
Das 72 escolas Senai no estado de São Paulo, 28 oferecem cursos na área. Porém, cabe à unidade do Ipiranga disseminar tecnologia, ferramental e didática para as co-irmãs. A explicação é simples: lá, as montadoras investem pesado no treinamento da rede e na formação de mão-de-obra especializada. No ano passado, as marcas colocaram, juntas, 1,8 milhão de reais no Senai Ipiranga, e esse aporte de capital deve aumentar. E não são apenas montadoras que recorrem aos cursos. "Atendemos empresas, concessionárias de rodovias e até seguradoras que precisam de conhecimento técnico. Temos 52 empresas parceiras", conta o agente de treinamento Valdir de Jesus.
Onde há tecnologia, há novidade. Quem freqüenta as instalações do Senai depara com equipamentos e literatura (manuais de instrução) que mal chegaram às concessionárias e ainda passam longe da rede de reparação independente. O primeiro sistema My Car, do Palio, por exemplo, foi dissecado lá. Hoje, por conta da parceria com Volkswagen e Audi, os professores dominam as artimanhas do moderno motor FSI, com injeção direta de combustível, que empurra modelos como Passat e A6. É por isso que carros tratados como segredo de Estado pelas fábricas não são novidade para alunos e professores. O C4 Picasso que mostramos em dezembro estava lá desde o primeiro semestre de 2006. E o novo Sentra? Acabamos de testá-lo e na escola ele já foi até desmontado... Mas nem pense em clicar um carro desses sem ordem. Há um contrato de confidencialidade com as marcas e, se um aluno for pego, a expulsão é certa.
Durante nossa visita também pudemos ver uma equipe da rede Renault aprendendo sobre um novo equipamento de diagnóstico do sistema de multiplexagem, a central eletrônica que controla sistemas elétricos e de injeção de Clio, Mégane e Scénic. "Antes, trabalhávamos com computadores enormes, e agora, com o laptop, ficou bem mais fácil", afirma Cléber da Silva, funcionário de uma concessionária da marca em Porto Alegre. E Cléber vai ensinar aos colegas o que viu na escola sobre o equipamento? "Se o guri merecer... quem sabe?", diz o gaúcho.
Na área de funilaria e pintura, o Senai Ipiranga é uma das poucas instituições de ensino que dominam a técnica de pintura à base de água, ecologicamente correta, só que ainda pouco difundida no Brasil. "Tem gente que faz, mas é uma realidade distante do nosso mercado. Por isso não aplicamos aqui em sala de aula", diz a instrutora e engenheira química Ina Paola Rao, uma das duas professoras mulheres da escola.
No entanto, nem todos os alunos são profissionais em começo de carreira. Nos corredores do Senai Ipiranga encontra-se gente de perfil variado. Há desde profissionais experientes até curiosos que querem reparar o carro antigo recém-adquirido. Segundo o instrutor José Aílton Siqueira, as razões da procura pelos cursos são múltiplos. "Há quem não se conforme com o péssimo atendimento que recebe quando encosta o carro nas oficinas e nos procura para saber mais a respeito. Também houve o caso de uma mulher que ficou viúva e tinha uma funilaria como negócio da família. Depois de tomar prejuízos seguidos, resolveu estudar conosco para gerir a oficina", afirma.
O adolescente Alex Shirato, de 15 anos, é um bom exemplo dessa pluralidade. Ele se matriculou no módulo Noções de Mecânica - Veículos Leves por ordem da mãe. "Meu pai comprou um carro e foi enganado, então ela mandou que eu fizesse o curso para não passar pelo mesmo vexame", diz. Porém Alex decidiu que, ao terminar as aulas, vai pendurar o macacão e investir na carreira de designer de games.
Mas não é assim com todos. Victor Vasconcelos da Silva sonhava em trabalhar numa montadora por influência do pai e começou o curso de aprendiz com 14 anos. Aos 18 anos, voltou à escola para especialização em injeção eletrônica e hoje, aos 20, faz carreira na fábrica da General Motors de São Caetano do Sul (SP), onde é coordenador na inspeção final dos veículos. O jovem, que atualmente cursa engenharia de materiais, sonha alto. "Quero chegar à presidência e sempre me lembrarei do meu início no Senai."
Já o metalúrgico José Dias saiu do interior do Paraná na década de 70 para tentar a vida em São Paulo. Arrumou um emprego na Volkswagen e, 30 anos depois, se aposentou. Agora é hora de voltar a sua Loanda, distante 520 quilômetros de Curitiba. Incansável, José não quer ficar parado e decidiu aprender novo ofício. Vai abrir uma oficina e virar mecânico de automóvel. "Como trabalhava na linha de montagem do Gol, não tinha contato com a parte técnica. Então, resolvi estudar mecânica no Senai para poder tocar o meu negócio", diz. É dessa maneira que o Senai Ipiranga alimenta o sonho de 17 000 pessoas que passam pelas suas salas de aula todos os anos.
ESTRUTURA
Criado em 1942, o Senai tem 515 escolas no Brasil. Destas, 120 atuam na área automotiva (todos os estados têm ao menos uma escola voltada a esse segmento). No país, existem ao todo 312 cursos relacionados à parte automotiva.
MODERADOR DE APETITE
Às vezes, o exagero de novidades que freqüenta o Senai Ipiranga atrapalha. O desafio dos professores é segurar a ansiedade da moçada e apresentar-lhes as novas tecnologias aos poucos. Há três tipos de curso: os de aprendizagem, para jovens de 14 a 24 anos, com duração de dois anos, são gratuitos; os técnicos, também grátis, só podem ser feitos após o término do segundo grau; e os de formação continuada e curta duração, pagos e abertos ao público em geral. Os dois primeiros exigem vestibulinhos. Já os de formação, onde se ensinam desde os princípios básicos de mecânica até como tunar um carro, seguem roteiro e disponibilidade dos alunos, desde que não se pulem etapas fundamentais. Por exemplo: a escola não recomenda matrícula no módulo de injeção eletrônica sem que ter as noções básicas sobre funcionamento de motor.
OS CURSOS
-mais barato
Identificação de Procedência de Veículos: 100 reais
Duração: 3 dias
Requisitos recomendados: experiência em comércio de veículos ou curso de Noção de Mecânica - Veículos Leves
-mais procurado
Noção de Mecânica -- Veículos Leves: 220 reais
Duração: 15 dias
Requisitos recomendados: não há
-mais caro
Sonorização Automotiva -- Especialização: 870 reais
Duração: 1 mês e meio
Requisitos recomendados: preferencialmente, ter o curso do sistema de som básico
- sites
Senai Nacional: www.senai.br
Senai São Paulo: www.sp.senai.br




