
O programa Overhaulin', exibido pelo canal de assinatura Discovery Channel (segunda-feira, às 20h) completa seu segundo ano por aqui. Nos Estados Unidos o programa é produzido e exibido pelo The Learning Channel (TLC) e chega à quarta temporada este mês.
Até hoje, foram modificados 47 carros, selecionados entre mais de 15000 cartas enviadas pelos telespectadores, segundo Mark Finkelpearl, produtor executivo do programa. Sem revelar números, ele parece mais que satisfeito com a audiência. "Chip Foose trouxe um novo público, louco por carro, mas que não costumava passar pelo nosso canal", afirma. O horário em que o programa vai ao ar é outro indicativo de sua importância para a rede: 8 da noite de terça-feira, o horário nobre das redes de TV americanas.
A fórmula do programa é engenhosa, mas invariável. O talento de Chip faz a ponte entre o desespero de quem acha que teve o carro de estimação roubado e a felicidade incontida diante das câmeras ao reencontrar o possante totalmente reconstruído. Não raro, o criador chega às lágrimas junto com o dono do carro e os apresentadores do programa, o ator Chris Jacobs e a bela Adrienne Janic.
Filho de um especialista em restauração e projeto de veículos especiais, desde garoto Foose desenhava carros ao lado do pai, Sam Foose, respeitado construtor de hot rods em Santa Barbara, Califórnia. Seu primeiro trabalho, aos 13 anos, foi pintar e transformar um Porsche 356. Desde o início voltou-se para a customização até esbarrar em Alex Tremulus, um dos criadores do Tucker, projeto revolucionário do fim dos anos 40. Alex o incentivou a procurar formação para transformar seus desenhos e croquis em projetos reais.
Nesse ponto, a biografia de Chip Foose gera uma polêmica. Oficialmente, formou-se com louvor no Art Center College of Design, em Pasadena, Califórnia, uma escola tradicional de design automobilístico. Já a versão corrente entre seus detratores é que seu gênio não permitiu que ficasse por mais de dois anos preso aos bancos acadêmicos. Porém, ninguém questionou seu talento ao desempenhar a função de designer chefe e projetista na Asha Corporation, especializada em carros-show, no início dos anos 90, época em que desenhou até carrinhos do golfe, algo um tanto distante de seus anseios criativos.
O jogo começou a virar quando Chip voltou a trabalhar com hot rods. A personalidade de suas criações logo criou fama na Califórnia. Temperar o visual dos velhos Ford com toques futuristas atraiu os olhos da indústria do cinema. Seu primeiro sucesso no cinema foi transformar o então recém-lançado Taurus num carro do futuro para contracenar com Robocop. Anos antes, ele já havia tentado adivinhar o futuro com os veículos da sombria Los Angeles do filme cult Blade Runner - sem tanto sucesso.
Mas o carro que o elevou à condição de estrela viria em 2000, no remake do filme 60 Segundos, estrelado por Nicholas Cage. Sua recriação do Mustang Shelby GT 500 1967 (no filme original, de 1974, era um Mustang Mach 1), apelidado de Eleanor pelo personagem principal, encerrou o século 20 como objeto de desejo pelos quatro cantos do mundo. Acessórios de fibra de vidro e uma emblemática pintura cinza adornavam as linhas do Mustang de segunda geração. Saídas de escape laterais traziam uma agressividade já vista no Dodge Viper, num flagrante desafio às autoridades americanas, muito rígidas quanto a emissões de poluentes e ruídos.
Da tela para as ruas foi um pulo. E Chip Foose associou-se a uma empresa do Texas, a Unique Motorsports (proprietários da Unique Performance, empresa que vende quatro modelos de carros com a marca Foose), para criar uma versão real do carro. Bastava encontrar sucatas de Mustang Fastback 1967 e restaurá-las até poderem receber uma mecânica forte e suspensões atualizadas, tudo para melhorar a dirigibilidade do modelo original, considerada um ponto fraco. A receita do Eleanor foi copiada no mundo inteiro, até no Brasil. E se ele podia recriar carros como aquele, ajudando no estilo com suas idéias pouco ortodoxas, por que não ter uma empresa dedicada a essa tarefa?
Em 1998, de volta a Los Angeles, Foose cria sua própria empresa de projetos, a Foose Design, na praia de Huntington, para competir no lucrativo mercado dos carros customizados, dominado na época pela também californiana West Coast Customs. A idéia também agradou os produtores do programa Rides, da TLC, uma série dedicada aos desafios e sucessos dos fabricantes de carros artesanais, em formato de reality show. Logo Chip Foose e suas criações ganharam espaço na primeira temporada da série, em 2003. Chip e sua equipe eram apresentados como um time capaz de criar desenhos alucinados e, sem a ajuda de um computador, transformá-los em carros de verdade. O mais famoso projetos foi um Ford Thunderbird, criado para ser a estrela do SEMA Show em Las Vegas, o maior evento mundial de carros modificados.
3000 dólares
Aparições na televisão - Foose é dos poucos que têm cadeira cativa no talk show de Jay Leno (também respeitado colecionador, com 160 veículos, entre hot rods e carros custom), um dos mais populares nos Estados Unidos - ajudaram a propagar a grife do designer. Faltava apenas um programa próprio. A oportunidade surgiu em 2004, com o reality show Overhaulin', no qual o talento do criador é colocado à prova pelo pouco tempo e baixo orçamento para realizar os projetos. O serviço tem que ser realizado em uma semana e com orçamentos em torno de 3000 dólares. Bem diferente do pioneiro Pimp My Ride, programa estrelado pela concorrente West Coast Customs, em que o dinheiro é injetado pelas montadoras americanas e japonesas e com a iconoclastia típica das estrelas do hip hop. Já em sua quarta temporada na MTV americana, é divertido, mas a América conservadora queria outros valores.
O resultado obtido pela equipe de Foose vai muito além da mesmice dos kits aerodinâmicos que assolam o mercado de tuning. E, sempre que possível, os projetos contêm algum elemento da personalidade do dono do carro, traduzida pelo cúmplice da produção que participa da farsa do bem. Apesar do sucesso na TV e das versões especiais com sua marca, Foose afirma ter um sonho não realizado. Sua meta é lançar uma versão oficial de um fabricante americano com sua assinatura. Rumores dão conta que está em negociação avançada uma parceria com a General Motors. Verdade ou não, o fato é que a associação poderia ser interessante para todos. A GM receberia uma boa dose de tônico rejuvenescedor e Foose teria seu trabalho finalmente reconhecido pela "academia" automobilística. E o público? Bem, a legião de fãs poderia parar de sonhar acordada diante da TV e se dirigir ao revendedor mais próximo.




