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REPORTAGENS
Augusta nos anos 60 e 70
Dezembro 2011

Augusta nos anos 60 e 70

A famosa rua paulistana era ponto de encontro dos jovens e de suas máquinas

Por Arnaldo Keller
Lista de matÉrias por data:

TAMANHO DA LETRA  

Quem passa hoje pela Augusta, uma das mais paulistanas ruas, não imagina que sua fama teve início nos anos 60, quando se tornou cenário perfeito para a paquera. O quente era o trecho entre a alameda Santos e a rua Estados Unidos, mas fervia mesmo no miolo, na altura da Oscar Freire.

Circular pela rua Augusta naquela época era a chance de conferir as novidades da moda, da música e, principalmente, dos carros e das motos. E de apreciar as moças também, pois era para lá que elas se dirigiam para testar seu poder de atração. Ter um carro legal ou uma moto e não ir para a Augusta no sábado era algo inimaginável. Muitos carrões e motos foram comprados tendo essa espécie de desfile como objetivo. Era uma agitação provinciana. Mas era bom e divertido.

Ao longo da rua, os amigos se encontravam, a paquera era liberada, e desejada, em meio ao ronco dos motores dos carros que, nesse ritual, vagarosamente a subiam e desciam, com paradas constants para conversas entre os ocupantes dos carros e, objetivo maior, trocas de telefones.

A fama da rua cresceu tanto que em 1963 ela se transformou até em sucesso musical - chamado, claro, "Rua Augusta", composição de Hervé Cordovil na voz de Ronnie Cord. E a rua passou a abrigar um monte de lojas boas, que atraíam as moças bonitas. Atrás delas, os rapazes. Havia, por exemplo, a Old England, de roupas finas, a Spinelli e a Adriano, com sapatos feitos sob medida, a Rastro, loja de perfumes, a Tobb’s, de importados, que vendia perfumes como Lancaster e Pino Silvestre, além de calças Lee e chicletes Wrigleys.

No sábado de manhã, as moças iam para os salões de beleza. Depois de arrumadas, saíam para desfilar pelas calçadas da Augusta, entrando em todas as lojas para comprar ou só mesmo para conferir as novidades. Enquanto isso, a rapaziada ia chegando com suas máquinas reluzentes, limpinhas, pneus e cromados brilhando.

E quem saía às compras também queria comer. Surgia então a Flamingo, com seu famoso Choco Lamour, sorvete que vinha com uma exclusiva farofa crocante que ficou tão famosa quanto a rua. Havia a primeira hamburgueria, a Hamburger, uma novidade, pois até então só havia o pão com bife; a Iara, uma casa de chá onde, num tête-à-tête regado a chá e a docinhos, chegava-se a um clima mais romântico. Também o Frevinho, na Oscar Freire, quase esquina com a Augusta, onde o chope gelado animava a comemoração das conquistas da moçada. Na Augusta, tudo acontecia.

Fumaça espantava
Para os rapazes, ter carro ou moto, as armas ideais de atração, era uma questão de vida ou morte. Carro era melhor porque a maioria das meninas tinha medo de andar de moto. Os carros esportivos eram os que davam os melhores resultados. Se fosse conversível, então, era tiro e queda. O felizardo só ia juntando os papeizinhos que choviam com o número de telefone das gatas. E havia certas regras naquele delicioso caos. O veículo não podia parecer que era da família. Tinha que ter aparência de carro de jovem. As moças eram liberadas para irem com o dos pais, já que não era comum terem carro próprio na época. Muitas lotavam modelos como Corcel quarto portas, Galaxie, Esplanada. Pegar uma carona com elas como único homem a bordo era o máximo.

Se o rapaz fosse para a Augusta de Aero-Willys, por exemplo, era roubada. Itamaraty também. Eram típicos carros de "coroa". O Simca Chambord proporcionava bons resultados igualmente, já que seu motor V8 roncava legal, além de ter reluzentes detalhes cromados. Já a versão perua, a Jangada, nunca. DKW sedã? Ok, desde que a dosagem de óleo no motor dois-tempos estivesse certa, caso contrário, a fumaceira espantava.

FNM JK era chique, Corcel cupê era legal. Ainda mais se fosse o Corcel Bino, que tinha motor preparado e painel completo, com conta-giros e tudo mais, além das rodas de magnésio de gomos de mexerica, feitas pela oficina Bino. Volante Panther, escapamento Kadron, buzina Fiamm de três cornetas e toca-fitas K-7 Mecca eram outros itens incrementados. Mas a maioria possuía Fusca, mesmo, porque era o mais barato e tinha vários acessórios para lhe dar uma aparência prafrentex.

Uma envenenada no motor era de lei, com dupla de carburadores Weber, taxa de compressão mais alta - o que implicava usar gasolina azul, de maior octanagem que a amarela - e comando bravo. Não era raro ver Fusca deixando para trás carrões como Mustang ou Camaro. Um maluco tinha um Renault 4 CV, que era conhecido como Rabo-Quente. Ele arrumou uma borboleta do tipo de dar corda em despertador, só que enorme, e a grudou na capota do carrinho. A cada dois quarteirões ele descia do carro e "dava corda". Engraçado - e fazia um tremendo sucesso com as meninas.

Os motociclistas não usavam capacete, a fim de serem vistos pelas moças. A novidade eram as motos japonesas, diante das que dominavam até então, as europeias e americanas BMW, Ducati, Triumph, Harley-Davidson, Indian. Vieram as Honda, das pequenas cinquentinhas às 350 e 450. Isso até chegar a Honda 750 Four, só desafiada, mas não suplantada, pela Yamaha 650, de motor quatrotempos e dois cilindros. Vieram as Suzuki de motores dois-tempos, e a 550 GT, de três cilindros, que não devia nada para a 750 Four. A Yamaha trouxe as primeiras scramblers, 250 e 350, dois-tempos.

Em 1966, foi inaugurado o Shopping Iguatemi. Em 1976, o Shopping Ibirapuera. Frequentá-los virou moda e a rua foi perdendo toda agitação, embora tenha mantido sua fama. Quem viveu aqueles tempos reclama que hoje os carros não são coloridos como os da época, lamenta que o sol não faça mais bem e que o ar-condicionado mantenha os vidros fechados, tornando a paquera mais difícil. A rua Augusta, porém, continua lá.


Embalos de sábado à noite: quanto mais parado, melhor.



O PAPO FIRME DA ÉPOCA

Bacana
- bom, bonito ou legal
Barra limpa - tudo liberado, livre
Bater um fio - fazer um telefonema
Boa-pinta - rapaz bonitão
Broto - menina jovem, bonita
Cafona - de mau gosto, brega
Calibrado - alcoolizado, de cara cheia
Calhambeque - carro velho
Carango - carrão
Chapa - companheiro, amigo
Chuchu - garota boazuda
Duca - excelente, ótimo
É uma brasa, mora! - muito legal
Na fossa - para baixo, em depressão
Gamado - apaixonado
Largar brasa - acelerar o veículo
Lelé da cuca - louco, biruta
Farol baixo - pessoa deprimida, triste
Mamão com açúcar - fácil, tranquilo
Pacas - bastante, muito
Pão - homem boa-pinta
Papo firme - pessoa legal
Patota - turma de amigos
Pé na tábua - acelerar
Pode vir quente que eu estou fervendo - preparado para tudo
Prafrentex - metido a moderno
Quadrado - conservador
Sebo nas canelas - rápido
Tremendão - rapaz prafrentex, bonitão





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