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REPORTAGENS
Carros da periferia
Fevereiro 2007

Carros da periferia

Frota de Brancaleone: O inacreditável estado dos carros que rodam na periferia e seus incríveis motoristas

Por Henrique Skujis
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Enquanto meus ouvidos se esforçam para separar o rap e a música gospel que tomam conta de uma esquina em Parada de Taipas, na zona norte de São Paulo, observo os carros que rodam pelas ruas do bairro. Passa uma Brasilia caindo aos pedaços. Vem um Corcel I cambaleando. Vai uma Variant que virou picape. Volta um Fusca soltando espoletas pelo escapamento. Até surge um ou outro carro com menos de duas décadas de vida. A maioria esmagadora, no entanto, remete aos idos dos anos 70 e 80. São carros enferrujados, amassados, tortos, sem a menor condição de segurança. Andam porque seus donos improvisam, insistem, precisam deles. Amarram o pára-choque com fios de cobre. Abrem a janela com chave de fenda. Substituem o vidro por plástico. Fazem de uma garrafa um tanque de combustível. Remexem na fiação. Usam o pneu até aparecer a malha de aço.

Parece não haver limite para manter o carro vivo. Agonizando, mas vivo. E quase sempre pronto para levar seu dono para o trabalho e para um passeio com a família. E nada de ir muito longe. Primeiro porque nem sempre o carro agüenta longas distâncias. Depois porque, se na periferia eles estão em casa, fora de lá são potenciais hóspedes dos pátios de fiscalização. Com desculpas na ponta da língua, tentam e muitas vezes conseguem escapar de multas e apreensões. No entanto, não deveria haver evasivas capazes de convencer nem o guarda mais coração-mole que os carros mostrados nesta reportagem não deveriam estar recolhidos no Detran ou devidamente prensados em um ferro-velho. Por isso, é o bom senso (bom senso?) dos homens da lei que mantém em circulação a frota oxidada. "Se fôssemos apreender esses carros, não haveria espaço nos pátios", disse um policial do trânsito que pediu para não ser identificado. "E a maioria dessas pessoas usa o carro para trabalhar e sustentar a família."

José Henrique Senna, presidente da Society of Automotive Engineers (SAE) no Brasil, acredita que num país onde mais de 30 000 pessoas morrem vítimas do trânsito todo ano não há espaço para esse tipo de complacência. "A questão social e econômica não pode comprometer a segurança", diz Senna. Seu companheiro Luso M. Ventura, diretor das comissões técnicas da SAE Brasil, afirma que esses carros precisam ser enviados para um desmanche. "Se não há espaço nos pátios, que sejam leiloados e destruídos." É uma solução. Dura e demorada. Só no Estado de São Paulo, 3,7 milhões de veículos de uma frota de 10 milhões têm mais de 20 anos de vida. Nem todos eles, é verdade, estão capengando, mas nossa excursão aos extremos da cidade deixou clara a condição dessa frota que vive em um mundo paralelo, diferente da reluzente esquadra que circula nas ruas mais centrais das cidades do Brasil.

Eustáquio Santos Silveira, de 43 anos, dono do Chevette que você na abertura desta página, é um exemplo típico desse cenário. Ele faz o que pode para manter o carro em circulação. Precisa dele para visitar os clientes e vender fotos de formatura. Faz uma piada atrás da outra sobre o carro. Diz que é flex, porque aceita gasolina, álcool e diesel. Conta que o buraco no assoalho é seu ar-condicionado. Fala que a corda no motor é item de série para facilitar os constantes reboques. Como não sobra dinheiro, Eustáquio vai levando, improvisando e acelerando bem de leve. "A gente brinca, mas é uma dureza", diz o comerciante, que tem como sonho de consumo um carro novo. Qualquer um.


CHEVETTE SEM CHÃO


O vendedor Eustáquio Silveira não precisa sair do carro para esticar as pernas. O assoalho sob os pedais desapareceu. "É o ar-condicionado", brinca o vendedor, que tentou vender o carro por 500 reais e não conseguiu. O Chevette, que não tem marcha-à-ré e nenhuma luz funcionando, é tetrafuel: aceita gasolina, álcool, diesel e até álcool de fármacia. "E é supereconômico: faz 10 km/l."


CARAVAN NA VEIA


Foi preciso um empurrãozinho para a Caravan ano 75 do comerciante Carlos Benito Torres, o Alemão, sair do lugar. Ele pagou 300 reais pelo carro e logo o transformou em picape para carregar frutas na caçamba. Sem tanque de combustível, o dono, que tem o nome do carro tatuado no braço, usa uma garrafa ao lado motor para abastecer o carro. À esquerda, Alemão (de laranja), sua turma e o Diplomata que em breve também estará nas ruas.


VARIANT OFF-ROAD


A Variant 73 de Eduardo Ribeiro de Almeida, de 37 anos, está carcomida pela ferrugem. "Mas mantém o charme", diz ele. Comprada por 700 reais, serve sua oficina mecânica, a loja de material de construção do pai e carrega porcos e galinhas da chácara da família. "Ela nunca me deixou na mão", afirma Eduardo. "É só colocar gasolina e ligar." Da polícia, não tem medo. "Eles já conhecem a gente", conta o paulistano, que tem muito carinho pelo carro. "Mas se eu ganhar uma Silverado o carinho vai por água abaixo."


FUSCA TEMPERADO


Todo dia, Maria de Lourdes da Conceição enche seu Fusca 64 amarelo de temperos e segue até Parada de Taipas, na zona norte de São Paulo, onde monta sua barraca de condimentos. O Fusca custou 800 reais em duas vezes. "Tá caindo aos pedaços, mas tá lindo, não?" O carro ganhou pára-choque dianteiro de Gol, além de retrovisores e limpadores usados. "O motor também anda dando problema", diz Lourdes, que sonha em participar do quadro Lata Velha, no programa do apresentador Luciano Huck.


IMPRESSÕES AO DIRIGIR


"Não consigo nem abrir a porta da Variant. O dono, Eduardo Ribeiro, puxa a porta de um jeito todo especial e libera o acesso ao interior destruído do carro. Giro a chave e o motor pega de primeira. O pedal da embreagem é duro. Engato a primeira com dificuldade. Acelero devagar e, na hora de engatar a segunda, a brincadeira termina: ela não entra. Tento ir direto para a terceira, mas o carro morre. Não consigo mais ligá-lo. Desço para empurrar e Eduardo assume o volante. Estamos na avenida dos Metalúrgicos, Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. No tranco, pega. Eduardo troca as marchas com suavidade, como em um carro zero. A Variant parecia ensinada."


POLUIÇÃO

Gabriel Murgel Branco, consultor em poluição veicular e combustíveis alternativos, calcula que um carro fabricado antes de 1988 emite 55 g de monóxido de carbono por quilômetro rodado ante apenas 1 g ou até menos expelida por um veículo novo. "Isto se o carro velho estiver em ordem, o que não é o caso", diz Branco.


SEM IMPOSTO


A maioria dos carros velhos que roda pela periferia sequer trocou a placa amarela (acima) pela cinza. Seria portanto demais pedir que pagassem o IPVA. Mesmo com placa cinza, estariam isentos do imposto, pela lei que exclui da cobrança carros com mais de 20 anos. "Eles poluem mais. Deveriam pagar o imposto", diz Ventura, da SAE. Para Adriano Queiroga, da Secretaria da Fazenda de São Paulo, a cobrança não reduziria a poluição.





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