A vida no fundo do grid
Uma frase emblemática sobre a saída da Super Aguri da F-1 foi dita por Bernie Ecclestone. Questionado sobre como seria a categoria sem o time japonês, respondeu com ironia: “Haverá mais espaço nos boxes...” Será que as equipes pequenas não têm importância para a F-1? Diante da resposta, é evidente que ela não está nem aí para o que acontece no fundo do grid.
Eu vivi de perto o fim de uma equipe na F-1 quando estava na Prost. Posso dizer que a decadência de um time é como uma bola de neve. Mesmo as menores equipes precisam de orçamento próximo a 80 milhões de dólares. Assim, qualquer calote de patrocinador ou saída de um investidor pode pôr tudo a perder, como foi no caso da Aguri, da mesma forma que vi na Prost. Sem dinheiro, é impossível construir um carro de ponta. E sem equipamento competitivo não se alcançam resultados, o que afasta patrocinadores que tragam dinheiro.
Era esse nosso caso na Prost em 2001, que acabou tendo a falência decretada. O carro já não nasceu bom, e sem recursos não podíamos consertar os problemas crônicos do chassi. Não havia dinheiro para o “básico”: nem direção hidráulica o carro tinha, porque era caro. Guiar duas horas aquele carro de forma competitiva era quase impossível. Hoje, a situação das equipes menores é mais dramática, porque a principal área para desenvolvimento de um F-1 é justamente a parte aerodinâmica, que requer altíssimo investimento, com horas e horas no túnel de vento.
Tanto dinheiro é usado para fazer projetos que em sua maioria são jogados no lixo, porque não apresentam resultado. Quer um exemplo? As equipes desenham umas dez asas dianteiras para encontrar uma solução que funcione. E o que fazer com as outras nove que tiveram tanto dinheiro e tempo investido? Nada. Isso, claro, quando se encontra a tal asa que funciona, porque há casos de projetos que simplesmente não melhoram um centésimo de segundo sequer.
Mas por que a equipe pequena não consegue patrocínio se suas cotas de investimento são menores e o espaço no carro, maior? O problema nem é a falta de visibilidade por não andar na frente. Os patrocinadores evitam estar associados à imagem de “fracasso” ou de “perdedores”. Por isso, a maioria prefere um pequeno espaço em uma equipe de ponta em vez de uma cota grande nas equipes menores.
Com tantos problemas, por que os pequenos insistem na F-1? Pois eu acho que eles são fundamentais. Primeiro, porque ter um azarão é muito saudável para o esporte. Ajuda a criar momentos incríveis, como a própria ultrapassagem do Takuma Sato em cima do Fernando Alonso no Canadá no ano passado. Imagine só um Super Aguri passando um McLaren! Além disso, as equipes menores servem de “estágio” para que grandes talentos possam ser descobertos na F-1. Fernando Alonso e Jarno Trulli andaram de Minardi, Kimi Raikkonen e Felipe Massa de Sauber, Nick Heidfeld de Prost, Rubens Barrichello de Jordan e o próprio Senna iniciou sua carreira na discreta Toleman.
Por isso, tenho dificuldade em responder se as equipes pequenas são importantes para F-1. Acho que é uma questão do ponto de vista. Deixo então você tirar sua própria conclusão.



