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REPORTAGENS
Cortina de fumaça
Agosto 2003

Cortina de fumaça

Querem nos obrigar a ter um extintor melhor, mas será que precisamos de algum? Países mais desenvolvidos acham que não. Nessa discussão faltam estudos conclusivos e sobram interesses

Por Maria Paola de Salvo, Suzana Vidigal e Marcelo Moura
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ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

O frentista torce o rosto apertando os olhos, como se isso lhe desse visão de raio X - ou, ao menos, um ar de autoridade científica: "É, doutor, vai ter que trocar o extintor". E você, que não tem superpoderes, obedece e pega o dinheiro na carteira. Uns 35 reais pelo cilindro novo ou 15, pelo recarregado. "Melhor que levar 127,69 reais de multa e 5 pontos na carteira", diz o vendedor, como argumento definitivo. Você entrega o cilindro antigo e percebe que ele ainda estava embrulhado no plástico. Nunca foi usado.

Melhor assim. Especialistas reconhecem que enfrentar um incêndio com nossos extintores não é moleza. "Às vezes um cilindro só não apaga o fogo, eu sempre levo dois no meu carro", diz Erílio José Bernardo, instrutor de combate a incêndio da fabricante de extintores Kidde e da Universidade do Texas. Isso quando o equipamento está em perfeitoestado. Porque, entre 2001 e 2002, o Ipem (Instituto de Pesos e Medidas) de São Paulo analisou 1307 cilindros de 59 empresas que fazem recarga (54 de São Paulo, 4 do Paraná e 1 do Rio de Janeiro). Metade dos extintores funcionava mal, cerca de 8,5% tinham um pó químico que não apagaria fogo algum e outros 7,9% sequer chegaram a funcionar. Repetindo: Erílio sabe apagar incêndio e acha que precisa de dois cilindros em perfeito estado. O que dizer do motorista comum, que nunca teve treinamento nem sabe reconhecer um extintor ruim? Por essas e outras razões, chegamos à conclusão: o extintor não merece ser obrigatório. Não do jeito que ele é hoje.

Existem duas alternativas à vista: acabar com a obrigatoriedade do extintor ou trocá-lo por um mais eficiente, ensinando o público a usá-lo. Da Áustria a Zâmbia, a maioria dos países adota a primeira opção: nada de extintor, apagar fogo é coisa para bombeiros profissionais. Será que o Brasil está certo e a maior parte do mundo, errada? Em 2001, a AEA (associação de engenheiros da área automotiva) pediu para o Contran acabar com a exigência. "Eles arquivaram nosso projeto dizendo que mal, pelo menos, esse extintor não faz", diz o engenheiro Marco Antonio Saltini, representante da AEA. Depois da derrota, a associação passou a fazer campanha por um extintor do tipo ABC, mais eficiente e mais caro. Hoje, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) estuda a nova proposta e, mesmo sem prazo pré-estabelecido, espera-se que apresente sua decisão, que tem poder de lei, ainda neste ano.

Mas será que vale a pena ter esse novo modelo? Será que vale a pena ter algum? A discussão passa por várias questões. Vamos a elas:

¿ Carro pega fogo?
Pega, sim, e não falamos apenas de Kombi enferrujadas. Segundo os dados mais recentes da Superintendência de Seguros Privados, cerca de 400 carros que têm seguro pegaram fogo de janeiro a junho de 2002. Os números do Corpo de Bombeiros de todo o país indicam que, no ano passado, 0,04% da frota brasileira foi consumida pelas chamas. A média, tanto no Rio quanto em São Paulo, foi de sete carros queimados por dia.

A lista de "incendiados" é variada, sinal de que nenhum automóvel está imune. Muitas vezes, a causa do incêndio não tem a ver com a idade ou o modelo do carro. Estudo do Corpo de Bombeiros paulista mostra que boa parte dos incêndios começa com uma ponta de cigarro que cai no carpete.

É raro, mas carros também explodem. Num tanque quase vazio, o vapor de combustível pode esquentar com as chamas a ponto de detonar.

¿ Estamos prontos para apagar um incêndio?
Segundo a ONG Instituto Nacional de Segurança no Trânsito (INST), não. Em 1995, o INST fez uma pesquisa com 772 motoristas na cidade de São Paulo: 91% das pessoas disseram que nunca tinham usado o extintor e, entre os que já usaram, nenhum conhecia todos os procedimentos a se tomar em caso de incêndio. Oito em cada dez pessoas admitiram jamais ter feito recarga do extintor.

¿ O meu extintor é eficiente?
Tecnicamente, ele tem classificação extintora 5B - uma capacidade de apagar fogo considerada baixa. Especialistas dizem que ele é útil em automóvel, mas o motorista precisa agir rápido. "Esse extintor serve para combater princípios de incêndio. Depois de dois minutos, o fogo já está forte demais", diz o instrutor Erílio. "Nossos extintores são obsoletos, quem tenta apagar fogo com eles se expõe a um risco", afirma Irineu Büller, presidente do Sindincêndio (sindicato nacional de empresas de manutenção de material contra incêndio).

Esse extintor é basicamente o mesmo desde que passou a ser exigido em ônibus e caminhões, em 1968. Dentro dele existe pó químico do tipo BC - na essência, bicarbonato de sódio, aquele pó branco usado como fermento de bolo e para tratar de aftas na boca. É capaz de apagar fogo em combustíveis líquidos e pode ser usado sobre sistemas elétricos, pois não provoca curto-circuito. Se o fogo pegar em materiais sólidos, a eficiência dele torna-se mínima.

¿ Como é o novo extintor que poderia substituir o atual?
Trata-se do modelo ABC, com pó de monofosfato de amônia (uma substância também usada como fertilizante). Ele apaga fogo em materiais sólidos, como plásticos, borrachas, espuma dos bancos, carpete e estofamento (que correspondem à categoria A), em combustíveis líquidos (categoria B) e não provoca curto-circuito (categoria de classificação C). É mais caro que o modelo BC (custa perto de 40 reais), mas a Abiex jura que o preço cairá se esse equipamento virar obrigatório. Tem validade de cinco anos, contra três anos do tradicional comprado novo (35 reais) e um ano do tradicional recarregado (15 reais). Segundo a Abiex, o segredo da longevidade não vem do pó, mas sim da vedação mais caprichada no cilindro. A sugestão do novo extintor feita ao Contran também prevê o fim da recarga. Se for aprovada, entrará em vigor no meio de 2004. Junto com a mudança dos extintores, a proposta prevê cursos de treinamento.

¿ Quem ganharia com a mudança do extintor?
"Se é para ter extintor, que pelo menos seja um eficiente", diz Saltini. O modelo ABC é mais seguro e, portanto, o público sai ganhando. A Abiex pode estar com a melhor das intenções ao pedir a mudança da lei mas não custa notar que ela também deve ganhar algum dinheiro com a mudança. Líderes da associação, as empresas Kidde e Yanes são as únicas fornecedoras de extintor para os carros novos. As montadoras dizem que pagam 10 reais por unidade, o que dá um faturamento bruto próximo de 14 milhões de reais. Com o fim da reciclagem, as empresas ganhariam também o público que hoje recarrega o extintor. Segundo o Sindincêndio, são cerca de 7 milhões de consumidores. O sindicato também quer o extintor ABC, mas faz restrições ao fim da reciclagem: "Os cilindros são feitos para serem recarregados, esse é um direito do público", diz Irineu Büller.

¿ Quem ganharia com o fim do extintor obrigatório?
Para quem acha o extintor uma inutilidade, a abolição seria o fim de uma despesa e de um aborrecimento na hora de recarregá-lo no posto. Quem gosta poderia continuar com o equipamento em dia, indiferente à mudança. As montadoras ficariam livres de comprar os extintores - uma bela economia, se lembrarmos que até lâmpadas de ré têm entrado na contenção de despesas.

¿ Em que países o extintor é obrigatório?
Só países chamados de "emergentes" exigem: Argentina, Bulgária, Costa Rica, El Salvador, Chile, Guatemala... Na maioria dos lugares, o uso do extintor é optativo. É o caso da China, Índia, Paraguai e Uruguai, além dos prósperos Alemanha, Bélgica, Canadá, Japão, Espanha, França, Noruega, Itália... Os dados são da AEA.

¿ A obrigatoriedade em países pobres prova que estamos certos?
Dá para interpretar de várias formas. Uma versão otimista: países pobres tendem a ter carros mal-conservados, que pegam fogo com maior freqüência. E uma pessimista: países ricos têm governos menos sensíveis ao lobby de empresas que querem vender extintor. As duas são mera opinião para conversa de bar, escolha a sua. Ou vamos a dois fatos que chamam a atenção: o extintor não é obrigatório na Suécia, país com uma das mais rigorosas e eficientes legislações de segurança no trânsito, nem nos Estados Unidos. Os 50 estados americanos têm autonomia para criar essa lei, e nenhum deles quis.

¿ Por que o extintor não é obrigatório nos Estados Unidos?
O órgão americano responsável pela segurança viária (NHTSA) diz que não encontrou argumentos que justificassem a compra de 200 milhões de extintores. E olha que eles procuram bastante: todo ano, o departamento nacional de estatísticas de transporte faz relatórios de quase 600 páginas.

Às vezes é doloroso manter essa posição contra o uso do extintor. Dia 29 de março, a advogada americana Alice Dee Rainville mandou uma carta pedindo pela obrigatoriedade. A família dela tinha acabado de morrer em um incêndio de automóvel. O NHTSA respondeu que lamentava a perda, mas não mudaria uma linha em suas normas. Segundo eles, o risco de alguém se queimar tentando apagar o fogo não compensaria os benefícios. Pelas estatísticas americanas, um incêndio acontece em 0,2% das colisões em geral e sobe para 2,9% dos acidentes fatais - ou seja, o choque foi tão forte que, provavelmente, os passageiros já teriam falecido antes de o fogo aparecer. "Para resolver o problema dos incêndios, preferimos tornar mais rígidas nossas normas de resistência à colisão e contra o vazamento de combustível", escreveu Jacqueline Glassman, chefe de conselho do NHTSA.

¿ Como nós estamos de equipamento preventivo?
Em novembro de 2000, QUATRO RODAS realizou um crash test com Gol, Palio, Corsa e Fiesta (deles, só o VW não mudou desde então), seguindo a norma americana. Os carros bateram de frente em uma parede, a 50 km/h, e depois foram virados de cabeça para baixo. Nenhum deles deixou a gasolina vazar.

"Hoje, praticamente todos os carros brasileiros saem de fábrica com um sistema que interrompe a passagem de combustível em caso de colisão, chamado válvula inercial, e dispositivos que cortam a corrente elétrica", diz Sérgio Ricardo Fabiano, gerente técnico do Cesvi (Centro de Experimentação e Segurança Viária), entidade privada que faz simulações de acidente para estimar o custo do conserto. "Os modelos novos pegam fogo, mas a tendência é isso ficar cada vez mais raro." Por outro lado, as inovações tecnológicas levam tempo para mudar o panorama do nosso trânsito. Nossa frota tem em média nove anos, segundo o sindicato nacional de produtores de autopeças (Sindipeças).

¿ Vale a pena apagar o fogo?
O risco de enfrentar as chamas compensa cada vez menos. "Os carros modernos têm mais peças de plástico e componentes eletrônicos, as primeiras peças a estragar em caso de incêndio. Antes era possível reparar, mas está cada vez mais difícil", diz o gerente do Cesvi Brasil. "O extintor parece o antigo kit de primeiros socorros. Ele era útil, mas pouca gente podia realmente tirar proveito."


"Sem o extintor, ela teria morrido"
"Eu voltava para casa pela avenida Atailba Leonel (São Paulo), quando vi um clarão adiante. Dois carros bateram, o tanque de um começou a vazar e o fogo espalhado na pista estava envolvendo todo o automóvel, um Gol. Um casal conseguiu sair, mas a filha deles ficou. Várias pessoas tentaram apagar as chamas com os extintores dos carros, mas sem sucesso. Até que, por um momento, conseguimos baixar o fogo que queimava a lateral do carro. Um homem abriu a porta do Gol, eu consegui entrar e tirar a menina. Minutos depois, a cabine também pegou fogo. Esses extintores pequenos são fracos, mas juntando alguns deles é possível abortar um princípio de incêndio. Sem eles, a menina teria morrido."

> Carlos Alberto Eid - médico


"O extintor não
serviu para nada"
"Vi alguma fumaça saindo do lado de fora do carro, mas como o termômetro do motor continuava frio, não dei atenção. Era comum queimarem mato na avenida das Américas (Rio de Janeiro). Só percebi que era realmente um incêndio porque, quando pisei no freio, o pedal afundou sem fazer efeito. Por sorte eu estava devagar e consegui parar, na frente do BarraShopping. Descarreguei todo o meu extintor e mais o de outro motorista que estava passando por ali e resolveu ajudar, mas o fogo não apagou. O incêndio só foi dominado depois de dez minutos, quando os bombeiros do shopping chegaram com extintores grandes. Mas em cinco minutos já não tinha sobrado coisa alguma do meu carro. Para mim, o extintor não serviu para nada."

> Cristiano Prado - economista


Cronologogia do incêndio
A primeira chama abre uma contagem regressiva: o motorista tem dois minutos para dominar o fogo, antes que o fogo domine o carro. Uma corrida arriscada

clique na imagem para ver o infográfico





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