JPX: a aventura de Eike Batista na indústria automotiva

Jipe fabricado em Minas Gerais era bom no fora-de-estrada. Quando não fervia.

Antes do Grupo EBX – conglomerado com empresas ligadas a geração de energia, extração de petróleo, logística, construção naval e mineração de ferro –, entrar para o rol dos mais ricos do mundo e bem antes de ver seu império ruir, o empresário Eike Batista, hoje investigado por corrupção ativa, se aventurou na indústria automotiva. Ele fabricou um jipe no Brasil.

O ano era 1992. Àquela altura, Eike tinha 36 anos e já havia se tornado milionário com comércio e mineração de ouro e diamantes na amazônia. Com o Jeep Willys fora de linha havia 10 anos, a necessidade um utilitário para uso nas plantas de mineração que também atendesse ao mercado nacional fizeram o empresário comprar os direitos para produção do francês Auverland A-3 no Brasil.

JPX montez

Montez da primeira fase: motor 1.9 diesel rendia modestos 71 cv (Divulgação)

Com poucas mudanças no projeto original, nascia o JPX Montez. A empresa alugou a antiga fábrica de máquinas de escrever e calcular da Facit, em Pouso Alegre (MG) e ali iniciou em 1993 a produção do utilitário. A promessa era de que 250 carros seriam fabricados por mês, mas durante o primeiro ano a média foi de 120 carros mensais. 

A carroceria de aço era produzida pela vizinha Brasinca, enquanto o chassi e parte da suspensão eram fabricados pela própria JPX. O motor 1.9 diesel de modestos 71 cv (ou 90,5 cv e 17,4 mkgf com turbo adaptado) e o câmbio eram da Peugeot. As caixas de redução e transferência Auverland também vinham da França, enquanto os eixos e diferenciais Carraro e os freios eram italianos. A JPX dizia que, em valores, 70% do carro era nacional. 

Luma de Oliveira no jipe JPX de Eike Batista, seu marido até 2004

Luma de Oliveira no jipe JPX de Eike Batista, seu marido até 2004 (Paulo Jares)

A concepção era interessante: suspensão com molas helicoidais e eixos rígidos pivotados ao chassi por pino central (ângulos chassi-eixos chegava a 30°), motor atrás do eixo dianteiro (permitindo uma melhor distribuição de peso) e sistema de tração 4×4 que poderia ser engatado e desengatado com o carro em movimento eram predicados. Ar condicionado, guincho elétrico e quebra-mato eram oferecidos como opcional e havia opção de capota de lona e de fibra, esta com ou sem turbo. 

A prova de fogo veio na Quatro Rodas de maio de 1996, quando o JPX Montez foi comparado ao seu principal concorrente, o Toyota Bandeirante. E venceu. Além de mais barato, forte e bem equipado”, o Montez se saia um pouco melhor no fora-de-estrada, mais pela suspensão mais confortável e moderna (até porque o Bandeirante já tinha 37 anos) do que pelo motor. O JPX completo custava R$ 27.600 na época, enquanto o Toyota saía por R$ 30.400. 

Comparativo JPX Montex, Toyota Bandeirante

Quatro Rodas, abril de 1996

A ambição de Eike Batista era tamanha que o JPX Montez chegou a à França: foi atração do Salão de Paris de 1994.  Ele também sinalizava preocupação com o pós-venda ao ter em cada carro um cartão magnético que armazenaria o histórico do veículo, agilizando o atendimento – algo muito semelhante ao que se vê hoje em marcas premium.

Seria tudo muito bom se, na prática, o negócio funcionasse. Mas os motores com turbo adaptado superaqueciam com facilidade. Radiador maior e duas ventoinhas apareciam em meados de 1995 para tentar resolver o problema, que só seria sanado em 2000 quando o JPX passaria por facelift, ganhando motor 1.9 com turbo e intercooler instalados pela própria Peugeot.

JPX Montez 2000, já com design atualizado

JPX Montez 2000, já com design atualizado

Àquela altura, os jipes de Eike Batista já tinham imagem tão manchada quanto a do empresário depois da quebra da OGX (sua empresa de extração de petróleo). Os defeitos do carro e o atendimento das concessionárias, que nem sempre eram bem relacionadas com a fábrica, afastavam compradores.

JPX Montez

Painel bastante simples do JPX Montez (Reprodução)

O fechamento da fábrica de Pouso Alegre era anunciado na Quatro Rodas de fevereiro de 2002, um ano depois da produção ter sido paralisada. A alegação era de que a alta do dólar teria encarecido os componentes importados (que poderiam ter sido substituídos por componentes nacionais). Foram produzidos aproximadamente 2.800 carros ao longo de 8 anos, 450 deles entregues ao Exército Brasileiro.

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  1. Que todos paguem o preço da injustiça praticada com o cidadão de bem que paga 100% de impostos sobre tudo que compra.

  2. Julio cesar Da Silva

    Com certeza a comparação com o Toyota bandeirante foi manipulada e com certeza os jipes que foram vendidos para o exército foram super faturados

  3. Ralfo B B Penteado

    A grande questão de tudo é a origem dos diamantes e ouro, garimpos ilegais ( e todo aquele clima de pisyolagem) provenientes do trabalho excelentes DOCEGEO (Valle do Rio Doce) aberta e fechada pelo papai Eliezer cujo inventário do subsolo ( da UNIÃO, nosso) sumiu. Se o capital fosse dele…

  4. “450 deles entregues ao Exército Brasileiro” esquemas com o governo parece ser a especialidade desse sujeito. O professor deve ter sido bom.

  5. Nogueira Marmontel

    Infelizmente, isso aconteceu na cidade onde moro…
    Definitivamente, não sou o cara mais esperto e nem o mais bem informado do mundo, mas desde que o Eike Batista começou se dizer como futuro mais rico do mundo, uns 10 anos atrás, eu já dizia aos meus amigos que não aplicaria um tostão de minhas minguadas economias nas ações das empresas dele. Não sou de me deixar levar pela conversa mole de um malandro com ideias mirabolantes.