COLUNA LEMYR MARTINS
GP da Bélgica 2008: E agora, Domenicali?
O Grande Prêmio da Bélgica é sempre uma promessa de muita emoção não decepcionou nesta 13ª etapa da temporada 2008. Foi uma corrida que castigou energicamente os erros, premiou a coragem e a competência, com todos os ingredientes que fazem um espetáculo de Formula 1. E para seguir a tradição de Spa-Francorchamps as surpresas começaram na largada
Lewis Hamilton tinha a pole position, largou bem, soube se proteger contra Felipe Massa, mas errou a tomada da primeira curva na segunda volta e cedeu a ponta a Kimi Raikkonen. Já Massa, segundo no grid, preocupou-se em atacar Hamilton e esqueceu de Raikkonen, que não tomou conhecimento do jogo de equipe e tirou-lhe a segunda posição na tocada para cima de Hamilton.
Bom, nestes primeiro 14 km de corrida ia se decidindo três fatos importantes nesta espetacular temporada de 2008. A saber:
1 – A impressão de que a rodada de Hamilton foi motivada pela pressão da perseguição dos pilotos da Ferrari.
2 – Que Kimi Raikkonen partia para uma corrida de afirmação. Veio para mostrar que estava vivo para o campeonato e, pela forma como o GP da Bélgica vinha se desenrolando, ele tinha a grande chance de subir nos pontos e não ceder a primazia – já decantada – de primeiro piloto a Massa. Vencer o parceiro de time significava chegar em Monza, na próxima semana, no mínimo, dividindo as atenções da equipe com o brasileiro. Uma vitória em Spa seria o primeiro passo na direção do bicampeonato.
3 – Já Felipe Massa, mesmo dominando os primeiros treinos, sentiu que os McLaren estavam mais rápidos em Spa-Francorchamps. Percebeu, também, que se a pole-position havia sido impossível, a corrida seria muito difícil. E, ainda, tinha a confiabilidade do motor a assombrar-lhe, com o fantasma da explosão das unidades ferraristas nas duas útlimas provas. Somando tudo isso, resolveu correr para o campeonato, ou seja: mantendo-se ligado na prova, mas sem cometer erros e ficando à espera do desfecho -- ou das sobras -- da briga de Raikkonen x Hamilton.
Uma expectativa razoável e previsível desde a primeira volta.
Até a 40ª volta, tudo parecia certo e definido, com Raikkonen, Hamilton e Massa, nessa ordem, no pódio. Mas foi nas 4 finais aconteceu tudo aquilo que prevalecerá na lembrança dessa prova de Spa-Francorchamps.
Para começar Lewis Hamilton sentiu, após o segundo pit stop, que com os pneus duros o seu McLaren era melhor que a Ferrari e resolveu tocar pra cima do finlandês. E, para que o duelo fosse mais espetacular, começou a chover. Lewis, então, cheio de coragem, foi à luta, transferindo a pressão para cima de Raikkonen.
Hamilton dividiu curvas com o finlandês, ultrapassou-o, foi jogado fora da pista, criou um atalho, passou Kimi e devolveu a posição. Porém, em plena reta dos boxes, fez a passagem que tinha tudo para entrar no seu currículo de proezas.
Para o bem ou para o mal, dependendo do ponto de vista, foi o grande momento do grande prêmio. Instante em que Lewis Hamilton mostrou que tem garra para merecer a liderança do campeonato, enquanto Raikkonen, na tentativa da recuperação, desesperou-se. Forçou a barra, rodou e bateu forte.
Um equívoco que promoveu Massa ao segundo lugar na bandeirada e pode ter sido o adeus do finlandês ao campeonato. Agora Kimi caiu para 4º lugar, com 57 pontos, atrás de Robert Kubica, 58.
E não é que, mais de duas horas após a corrida, a espetaculosa ultrapassagem de Hamilton acabou custando-lhe a vitória? Os comissários acharam que a devolução de posição não foi suficiente, pois ele ainda teria obtido uma vantagem ilegal na disputa da freada da Source.
O comportado Massa, então, recolheu as sobras da disputa entre seus dois rivais – ou seja, os dez pontos da vitória – e agora está com 72 pontos, apenas 2 atrás de Hamilton.
Agora, cabe perguntar: a Ferrari vai concentrar-se em Massa ou vai seguir o discurso do chefão Stefano Dominicali, para quem é o cronômetro que aponta o privilégio? Pois, se for assim, com ou sem punição, Lewis Hamilton pode preparar a festa.
GP da Bélgica 2008, Treinos: Sol e chuva...
O grito gutural de Lewis Hamilton ecoou vibrante dentro de seu capacete, no momento em que o engenheiro comunicou que ele, com o tempo de 1’47”338, ele havia cravado a pole position do Grande Prêmio da Bélgica.
Hamilton bateu Felipe Massa por 340 milésimos. A diferença é significativa, mesmo levando em conta que a volta seja de 7 km. Essa vantagem parece estar na melhor adaptação dos McLaren aos pneus duros em Spa-Francorchamps, ratificada pelo 3º lugar de Heikki Kovalainen sobre Kimi Raikkonen que larga em 4º.
Nick Heidfeld, 5º, foi o melhor da BMW, e Fernando Alonso, em 6º, mais uma vez demonstrou competência na classificação – que em geral não ratifica na corrida.
Esse é o grid de largada, sem maiores surpresas, do GP da Bélgica. Sem nenhuma zebra, é verdade, mas com muito suspense para o momento da largada. A primeira atração será conferir o comportamento de Massa e Hamilton.
O brasileiro, seguramente, vai tentar um bote para ultrapassar o inglês no pulo, de forma semelhante a que vez em Hungaroring. Mas também é evidente que Hamilton deve estar preparado para frustrar as intenções de Massa. E aí Hamilton poderá contar com o auxílio de Kovalainen que já ciente e conforme da missão do jogo de equipe para ajudar o seu primeiro piloto.
E se todas as largadas da F-1 há o natural suspense, a do GP da Bélgica sempre faz todo mundo prender o fôlego. Afinal, trata-se de uma partida em que as luzes ficam a menos de 200 metros do funil da curva em cotovelo, onde o espaço é disputado roda com roda.
Fugir dessas encrencas na largada -- inclusive o pole position – é o primeiro desafio dos pilotos em Spa-Francorchamps, onde é comum ver várias largadas anuladas. Já houve provas em que foram necessárias três partidas.
Também é uma pista que dá um verdadeiro nó na cabeça de engenheiros e estrategistas. Os seus sete quilômetros são ecléticos, com curvas e retas rapidíssima e trechos lentos em S e curvas fechadas. Portanto, o acerto aerodinâmico do carro (principalmente o grau de ataque do aerofólio traseiro) fica metade para os engenheiros e metade para o gosto do piloto.
A hora do pit stop é outro desafio, que exige olho no consumo, precavidos com a possibilidade do safety car, um elemento que pode decidir a corrida, tanto contra como a favor
Evidentemente, tudo isso se a prova for disputada com tempo bom.
Porque se chover, essas dificuldades se multiplicam pelo fator risco, a sorte e o imponderável entram no jogo e a imprevisão é total. Afinal, Spa fica na região das Ardenas belgas, ondulações onde a variação entre o sol aberto e a chuva podem ocorrer em minutos ou, ainda, acontecerem ao mesmo tempo. Já houve Grandes Prêmios com chuva na parte alta do circuito e sol na área dos boxes.
Essas são as atrações da 13ª etapa da temporada. Uma prova para os nervos e a competência de Felipe Massa e Lewis Hamilton, candidatos principais ao título de 2008. Uma corrida onde ambos estão proibidos de errar e na obrigação de serem brilhantes. O ideal, para ambos, é vencer, só que o mais importante é marcar o maior número de pontos, porque em Spa-Francorchamps, não está proibida a surpresa.
E é pensando nessa possibilidade que Raikkonen e Kovalainen, respeitáveis coadjuvantes desta corrida, devem estar tramando as formas de atropelar os favoritos.
O desafio da Eau Rouge
Não poderia haver um circuito melhor para o 13º round dos duelos Massa x Hamilton e Ferrari x McLaren, do que o seletivo traçado de Spa-Francorchamps, local do Grande Prêmio da Bélgica, dia 7 de setembro.
Afinal, a pista belga, de 6,976 quilômetros de extensão, tem os aclives e declives mais acentuados dos circuitos da F-1, exigindo freadas drásticas e tem a alta média de 214 km/h. Além disso, tem duas curvas muito particulares: a La Source e a Eua Rouge.
A Source é uma curva fechadíssima e a mais próxima da largada dos atuais traçados que compõe o calendário da categoria. Neste cotovelo travado, já aconteceram muitas largadas confusas, desastradas e anuladas. A do GP da Bélgica de 1998 ficou na história por envolver nada menos que 13 carros, num rebuliço causado por Michael Schumacher e Mika Hakkinen.
Mas é a Eau Rouge, na opinião unânime dos pilotos, a curva mais traiçoeira, difícil e prazerosa de vencer. No jargão da pista, ela separa os bons pilotos dos gênios. Localizada no vértice entre uma descida e subida íngremes, esse trecho não permite o mínimo erro e, vencê-lo corretamente é um desafio excitante, repetido nas 44 voltas da corrida.
O italiano Riccardo Patrese, com 256 GPs de F-1, afirmava que “suas bolas subiam na garganta” quando o carro atingia o ângulo da Eau Rouge.
Mas nada melhor do que repetir o relato do tricampeão Nelson Piquet sobre a sensação que essa famigerada curva provoca nos pilotos:
“Olha, para começar, a força G se manifesta de várias maneiras na Eua Rouge. Quando se atinge a parte mais baixa, sente-se uma pressão fantástica comprimindo a cabeça. A bunda cola no banco e dá uma esmagada. É um ponto onde todas as forças atuam, te comprimem na vertical e se deslocam para a lateral direita.
Quando se toma a curva a força muda para a esquerda. Parece que há uns 100 quilos sobre a cabeça. Na subida, a força lateral e a vertical se invertem, passando para cima. O corpo fica leve, a gente parece levitar, empurrado por uma ação estranha, que dá a sensação de que vai ser cuspido do carro.
Já, subindo de pé no fundo, o carro fica solto, parece uma pena. A Eau Rouge --, resume Piquet --, é uma curva única, feita em segundos, mas o piloto experimenta as sensações de todas as curvas do mundo. A força G atua na lateral para a esquerda, direita, vertical, para cima e para baixo. Ufa! ”
Ricardo Zonta, Jacques Villeneuve, Jarno Trulli e Giancarlo Fisichella foram alguns pilotos que destruíram seus carros na Eau Rouge entre 2000 e 2005. Lá, ainda, foi o ponto exato em que morreu o alemão Stefan Bellof, piloto da Tyrrell, em 1985.
É neste circuito, e com todas essas dificuldades, que Massa e Hamilton vão se defrontar no próximo domingo. Um cenário apropriado para um grande desafio, afinal são os eles mesmos que afirmam que a Eau Rouge separa os pilotos dos gênios. Ou, ainda, o campeão do vice.
A vez de Massa
A declaração de Stefano Domenicali, chefe esportivo da Ferrari, de que “se necessário, Kimi Raikkonen deverá ajudar Massa no restante do campeonato”, nem precisava ter a ênfase apocalíptica dada pelo engenheiro para ser lógica.
Domenicali apenas cedeu à pressão da mídia esportiva italiana, que exigia uma decisão da Ferrari. Uma definição tomada mais por temor de Lewis Hamilton, que tem a total atenção da McLaren e 70 pontos, 6 a mais do que Massa e 13 de Raikkonen, a seis corridas do fecho do campeonato.
Na verdade só o título redimirá – ou fará esquecer – os pecados técnicos que a Ferrari cometeu nesta temporada. Os equívocos na relação de marchas do carro de Felipe Massa e a perda de pressão do motor de Raikkonen marcaram a desastrosas estréia da Ferrari na Austrália.
Somem-se a essas barbeiragens a errônea estratégia da corrida de Mônaco, com um pit stop mal calculado para Massa, e o stop and go de Raikkonen, por terem demorado demais na colocação dos pneus no grid, além dos estouros dos motores na Hungria e em Valência, para sentir o tamanho do prejuízo dos pilotos do time italiano.
Também é verdade que Felipe e Kimi tiveram seus vacilos. A rodada de Massa em Sepang e a batida de Raikkonen no Canadá foram comprometedoras. Mas, no cotejo Massa x Raikkonen dentro da Ferrari, a vantagem, até aqui, é francamente favorável ao brasileiro.
Eis os números: Massa tem 4 vitórias contra 2 de Raikkonen. Felipe também ganha com o mesmo placar nas poles postion e, em termos de posição do grid, a vantagem é de 8 a 4. Felipe, ainda, é quem recebeu mais vezes a bandeirada à frente: 7 a 5.
Agora, uma curiosidade. Este ano, Raikkonen marcou 7 voltas mais rápidas e Massa, apenas uma. E esse fato define muito bem a diferença no estilo de pilotagem dos botas da Ferrari.
Felipe é mais polido do que Kimi, detalhista e incansável no acerto dos carros. Ele amadureceu a condução, transferindo para os grandes prêmios todo o aprendizado de milhares de quilômetros percorridos como test driver.
Raikkonen é feito de outro barro. Rapidíssimo, tem pé pesado e acelerar é o seu único departamento. Ele não têm a sensibilidade de Massa no aproach do carro.
Um bom exemplo de estilos, que não é mera coincidência: Ayrton Senna, rei da pole position, é apenas o 12º piloto em voltas mais rápidas, com só 19 em 161 gps e 42 vitórias. Já Nigel Mansell, o Leão, é o terceiro do mundo com 39 voltas mais rápidas e 31 vitórias, em 187 gps.
É o próprio Stefano Dominicali quem admite que Raikkonen não está contente com o modo que a Ferrari reage nas entradas das curvas. “A F-2008 não atende a agressividade dele e isso atrapalha a sua performance. Portanto, cabe a nós dar as condições a Kimi”.
Por tudo isso, não é nenhum favor a Ferrari passar a dar preferência ao brasileiro nessa reta final do campeonato. É a vez de Felipe Massa. Afinal, ele abdicou da vitória em Interlagos, no ano passado, para dar a Kimi Raikkonen o título de campeão de 2007.
A Ferrari decide. É somar ou morrer dividido.