Vida de segurança: tiros, fugas e reações ao volante

Para proteger seu cliente, os seguranças motorizados aprendem a escapar de tiros, a sair de carro capotado e até o que fazer se forem jogados no porta-malas

Os tiros de paintball simulam o stress de ser alvejado na rua

Os tiros de paintball simulam o stress de ser alvejado na rua (Roberto Setton)

* Reportagem originalmente publicada em abril de 2008.

O dia mal amanheceu e um pelotão de carros – todos pretos – parte seguindo uma picape, dirigida pelo único a saber o caminho e o destino. Após quase meia hora de curvas sinuosas, estradas estreitas e de terra batida, chega-se a um portão, onde um segurança aguarda, com um rádio na mão. Há uma casa ao fundo e uma mata, mas o Opala cravejado de balas e os alvos para tiros entregam: esse não é um sítio comum.

Assim é o centro de treinamento da Bodyguard, empresa especializada em treinar de seguranças. Naquela manhã, o “exército” a ser preparado era formado por 18 agentes de segurança de uma grande empresa de Amparo (SP), cuja missão diária é conduzir e escoltar os carros dos diretores.

Ao volante, eles precisam estar prontos para defender a vida de quem está no banco de trás. E, para isso, passam por exercícios por vezes mais intensos e inusitados do que se imagina.

Para fugir do perigo, eles treinam frenagem e cavalo-de-pau

Para fugir do perigo, eles treinam frenagem e cavalo-de-pau (Roberto Setton)

“Nos últimos anos tem aumentado muito a demanda por esse tipo de treinamento, tanto dos seguranças quanto dos próprios diretores de empresas, que querem aprender a dirigir veículos blindados”, diz Robson do Prado, instrutor da Bodyguard. Em uma sala de aula, o curso começa com todo o conteúdo teórico.

“Não tem pra Iraque, Afeganistão, Faixa de Gaza não. O país mais violento do mundo é aqui”, diz Robson, que mantém a atenção dos alunos por três horas com números de homicídios e acidentes de trânsito, fotos de tiros e mapas de locais violentos em São Paulo e Rio de Janeiro. Sobre a mesa, armas de vários calibres. Depois vem a tão esperada parte prática.

O primeiro exercício ocorre ainda em um aparelho inusitado: um simulador de capotagem. Fixado a uma base giratória, um Ford Escort permite aos passageiros experimentarem a sensação de uma capotagem. “Tenho um curso específico só para ensinar como sair de um carro capotado. Aí eu encho o carro de caixa, livro, tudo o que imaginar, pra eles aprenderem a não levar objetos soltos no carro”, diz Robson.

Dispositivo simula a capotagem de um carro

Dispositivo simula a capotagem de um carro (Roberto Setton)

Alunos precisam aprender a se virar para sair de um carro de ponta cabeça

Alunos precisam aprender a se virar para sair de um carro de ponta cabeça (Roberto Setton)

De lá, o comboio de carros parte para um kartódromo, onde os alunos dão início aos exercícios de slalom, desvio de obstáculo e frenagem. Depois das manobras mais simples, os alunos praticam situações evasivas, como fuga, cavalos-de-pau e reversão de ré.

Para tornar o clima ainda mais real, os instrutores utilizam fardas, máscaras e armas de paintball – que ajudam a simular a adrenalina de ser alvejado e a baixa visibilidade de um vidro blindado atingido por tiros.

No curso, o motorista deve se habituar a reagir com uma arma apontada

No curso, o motorista deve se habituar a reagir com uma arma apontada (Roberto Setton)

Depois os alunos aprendem como se posicionar caso sejam obrigados a entrar no porta-malas do veículo. “Tem que proteger o pescoço e flexionar as pernas assim”, diz Robson, usando um dos seguranças como exemplo. E, enquanto o rapaz está no porta-malas, outro assume o volante e se encarrega de manobras bruscas e gritos para simular uma perseguição.

Há técnica até para ficar preso num porta-malas, como aprendeu o repórter

Há técnica até para ficar preso num porta-malas, como aprendeu o repórter (QUATRO RODAS)

“Já fiz cursos como esse, mas é sempre bom quando temos a chance de fazer outra vez. É quando a gente tem a oportunidade de testar nossos limites na prática”, diz Elisângela Silva, única mulher da turma, que começou como vigia da empresa e acabou sendo promovida ao corpo de seguranças.

Se por um lado sente a desconfiança por parte de alguns, ela crê que o fato de ser mulher às vezes ajuda. “Algumas diretoras preferem trabalhar comigo, principalmente as que têm crianças, porque sabem que tenho mais jeitinho”, diz.

A segurança Elisângela: "Mulher tem mais jeitinho"

A segurança Elisângela: “Mulher tem mais jeitinho” (Roberto Setton)

A adrenalina do treino raramente se repete no dia-a-dia: é consenso entre todos que, quanto mais atento ao volante estiver o segurança, menos situações de risco ocorrerão. “Tive que reagir só uma vez, quando trabalhava para um banco. Em São Paulo, próximo à avenida Paulista, abordaram o carro que eu escoltava. Tive que atirar no bandido”, diz Luciano Nogueira.

Ele afirma que o fato foi um divisor de águas em sua carreira. “É um momento difícil, porque, por mais que a gente esteja preparado, nunca sabe como vai reagir quando realmente precisa.” E, para os apaixonados por carro, essa tensão é recompensada pela oportunidade única de dirigir carrões.

“Alguns diretores têm Porsche, Land Rover, BMW… Em algumas viagens, eles deixam a gente dirigir esses carrões. Mas é para poucos, uma espécie de prêmio para os motoristas de confiança”, diz um dos seguranças, que prefere não se identificar – para não despertar a inveja dos colegas.

Coitado do cachorro

Cabelos e bigodes brancos, Manoel Ramos, 76 anos, talvez não desperte a menor suspeita de ser um agente de segurança. Dentre os mais de 340 agentes do Tribunal de Justiça de São Paulo, ele é o mais insuspeito. Quem olha acha que ele nunca teria o ímpeto de reagir a um assalto. Pois já reagiu a três – um deles em serviço.

Manoel Ramos: 76 anos e reação em três assaltos

Manoel Ramos: 76 anos e reação em três assaltos (Roberto Setton)

Há alguns meses, quando levava um desembargador, foi abordado por um ladrão no cruzamento da avenida Ipiranga com a São Luís, no centro de São Paulo. “Quando percebi que ele não estava armado, pedi calma e disse que ia pegar o dinheiro. Aí me atraquei com ele. Puxei o braço dele com força, acho que consegui quebrar. Acabei me machucando um pouco”, afirma.

Ramos trabalha como agente de segurança do Tribunal desde 1978 – quando a frota era composta por Ford Galaxie e Willys Itamaraty e se andava com os vidros abertos.

Sempre de terno, Ramos faz questão de chamar os desembargadores de Sua Excelência. “Alguns não admitem que você esteja sem paletó. Outros não gostam que você ligue o rádio… Cada um tem seu jeito, a gente tem que respeitar”, diz.

Ramos leva a sério a máxima de que sua missão é garantir a segurança do passageiro, a qualquer custo. Ele conta que uma vez levava um desembargador a Marília (SP). Sob forte chuva e em alta velocidade, de longe ele viu um cachorro na estrada. Não teve dúvida: manteve o pé no acelerador e passou por cima do animal.

Questionado pela esposa do desembargador, compadecida do animal, Ramos respondeu firme: “Não podia não, senhora. Se tento desviar, na contramão, coloco em risco a vida da senhora, a do seu esposo e a minha também. E digo mais: se fosse um ser humano, faria o mesmo”. A viagem prosseguiu, em silêncio.

 

Papo de segurança

Ao estacionar, mantenha distância do veículo da frente, para que possa sair sem muita manobra. O ideal é que seja o suficiente para ver os pneus traseiros do carro da frente até o chão

Ao estacionar, mantenha distância do veículo da frente, para que possa sair sem muita manobra. O ideal é que seja o suficiente para ver os pneus traseiros do carro da frente até o chão (QUATRO RODAS)

A vítima mais fácil de um assalto ou seqüestro é aquela que está dentro de um carro estacionado. Se estiver aguardando alguém, desça do carro, tranque-o e espere longe dali

A vítima mais fácil de um assalto ou seqüestro é aquela que está dentro de um carro estacionado. Se estiver aguardando alguém, desça do carro, tranque-o e espere longe dali (QUATRO RODAS)

Em um semáforo, evite parar na primeira e segunda filas e na pista da esquerda, que são as preferidas em abordagens. Prefira a faixa do meio e a da direita, a partir da terceira fila

Em um semáforo, evite parar na primeira e segunda filas e na pista da esquerda, que são as preferidas em abordagens. Prefira a faixa do meio e a da direita, a partir da terceira fila (QUATRO RODAS)

Caso um ladrão peça para você descer do carro, não faça movimentos bruscos. Ao soltar o cinto, use a mão esquerda, para evitar que o cinto fique preso em seu braço e assuste o assaltante

Caso um ladrão peça para você descer do carro, não faça movimentos bruscos. Ao soltar o cinto, use a mão esquerda, para evitar que o cinto fique preso em seu braço e assuste o assaltante (QUATRO RODAS)

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