QUATRO RODAS - Os chineses vêm aí
Seu comparativo
TOP 10 QR
Os carros mais procurados da semana no site Quatro Rodas
  • Novo Sandero
  • Vezel
  • Novo Fox
  • Duster
  • HB 20
  • Golf
  • Novo Ka
  • Corolla
  • Civic
  • Saveiro cab dupla
  • | A-Z |
Newsletter
Assine a Newsletter QUATRO RODAS
PUBLICIDADE
REPORTAGENS
Os chineses vêm aí
Abril 2006

Os chineses vêm aí

Eles se preparam para desembarcar aqui com preços atraentes e bom pacote de equipamentos na bagagem

Por Alberto Pólo Júnior / fotos: ImageChina e divulgação
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Eles já invadiram países da Ásia, África e Europa e preparam sua investida nos Estados Unidos, na América Central e... no Brasil! Os carros chineses já não são mais "restritos" aos mais de 1,3 bilhão de habitantes locais. Assim como outros inúmeros produtos feitos por lá, começam a ganhar o mundo. E por aqui não devem tardar a chegar. Já em 2007 os primeiros veículos chineses começam a desembarcar em portos brasileiros. A previsão é da Câmara do Comércio e Indústria Brasil-China. De acordo com o presidente da entidade, Charles Andrew Tang, algumas montadoras chinesas já estão negociando com representantes brasileiros sua entrada no mercado nacional. A Abeiva, associação que reúne as importadoras independentes, confirma que já há negociações avançadas entre grupos dos dois países. Por enquanto quatro montadoras orientais são as mais cotadas para vir ao Brasil: Chery, FAW, Geely e Nanjing (leia texto ao lado). Para competir com os nacionais, a arma chinesa será o preço baixo. Estima-se que um automóvel compacto com motor de 1,1 ou 1,3 litro chegue ao país custando entre 20000 e 30000 reais, enquanto um sedã médio ou um utilitário esportivo ficaria entre 40000 e 50000 reais. Mesmo com o imposto de importação de 35%, os valores não ficarão muito longe dos similares nacionais, mas com a vantagem de terem em alguns casos equipamentos de série como ar-condicionado, airbag duplo e até freios ABS.

Para Corrado Capellano, especialista em indústria automobilística da consultoria Roland Berger, o maior desafio das montadoras chinesas não será conseguir um preço competitivo, o que eles já têm, mas sim melhorar a imagem dos seus produtos. "Brasileiro é exigente na hora de comprar carro e não quer só preço baixo. Procura uma marca de confiança, com facilidade de assistência técnica e bom valor de revenda", afirma.

"Os chineses não podem repetir no Brasil o erro de algumas marcas, como Lada, Daihatsu, Daewoo, Asia Motors e Suzuki, que tinham um pós-venda ineficiente, com falta de peças e preço muito alto", diz José Roberto Ferro, consultor automotivo do Lean Institute. "Será necessário um representante brasileiro capitalizado que possa suprir essas deficiências, uma vez que os grupos chineses não contam com muito dinheiro." Ferro acredita que o carro chinês vai ocupar um segmento de entrada e com preço baixo, mas não deve causar preocupação nas montadoras locais.

A qualidade em jogo

Outro fator lembrado por Corrado Capellano é o status. A China sempre foi famosa por fabricar produtos falsificados e de qualidade duvidosa. Como brasileiro preza pela imagem dos seus bens - e gosta de mostrar isso para os outros -, não seria fácil reverter esse quadro. "Hoje o carro chinês não tem qualidade. Tem somente preço", diz Marco Saltini, presidente da Associação de Engenharia Automotiva (AEA). "Tudo indica, porém, que ao longo dos próximos anos esse problema será resolvido. Os chineses estão avaliando os mercados em que pretendem atuar e buscando melhorar seus produtos. Trata-se de um fenômeno normal. O Japão passou por uma situação semelhante na década de 1950, inclusive no aspecto das cópias e imitações, e hoje é uma potência em tecnologia", afirma Saltini.

Quando se fala da qualidade, o que logo salta aos olhos é seu design. Alguns modelos estão longe de ter desenhos atraentes. O carro chinês é um mistura de estilos. Traços da década de 80 convivem com modernos faróis de lentes lisas e lanternas com elementos arredondados. Sem falar que são comuns os vãos irregulares entre portas e carroceria. Tal irregularidade no acabamento se repete no interior, que quase sempre abusa das cores claras nos revestimentos e dos apliques imitando madeira desde os modelos mais baratos.

Mas nem tudo está perdido. De olho em mercados exigentes como o europeu e o americano, os chineses tratam de se mexer para tornar seus carros mais atraentes e confiáveis. Episódios com o que aconteceu com o Jiangling Landwind X6 - reprovado num teste realizado em 2005 pela ADAC (uma associação alemã de motoristas), mostrando que o condutor poderia morrer em uma colisão a apenas 64 km/h - podem ficar no passado. Muitas empresas aproveitam as associações com grandes montadoras ocidentais, obrigatórias a quem pretenda instalar uma fábrica na China, para aprender e absorver novas tecnologias. "O carro hoje pode até ter qualidade um pouco inferior, porém o chinês, além de já lidar com tecnologia de ponta, tem uma grande capacidade de aprendizado. Construir carros com o mesmo nível de coreanos e japoneses é uma questão de tempo", afirma Tang.

A chegada da tecnologia

Capellano endossa as palavras de Tang: "Os chineses se beneficiam de uma indústria globalizada e têm acesso fácil aos mais diferentes fornecedores. Produzir um veículo moderno e confiável não é difícil para eles. É uma tarefa muito mais simples do que a enfrentada pelas montadoras japonesas na década de 70, que sozinhas precisaram desenvolver uma série de componentes".

A Chery, por exemplo, já contratou os renomados estúdios italianos Pininfarina e Bertone para desenhar seus modelos e a empresa austríaca AVL List para desenvolver motores. Seu sedã médio A5 se destaca com linhas bonitas, construção cuidadosa e interior caprichado, recheado de equipamentos, o que inclui até um ar-condicionado digital. O motor 2.0 16V rende 130 cavalos de potência e a suspensão traseira é do tipo multibraço, mais eficiente e de construção mais complexa e cara que as convencionais de eixo de torção.

A Lifan, que produz motocicletas e em 2004 começou a construir automóveis, está em vias de adquirir a Tritec, uma joint-venture entre a BMW e a DaimlerChrysler que produz motores para o Mini e o Chrysler PT Cruiser na fábrica de Campo Largo (PR). Se confirmado, todo o ferramental e produção seriam transferidos para território chinês. A Zhonghua, marca que pertence à gigantesca Brilliance, apresentou há poucas semanas o novo Junjie, um sedã do porte do Vectra, com quatro diferentes opções de motor e estilo arrojado assinado por Pininfarina.

Antes que alguém faça comparações com a Lada, a Abeiva rejeita qualquer semelhança com a marca que trouxe no início dos anos 90 modelos baratos da Rússia. Segundo a associação, a montadora era ineficiente e muito defasada, remanescente do antigo regime socialista. Apesar da situação política parecida, a China de hoje conseguiria produzir produtos bem mais modernos e confiáveis que os antigos Lada.

Mesmo com essa evolução em curso, as montadoras instaladas no Brasil parecem não se preocupar. Consultadas sobre essa provável invasão chinesa, Fiat, Ford, General Motors e Volkswagen não quiseram se pronunciar oficilmente. De fato, por mais que tenha preço, o automóvel made in China deverá ocupar somente alguns nichos dentro do mercado brasileiro. Além de ter que mudar a imagem do produto chinês e de superar as dificuldades da logística, os importadores terão que enfrentar o fenômeno dos flex, que representam 80% das vendas e estão presentes em quase todas as categorias de veículos nacionais.


Marcas

Chery - Começou a montar seus carros em 1999. Dois anos depois, se associou à Shangai, maior fabricante do país, e viu sua produção triplicar. Quer entrar, entre 2007 e 2008, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Expôs nos últimos Frankfurt e Detroit.

FAW - A First Automobile Works é o maior conglomerado automobilístico da China. Fundado em 1953, conta com 35 fábricas, 11 subsidiárias e 14 joint-ventures. Tem associações com Audi, Mazda, VW e Toyota.

Geely - Além do Brasil, negocia com Colômbia e Venezuela e quer entrar nos Estados Unidos em 2008. Também montou estande em Detroit e Frankfurt. Fundada em 1986, hoje produz 200000 veículos e quer crescer 50% nos próximos anos.

NaNjing - Representante da Fiat na China, onde monta Palio, Siena e Weekend, exporta para mais de dez países, incluídas Argentina, Espanha e Itália. Também possui sua própria linha de veículos, com a marca Soyat.


A novela do clone

A China sempre se destacou como sendo o país número 1 em falsificações. Tênis, roupas, aparelhos eletrônicos, brinquedos e CDs encabeçam a lista, mas quem poderia imaginar que a pirataria um dia chegaria aos automóveis? Pois chegou. O primeiro caso veio à tona em 2003, quando a Chery apresentou o compacto QQ, uma cópia do Chevrolet Spark - que já foi o Matiz, da Daewoo, empresa que, falida, vendeu parte do projeto original aos chineses. A GM ingressou com um processo de plágio contra a fábrica chinesa, perdeu em primeira instância e desistiu da ação. Na mesma Chery, o utilitário Tiggo conseguiu a proeza de copiar dois concorrentes de uma só vez: a frente veio do Honda CR-V e a traseira do utilitário Toyota RAV4. "Esses episódios contribuem negativamente para a imagem dos carros chineses. Assim como no Brasil, o automóvel é um sinônimo de status em diversos países do mundo. E ninguém quer andar com algo que possa soar como falsificado", afirma o consultor automotivo Corrado Capellano. A lista não pára por aí. Na marca Byd, o Corolla foi a fonte para concepção do sedã médio F3 e o BMW Série 7 para o sedã grande F6. Em ambos, traseira e dianteira são parecidos, com faróis e lanternas de linhas bem semelhantes. Já a Great Wall pegou emprestada a dianteira da Nissan Frontier para sua picape Sailor e o utilitário esportivo Opel Frontera foi a base para o Landwind X6. Há, contudo, os clones autorizados, isto é, modelos produzidos sob licença com outras marcas. Os Toyota Yaris e Echo são produzidos pela FAW sob a marca Xiali e com os nomes de Vizi e Vela. Pela mesma FAW, os Mazda 3, Premancy e MPV recebem a marca Haima.





» FOTOS