COLUNALEMYR MARTINS

GP da Alemanha 2008, corrida - Três em uma

Lewis Hamilton subiu no degrau mais alto do Grande Prêmio da Alemanha e, mais do que isso, podemos dizer que ele ganhou as três corridas que disputou na tarde deste domingo.

A primeira foi até a entrada do safety car, na 36ª volta, motivada pelo forte acidente de Timo Glock, traído pela quebra da roda de seu Toyota. Até ali Hamilton não tomou conhecimento de nenhum adversário. Largou muito bem e foi aumentando a diferença para Felipe Massa, que chegou aos 11 segundos, batendo e repicando as voltas mais rápidas da corrida. Uma performance que tornou o GP alemão monótono, com a supremacia categórica do McLaren MP4-23 sobre a Ferrari.

Já a segunda vitória de Lewis Hamilton, na parte final da corrida, foi mais difícil. Porque para consagrá-la, ele se viu obrigado a concretizar o terceiro triunfo, que foi superar o erro tático dos engenheiros da McLaren, que o mantiveram na pista enquanto os rivais da Ferrari e os demais pilotos foram chamados para o segundo pit stop, aproveitando a permanência do safety car na corrida.

A McLaren, então, só deixou uma opção a Lewis Hamilton. Ele tinha que ser estupendo. E superou o desafio.

Fez o pit stop na 50ª volta, retornou à pista em 5º, passou a 4º com a parada de Nick Heidfeld e, em seguida, teve a porta aberta pelo parceiro Heikki Kovalainen. Aí, disparou para cima de Felipe Massa, que era o segundo, atrás do líder Nelsinho Piquet.
Foi o momento de maior suspense em Hockenheim. Em cinco voltas, Lewis tirou a diferença e colou na Ferrari de Massa, numa briga que valia, além da vitória, a liderança do campeonato. Instantes em que esteve presente a valentia e a obstinação de Lewis contra a determinação e resistência de Massa.

Venceu Lewis, executando a ultrapassagem na 56ª volta – das 67 da corrida --, numa manobra em que o risco de colisão esteve iminente. Ele só venceu Massa depois de dois chega pra lá – lícitos, vale dizer – no brasileiro.

O último ato da vitória de Hamilton, que era vencer o surpreendente Nelsinho Piquet, aconteceu na  59ª volta. Dobrou o brasileiro que fez uma bela corrida, usando a tática de apenas um pit stop e aproveitando inteligentemente a entrada do safety car, liderando a corrida desde a 53ª volta.

Piquet foi muito competente. Não tomou conhecimento da ameaça de Felipe Massa, tocando sempre na mesma balada e, até, livrando preciosos décimos da Ferrari. Foi um pódio merecido, consagrado pela paciência e a competência de andar a maior parte da corrida com o Renault pesado.

A vitória de Nelsinho só não aconteceu porque nenhum piloto conseguiria resistir ao espetacular Lewis Hamilton neste GP da Alemanha.

Louve-se a superioridade dos McLaren sobre as Ferrari em Hockenheim, mas foi nas mão – e nos pés – do inglês que o MP4-23 tornou-se um míssil imbatível.
De qualquer forma, Nelsinho Piquet subiu ao pódio, em segundo lugar, na sua 10ª corrida, 11 antes do pai tricampeão, que foi 2º no GP da Argentina de 1980.

Mas o melhor da festa de Hockenheim é que o campeonato continua aberto e aceso. Pois, mesmo com todo o show Hamilton lidera com 58 pontos, 4 à frente de Massa e 7 de Raikkonen,.

A promessa, portanto, é de muitas atrações para o GP da Hungria em 15 dias.

GP da Alemanha 2008, Treinos: Missão particular

Claro que toda pole position é importante em qualquer corrida da Fórmula 1, mas o feito que Lewis Hamilton cravou em Hockenheim, para o Grande Prêmio da Alemanha, além refletir sua boa vantagem técnica, tem também o aspecto psicológico.

A marca de 1’15”666, 215 milésimos melhor que o tempo de Felipe Massa, segundo no grid, coloca o piloto inglês em privilégio no início da segunda metade da temporada. Uma etapa que começa como se fosse um novo campeonato, com Lewis, Massa e Raikkonen empatados em 48 pontos, sendo que os três têm Robert Kubica nos seus retrovisores, com 46.

Outro fato relevante desta 10ª prova do ano é que a McLaren demonstrou que está, no mínimo, em condições iguais à Ferrari, ratificando a boa performance que Hamilton vinha conseguindo com o MP4-27, desde os treinos da semana anterior, no circuito alemão.

Outro fato preocupante para a Ferrari é a sexta posição de Kimi Raikkonen no grid. O finlandês foi batido, além de Lewis e Massa, por Heikki Kovalainen, Jarno Trulli e Fernando Alonso. Aí pode se especular que Trulli e Alonso, partam com seus Toyota e Renault, mais leves. Raikkonen tem como característica principal evoluir muito na corrida, mas é visível que o finlandês não está em boa sintonia com a sua Ferrari na pista alemã.  

Também é interessante salientar que a pista de Hockenheim não tem nenhuma característica especial que favoreça determinada equipe ou carro. É um circuito rápido, com a média de corrida de 195 km/h, bons pontos de ultrapassagens, um miolo de média velocidade  – no trecho do Stadium – e demais curvas e retas sem mistério.

Portanto, tanto Ferrari, McLaren ou BMW podem propiciar a seus pilotos a chance de despejar toda potência da máquina e o talento de condutor. Porque, nesta altura do campeonato, logicamente, o ideal é vencer, mas o crucial é não deixar de pontuar, porque a disputa será ponto a ponto, até o fim da temporada.

Daí o desafio ser igual aos três favoritos ao título, mas cada qual com uma missão particular neste GP da Alemanha: Hamilton larga para ratificar a ótima corrida da Inglaterra, Massa para se redimir das rodadas e Raikkonen para sincronizar-se com sua Ferrari.

De quebra ainda temos Robert Kubica, obrigado a provar que está vivo para o título, e Heikki Kovalainen, um piloto rápido, mas irregular, correndo pela afirmação. E, para quem gosta de pilotagem-arte, apreciar as peripécias Fernando Alonso com seu Renault. Pelo menos até o primeiro pit stop.

GP da Inglaterra 2008, corrida: Para inglês ver

Desculpem a redundância, mas o Grande Prêmio da Inglaterra foi uma corrida para inglês ver. A começar pela vitória soberba de Lewis Hamilton, marcada pela agressividade, coragem e muita perícia em um circuito encharcado, onde o desafio maior era se manter na pista.

O triunfo  de Lewis, além da volta  à liderança -- empatado em 48 pontos com Felipe Massa e Kimi Raikkonen – leva os britânicos a sonhar com a recuperação do título mundial que não saboreiam há 12 anos.

Esse nono GP do ano foi uma corrida em que cabem vários superlativos: emocionante, sensacional, perigosa e até cômica, por causas dos lances no melhor estilo acqualoucos.

E com tudo isso era fatal que a zebra surgisse galopante em Silverstone, desta vez consagrando a pilotagem de Rubinho Barrichello na pista molhada, que lhe valeu o 3º lugar e a volta ao pódio com o pouco competitivo Honda. Uma façanha que Rubinho não curtia desde o GP dos Estados Unidos de 2005, em Indianápolis.

Na verdade, a corrida em Silverstone foi uma prova de desafio a perícia, concentração e, mais que nada, ao controle emocional dos pilotos, posto à prova numa corrida disputada sob  garoa, chuva forte e amena e, até, com nesgas de sol. Daí ser fatal que também fosse um Grande Prêmio com recorde de rodadas e belas ultrapassagens. Só Heikki Kovalainen protagonizou sete ultrapassagens e foi vencido em quatro vezes.

Tecnicamente, a McLaren deu show e venceu a confusão que a Ferrari aprontou em Silverstone, principalmente no primeiro pit stop, o que foi definitivo para a vitória de Lewis Hamilton.

O boxe inglês trocou os pneus de Hamilton e Kovalainen, enquanto a Ferrari resolveu manter os mesmos pneus na segunda perna  da corrida. Resultado: os McLaren dispararam, Kovalainen, ultrapassou Raikkonen – que era segundo --, oferecendo pista aberta para Hamilton tocar para a  sua primeira vitória na F-1 em solo britânico.

A Ferrari, então, começou a andar para trás. Raikkonen perdia até 3 segundos por volta para a dupla inglesa, quando os engenheiros italianos resolveram fazer um novo pit stop, na volta 30 – o anterior ocorreu na volta 19.

Nessa altura dos acontecimentos, Felipe Massa, que largara em 9º, já estava fora de combate. Ele chegou a declarar, antes da corrida, que o mais importante era se manter na pista, mas já na primeira volta, na curva Abbey, ele rodou. Massa voltou em 17º, lutou contra a sua Ferrari – que insisto, deveria ter seqüelas da batida forte nos treinos – e marcou a sua corrida pelo recordes de rodadas num só grande prêmio: seis, entre saídas e escorregões, que não lhe permitiram que fechasse além de 13º.

Mas não foi só Massa que naufragou nas curvas e retas do inundado Silverstone. Mark Webber, segundo no grid, deu um show. Rodou, retornou á corrida, várias vezes, fez ultrapassagens e incomodou muitos pilotos. Nelsinho Piquet chegou a brilhar. Correu sempre no pelotão da frente, mas foi vencido pelo acquaplaning, na 35º volta, quando estava em 4º.   

Até os mais veteranos experimentaram vários caminhos paralelos á pista. Kimi Raikkonen foi um deles, Rodou em vários estilos, foi mais teimoso do que técnico e ainda fechou em 4º. Já Robert Kubica jogou fora a possibilidade de pontear sozinho o campeonato, quando era o 3º colocado. Porém rodou e atolou o seu BMW na 40ª das 60 voltas da prova e ficou 4º no campeonato, com 46 pontos.

O mais importante é que a temporada continua aberta e mais atraente do que nunca. O trio líder, Massa, Raikkonen e Hamilton, volta a reeditar o duelo do ano passado, mas agora com a ameaçadora companhia de Kubica e Nick Heidfeld, que agora tem 36 pontos.

GP da Inglaterra 2008, treinos: A zebra da vez

Ninguém esperava um grid com tantas  surpresas neste Grande Prêmio da Inglaterra. Está certo que a pole-position de um carro da McLaren já era esperada, mas o 1’21”049 de Heikki Kovalainen, que ficou duas posições à frente de Lewis Hamilton, não era bem o roteiro que os ingleses esperavam no treino classificatório em Silverstone.

Está certo que a culpa foi de Hamilton, que tinha a pole a sua mercê e errou nas duas tentativas de largar em primeiro. Mas o estranho é que essa situação deixa a McLaren muito mais preocupada do que feliz com a proeza de Kovalainen. Isso demonstra que o erro de Hamilton comprometeu a tática que o time inglês  tinha previsto para a corrida.

Mas, além desse inesperado fato para a McLaren, aconteceram outros insólitos: o segundo lugar de Mark Webber, com o razoável Red Bull, a boa reação de Nelsinho Piquet, que parte em 7º, e a surpreendente 9ª colocação de Felipe Massa.

A posição de Felipe na largada é, no mínimo, misteriosa. Fica evidente que não se trata de uma estratégia de largar com muito combustível. Essa hipótese, se foi assim pensada, seria um grande erro, porque não se entrega oito posições aos adversários  – 2 segundos atrás do pole position – apostando-se em tirar a diferença na corrida.

E mais: Massa não errou na volta rápida, o que me parece mais preocupante. A Ferrari pode ter apresentado alguma seqüela da forte batida que Felipe deu nos treinos livres de sexta-feira.

Repete-se com Massa um drama semelhante ao  da corrida do ano passado. Em 2007 ele foi para o fim do grid, após um problema eletrônico na largada. A sua opção, portanto  era a de acelerar e acelerar. E foi competente no que pôde fazer, chegando a executar  11 ultrapassagens  em 10 voltas, mesmo assim fechou em quinto.

Agora, o desafio é parecido, pois terá que se superar para manter a liderança na tabela do campeonato.

Já Lewis Hamilton vai viver um desafio diferente: o de recuperar o prestígio  junto ao seu povo. Toda a Grã Bretanha estará de olho nele nesta corrida, na esperança de ressuscitar a Lewismania. O movimento que os ingleses criaram, há exato um ano, na esperança de ver Hamilton campeão mundial, uma conquista sonhada há 12 anos, desde o título de Damon Hill, em 1996.

A primeira chance, que era a pole position, Hamilton jogou fora. Isso o leva a um difícil dilema: o de sair de faca nos dentes, arriscando muito, para vencer a corrida, ou mede a fogosidade e tenta marcar bons pontos para mantê-lo perto da liderança.

Tudo isso mostra que nem mesmo um bom ficcionista poderia elaborar um roteiro melhor  para  esse campeonato. Estamos no meio da temporada, na 9ª das 18 provas, e ninguém tem um favorito destacado.

Pois além de Massa, Raikkonen, Hamilton e Kubica , Heikki Kovalainen é a zebra de plantão, a juntar-se a bela briga do título deste ano.

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Lemyr
Martins

lemyr@uol.com.br

Jornalista especializado em automobilismo, já cobriu mais de 280 Grandes Prêmios in loco.