ALTERAR O TAMANHO DA LETRA
Na manhã de uma segunda-feira, no início de dezembro, Sandro Azevedo, gerente operacional da Sascar, uma das maiores empresas do país em rastreamento de veículos, recebeu uma ligação com uma solicitação inusitada. Do outro lado da linha estava um cliente com problemas sérios no casamento. Para acalmar a fúria de sua mulher, ele queria que o executivo da Sascar dissesse a ela que as coordenadas informadas pela companhia estavam incorretas nos últimos dias (e, portanto, deviam ser ignoradas). O motivo do pedido, feito em tom de súplica: a esposa havia consultado pela internet um mapa com todo o itinerário percorrido pelo carro do marido. O serviço fica disponível aos usuários, que o acessam por meio de uma senha. As informações são atualizadas a cada cinco minutos, com uma pequena margem de erro na localização. De posse da senha do marido, a mulher entrou no sistema e descobriu que o veículo rastreado havia permanecido horas estacionado num motel na rodovia Raposo Tavares, nas proximidades de São Paulo. "Fiquei comovido com o desespero do cliente, mas não podia mentir para ajudá-lo a contornar a situação", afirma Sandro, que desligou o telefone com a sensação de que havia acabado de sacramentar um divórcio.
Histórias de adultério fazem parte da farta relação de casos surpreendentes que surgem no dia-a-dia das empresas especializadas em localizar veículos furtados ou roubados, fazendo rastreamento através dos mais diferentes tipos de tecnologia - ondas de rádio, pagers e GPS, entre outros. É impressionante o crescimento nos últimos anos desse tipo de negócio no Brasil. Há dez anos, não havia mais que cinco empresas atuando no ramo. Hoje, o mercado conta com mais de 80 companhias, que monitoram uma gigantesca frota de 400000 veículos de passeio, segundo estimativas dos especialistas. As empresas atuam de modo semelhante. Elas têm uma central de inteligência que se encarrega de descobrir o paradeiro do veículo e uma equipe de busca que confere a localização e aguarda a chegada da polícia para a retomada do automóvel. No trabalho de encontrar os veículos (que é bem-sucedido em mais de 90% dos casos conduzidos pelas melhores companhias, segundo auditoria realizada pelo Centro de Experimentação e Segurança Viária), os rastreadores trombam com mulheres ciumentas, quadrilhas ultra-especializadas e ladrões dispostos a tudo para escapar da prisão (leia as histórias ao longo da matéria). "Temos que aperfeiçoar constantemente os equipamentos, pois os bandidos procuram formas de burlar a tecnologia", afirma Carlos Alberto Betancur, diretor de operações da Lo Jack, empresa de origem americana que atua no Brasil há quatro anos.
Com toda a tecnologia empregada no rastreamento dos veículos, os sistemas dependem muito dos agentes encarregados de efetuar a busca dos carros nas ruas, avenidas e estradas. No caso da Lo Jack, os funcionários da equipe de resgate são conhecidos como "caçadores". Vestidos de preto, realizam as perseguições a bordo de motos ou carros populares (há ainda helicópteros e aviões que podem ser acionados, dependendo da complexidade do trabalho). A turma não anda armada, pois seu objetivo é apenas o de encontrar o carro e passar as coordenadas para a polícia. Em vez de revólveres, eles carregam apenas uma espécie de pager que se comunica com um outro equipamento embutido nos carros dos clientes da Lo Jack. Uma escala eletrônica informa o "caçador" se está perto ou longe do automóvel roubado. Em geral, é possível avistar o veículo procurado quando o sinal está cheio na tela de cristal líquido (como acontece com um celular nas proximidades de uma antena).
O trabalho é tenso, não apenas pela dificuldade de guiar pelas cidades prestando atenção no pager. Os "caçadores" são treinados para agir com o máximo de discrição para não afugentar ou entrar em confronto com os bandidos. Se não tomar cuidado, o "caçador" vira caça. Exemplo disso é a experiência do rastreador que prefere se identificar apenas como Douglas. Ele quase abandonou o emprego na primeira missão, ocorrida há dois anos. Em busca de uma D20, Douglas subiu com sua moto uma favela, em Campinas, no interior de São Paulo, e começou a se aproximar dos barracos, sempre de olho no sinal emitido pelo carro roubado. "De repente, aparece o bandido na minha frente, perguntando o que eu estava fazendo no local", afirma ele, que se viu obrigado a improvisar uma desculpa. "Disse que era funcionário de uma companhia telefônica e o ladrão me mandou sair dali." Douglas, obviamente, obedeceu a ordem e retornou à sede operacional da Lo Jack disposto a pedir demissão. Acabou demovido da idéia. "Uma das nossas maiores preocupações é a segurança dos funcionários", diz Betancur.
Geografia do roubo - A Lo Jack recruta "caçadores" no mercado de vigilância e no Exército. Alguns ex-motoboys também integram o quadro de rastreadores. Na sede operacional de São Paulo, localizada num prédio na zona norte da cidade, os "caçadores" revezam-se em turnos de 12 horas, em troca de um salário de 1500 reais. Matam o tempo nos plantões jogando baralho, numa sala de 12 metros quadrados. O detalhe que chama atenção na decoração é um mapa gigante perfurado por dezenas de alfinetes coloridos. Os amarelos indicam os locais dos roubos, enquanto os vermelhos mostram onde ocorreu a recuperação dos veículos. O quadro forma uma espécie de geografia da bandidagem. Bairros nobres ou com vida noturna agitada - como Itaim, Pinheiros e Perdizes - são os preferidos dos ladrões, que levam a "mercadoria" para os bairros da periferia.
Um dos efeitos do funcionamento das empresas de rastreamento foi o aumento de prisões. "Cresceu em torno de 20% o número de flagrantes", afirma Fernando Augusto, investigador da 1ª Delegacia de Investigações sobre Furtos e Roubos de Veículos e Cargas (Divecar), em São Paulo. Hoje, em vez de levarem o carro roubado direto para um esconderijo, os bandidos deixam o automóvel na rua durante algumas horas - ou até mesmo dias. No jargão policial, eles estão "esfriando" o veículo. Tradução: deixam o carro numa rua qualquer e ficam à espreita para ver se algum policial vem atrás do carro, seguindo uma pista fornecida pelos equipamentos de rastreamento.
Inspirados pelos bandos de seqüestradores, que terceirizam as várias operações contidas na ação criminosa (um grupo realiza o seqüestro, outro cuida do cativeiro e os demais tocam as negociações com a família da vítima), as quadrilhas de ladrões de carros tornaram-se organismos mais complexos. Há um "patrão", como é conhecido no jargão policial o homem que financia a operação, contratando os serviços de vários bandidos. Cada um é encarregado de executar uma etapa da operação e eles não se conhecem, o que dificulta as investigações quando um dos elos cai nas garras da polícia. "Muitas vezes, o bandido não está mentindo quando diz que não conhece o mentor e os outros integrantes da operação", afirma Fernando Augusto, da Divecar.
A experiência fez com que várias das empresas aperfeiçoassem a operação. Muitas companhias usavam os helicópteros de forma ostensiva. Agora esse recurso é utilizado com um pouco mais de discrição. A aeronave some rapidamente, depois de fazer contato visual com o veículo. O motivo: quando percebem que foram descobertos pelos agentes, os ladrões colocam fogo nos carros. "O bandido pensa: se não é meu, não vai ser de ninguém", afirma Carlos Betancur, diretor da Lo Jack. Os funcionários das empresas também são treinados para evitar alarmes falsos. No caso da Ituran, mais de 90% dos chamados de seqüestro são enganos. "Iríamos à falência se nossa equipe saísse à rua em todos os chamados", diz Siqueira.
Um dos pontos que costumam causar mais problemas é o botão de pânico. Trata-se de um mecanismo anti-seqüestro que fica escondido em algum ponto do carro e deve ser acionado pelo cliente nas situações de emergência. O motorista escolhe o local onde o mecanismo deve ser instalado. Alguns optam pelo porta-malas, lugar em que muitos bandidos costumam deixar a vítima. Muitas vezes, porém, o botão anti-seqüestro fica num lugar acessível e ao alcance do motorista.
Em dezembro de 2000, a Ituran recebeu um chamado de seqüestro emitido pelo Mercedes de um empresário em São Paulo. Ele havia dito à mulher que ia ver um jogo entre Palmeiras e Vasco, na zona oeste da cidade. A equipe da Ituran descobriu que o veículo estava parado num endereço na zona sul de São Paulo. Como a esposa da suposta vítima garantira aos funcionários da Ituran que o marido era um sujeito metódico, incapaz de mudar o itinerário sem avisar à família, a equipe de busca começou a ser preparada, até que um outro telefonema, dado pelo segurança do mesmo empresário, desfez a confusão: ele estava no apartamento da amante. O diretor da Ituran, Jairo Norberto Siqueira, ligou para o cliente para fazer o alerta e muni-lo de informações essenciais para enfrentar a esposa na volta. "Disse para ele o seguinte: 'Meu caro, decora rápido aí: o jogo foi 4 a 3 para o Vasco e o Romário marcou três gols'."