Seu comparativo
TOP 10 QR
Os carros mais procurados da semana no site Quatro Rodas
  • Up
  • Onix
  • Duster
  • HB 20
  • Novo Ka
  • Corolla
  • Civic
  • Golf
  • Focus
  • New Fiesta
  • | A-Z |
Newsletter
Assine a Newsletter QUATRO RODAS
PUBLICIDADE
REPORTAGENS
Casados com o primeiro carro
Setembro 2006

Casados com o primeiro carro

O primeiro amor não se vende: Seis histórias de paixão e fidelidade entre carros e donos inseparáveis.

Por Henrique Skujis
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

O espanhol de cabelo rosado ainda pensava se deveria vender o Corcel para aquele garoto de 18 anos. Eufórico, Sérgio cruzava os dedos para que a contraproposta de seu pai fosse aceita pelo senhor de forte sotaque castelhano. Quando outro interessado tocou a campainha e disse estar disposto a pagar o preço sem desconto, Sérgio tremeu. Fez-se um silêncio. "Meu pai abaixou a cabeça, como se tivéssemos perdido o carro", lembra. O espanhol, no entanto, educada, mas rispidamente, convidou o novo freguês a se retirar, assinou onde deveria assinar e, pronto, Sérgio tinha seu primeiro carro, um Corcel 77 com pouco mais de 10000 quilômetros.

Já se vão quase três décadas desde que essa história aconteceu no apartamento de um prédio da rua Aurora, no centro de São Paulo. Sérgio Minervini, hoje com 46 anos, teve outros amores em sua garagem, mas o Corcel ainda está a seu lado, como lembrança do pai, do senhor espanhol de cabelo rosado e "de toda a minha juventude", diz o ortopedista, que criou uma relação tão fraterna com o carro a ponto de andar quilômetros a pé para consertar um pneu furado em vez de gastar o estepe. Na época da faculdade, mesmo com um carro na mão, preferia ir de ônibus estudar medicina em Taubaté para poupar o motor. Mais prova de amor? Ele guarda todas as peças trocadas: em sua garagem, jazem velas, platinados, filtros de óleo, buchas... A bateria velha ele jogou fora por causa do vazamento do ácido. "Deveria ter guardado. Estou arrependido." O irmão de Sérgio, José Roberto, não fica atrás. Seu primeiro carro, um Fiat 147 ano 79, ainda é seu fiel companheiro. "Não vendo."

 


Terapia

Relação tão forte e ainda mais longeva com o primeiro carro é a do advogado José Carlos (que prefere não dar o sobrenome). No dia 19 de fevereiro de 1968, ele veio de Bauru ao volante do Fusca zero-quilômetro comprado em parceria com a esposa em um consórcio de 12 meses. "Como posso vender um carro que traz recordações de um período maravilhoso da minha vida?", pergunta. "Lembro do meu casamento, dos meus filhos pequenos..." Quando comprou seu segundo carro, uma Variant, o Fusca foi para a garagem da casa da mãe, onde "dorme protegido por uma capa" em uma vaga coberta.
José Carlos e o Fusca passeiam uma vez por semana. "Sinto saudade. Vou até lá, tiro a capa dele e vamos passear", afirma. Apenas uma vez o advogado pensou em romper o relacionamento. Foi há três anos, quando perdeu um filho. "Cheguei a colocá-lo à venda, mas logo percebi que ele era uma terapia. Eu conversava com ele, me abria." Por parte da mulher, o ciúme é zero. "Nós dois tratamos o carro com muito carinho. Enquanto estivermos vivos, ele fica com a gente."

 


Kombi viatura

O italiano Bernardo Colaneri também não tem entre suas prioridades passar para frente sua Kombi 1960. O utilitário foi não apenas seu primeiro carro, mas também o primeiro automóvel a circular pelas bandas do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. Naquela época nem a delegacia do bairro tinha viatura para correr atrás dos bandidos. "O delegado pedia a Kombi emprestada e a gente ia na captura", conta. "Já foi muito malandro algemado aí atrás", brinca o aposentado que veio de Nápoles em 1953, com 22 anos de idade.

Comprada zero-quilômetro de um amigo que conhecia o vendedor da Sabrico (única concessionária Volkswagen da época, segundo Bernardo), a Kombi serviu por anos ao armazém de secos e molhados da família. Mesmo com a compra do segundo carro, um Fiat Prêmio 1986, e do terceiro, um Gol Atlanta 1996, a Kombi, atualmente com pouco mais de 30000 quilômetros rodados, manteve seu lugar cativo. "Criei apego muito grande a ela, que ainda funciona perfeitamente", afirma o italiano que não deixou seu amor sequer posar para as lentes.

O Chevette 1974 do cirurgião Fernando Aranha Fróes é outro sobrevivente - literalmente. Comprado usado em 1981 na feira do automóvel do Anhembi, em São Paulo, com dinheiro de seus plantões e empréstimo dos pais e dos sogros, o primeiro carro de Fernando já passou dos 500000 quilômetros rodados. O motor foi recentemente retificado e ainda não voltou ao lugar.

Além disso, duas pancadas na traseira do carro entortaram as longarinas e obrigaram Fernando a aceitar a única solução dada pelo funileiro: transformar o sedã em picape. "Reformo, transformo, mas não vendo", diz. "Ele foi comprado com muito sacrifício. E foi meu carro na época do Collor, quando precisei vender o outro mais novo", explica. Em recente assalto a sua casa, o maior "valor" levado pelos ladrões foi a caixa com fotos e toda a documentação histórica do carro.

 


Paquera na Augusta

Ao contrário do Chevette de Fernando, o primeiro carro do também cirurgião Lybio Júnior parece ter saído nesta semana da concessionária. O Chevrolet 1948 pertenceu a seu pai até 1973, quando um Dodge SE veio se juntar à frota da família. "Eu tinha 18 anos. Estava no curso pré-vestibular e meu pai me deu o Chevrolet", lembra. "Foi uma alegria incomparável." Restaurado em 1983, o sedã é companhia certa de Lybio nos giros de final de semana e nos encontros de carros antigos Brasil afora.

"Quando entro nele, volto no tempo, lembro de minha mãe vindo me buscar na escola, das ceias de Natal na casa de minha avó, dos aromas e dos sons que ouvia na infância." Ao falar do carro, o médico imita o barulho nas trocas de marchas. "O tranco que ele dá hoje é exatamente igual ao que eu escutei a vida inteira", conta o cirurgião.

Se hoje o Chevrolet é puro estilo, nos anos 70 era apenas um carro velho, em desuso, preterido por Fuscas e muito utilizado por taxistas. "Eu adorava, mas meus amigos tiravam o maior sarro e ele não fazia sucesso nas paqueras da rua Augusta", afirma o médico. "Mesmo assim, sempre fui fiel a ele. Nunca pensei em vendê-lo. Nunca o traí. Sempre dei a ele muito carinho. Hoje, me sinto recompensado toda vez que sento em seu banco, sinto seu cheiro, ponho as mãos no volante, dou a partida, acelero e saio por aí. Eu e ele."


Quem ama cuida

Se você ama seu primeiro carro, procure sair para passear com ele pelo menos uma vez por semana. Os pneus rodam, o óleo circula, o motor funciona e o ar se renova. Mas, se por algum motivo inexplicável, você deixá-lo de lado por muito tempo, anote as dicas do mecânico Fábio Fukuda para que ele não faça charme quando você convidá-lo para dar uma volta. Para começar, não deixe o freio de mão acionado e calibre os pneus com 3 ou 4 libras a mais que o recomendado. A lataria merece lavagem uma vez por mês e uma encerada (sem produtos abrasivos) a cada três meses. Mesmo com o carro parado, o óleo deve ser trocado a cada seis meses. Aproveite e troque o líquido de arrefecimento. Se o carro tiver ar-condicionado, ligue-o por meia hora uma vez por semana. Tudo isso é garantia de longa vida para a sua relação.



A mecânica da paixão

Para o psicanalista Sebastião Elyseu Júnior, professor da PUC de Campinas, e para a psicóloga
Leila Cury Tardino, professora associada do Instituto de Psicologia da USP, casos de apego excessivo como os narrados nesta reportagem são explicados com naturalidade. "É uma maneira de lembrar do passado, de alguma época boa da vida", afirma Leila. "Há casos semelhantes de pessoas que guardam brinquedos da infância até hoje", compara.

Elyseu, que recentemente defendeu uma tese sobre a teoria da posse, acredita que "esse tipo de relação é mais normal entre pessoas, mas não é incomum alguém se apegar a um objeto que diga algo mais, que tenha um valor subjetivo, como o relógio herdado do pai ou do avô". Os psicólogos pedem atenção, no entanto, quando o objeto (o carro, no caso) escraviza seu dono. "Saber dar valor a objetos é fundamental, mas o apego em excesso pode levar a uma inversão dos papéis", afirma Leila. "Nesse caso, o objeto passa a ser dono da pessoa, atrapalhando que ela siga em frente."
Não parece ser o caso dos personagens desta matéria.





» FOTOS