novamente."


Sonhos adiados
A imprudência da amiga e a falta do cinto interromperam seus planos. Agora Andréa luta para recuperar o tempo perdido


Andréa: na capotagem, ela sofreu lesão medular

"Se pudesse voltar no tempo, jamais teria entrado naquele carro", diz Andréa Silva, 24 anos. No dia 11 de fevereiro deste ano, a estudante passava a tarde na praia do Cassino, litoral gaúcho, na companhia da amiga Amanda, 29. Na volta para casa, Andréa sentou-se no banco do passageiro. Quem estava ao volante era a amiga, que dirigia em alta velocidade pela areia. Amanda perdeu o controle do Ford Focus, que capotou várias vezes antes de parar. "Tudo o que lembro é que a gente estava muito rápido, quando o carro começou a capotar. Depois disso, já estava fora do carro, sendo atendida pelos médicos", diz Andréa.

No acidente, Amanda apenas fraturou a clavícula. Andréa não teve tanta sorte. Sem o cinto de segurança, seu corpo chacoalhou violentamente no interior do veículo. Além de fraturar seis costelas e ter o pulmão perfurado, Andréa lesionou a medula, perdendo a sensibilidade das pernas. Cinco meses após o acidente, ela ainda não pode caminhar, mas comemora cada novo movimento que consegue fazer. "Os médicos me deram um prazo de no máximo dois anos para caminhar. Quero voltar o quanto antes", diz.

Além das conseqüências físicas, o acidente também lhe deixou outras marcas. "Por um tempo, não queria andar de carro de jeito nenhum", diz. Há três anos, ela já havia sofrido um acidente ocasionado pela imprudência de outro jovem. "Estava em frente à casa de uma amiga quando um guri bêbado que disputava um racha bateu na traseira do meu carro. Acertei uma viatura da polícia que estava estacionada à frente", conta. Na ocasião, ela usava o cinto de segurança e nada sofreu.

Há um mês, Andréa e sua família vivem em Brasília, onde ela faz um trabalho de reabilitação no Hospital Sarah Kubitschek. A 2 300 quilômetros dali, na cidade gaúcha de Pelotas, Andréa cursava o quinto e último ano do curso de direito. O acidente a obrigou a trancar o curso e deixar o trabalho, na Delegacia da Mulher da cidade. Teve de abandonar também o triatlo, que praticava com freqüência. Andréa, que pretende concluir o curso e dar início a um mestrado em ciências criminais, questiona a impunidade de quem comete crimes de trânsito. Em seu caso, porém, preferiu não acionar a amiga por lesão corporal. "Acabei abrindo mão de representar contra ela na Justiça. Mas o fato é que, depois do acidente, nossa amizade nunca mais foi a mesma", diz.


Longo recomeço
Aos 23 anos, Malom pode dizer que nasceu novamente - pela gravidade do acidente e pelos cuidados que passou a inspirar


Após a lesão cerebral, Malom fala com dificuldade

"Foi às 21h35 do dia 8 de outubro do ano passado. Eu me lembro porque ele me ligou exatamente cinco minutos antes", diz Maria das Graças, enquanto segura a mão do filho. Na cadeira de rodas, lábios entreabertos e olhar distante, Malom Sales Cezar, 23 anos, parece lamentar a história que a mãe conta e que ele próprio não lembra. "Ele tinha ido a uma festinha da igreja, bem perto da casa dele. Tanto que foi a pé, mesmo", conta. Ao chegar em casa, ligou para a mãe e lhe desejou uma boa noite. Mas, como o cachorro-quente que trouxera para a esposa caiu no chão, Malom decidiu retornar à festa para comprar outro - dessa vez em sua motocicleta, sem capacete.

A poucos metros de casa, em uma rua sem iluminação pública de Parque Água Limpa (MT), Malom foi de encontro à traseira de um caminhão, estacionado na esquina. A moto permaneceu intacta, mas sua cabeça chocou-se violentamente contra a carroceria. Um vizinho que passava pelo local logo o colocou na caçamba de uma caminhonete e o levou até uma ambulância. De lá, ele percorreu três horas e meia de estrada de terra até o hospital mais próximo. "O motorista depois me pediu desculpas por não ter ido mais rápido, porque tinha certeza de que o Malom já estava morto", diz a mãe

Por 20 dias, Malom permaneceu na UTI, em coma. O rapaz, que praticava motocross, lutava tae kwon do, tinha uma oficina de motocicletas e inaugurara um restaurante no dia anterior ao acidente, sofreu uma grave lesão cerebral. Saiu do coma sem falar, caminhar e reconhecer ninguém. A mãe não acredita que ele tenha bebido durante a festa, mas admite a imprudência do filho. "Ele sempre arrancava a mil por hora, e eu dizia para ele andar com cuidado, usar o capacete. Mas ele não me ouvia", diz.


Leia também

Parte 2 - Teste do álcool na pista

Parte 3 - Sete boas iniciativas





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