COLUNA LUCIANO BURTI

Carro ou moto, eis a questão

Muita gente me pergunta como é a emoção de guiar um F-1 a mais de 350 km/h. É difícil descrever a sensação que um carro desses provoca. É raro encontrar algo que gere a mesma adrenalina. Mas uma opção bem interessante é aquela que Michael Schumacher está sentindo na pele (às vezes, literalmente, por conta de uns tombos): andar em uma moto de competição.

Sou um fanático também por máquinas de duas rodas e posso dizer que em alguns momentos a emoção é até mais intensa que pilotar um F-1. Há quem não entenda o que leva um heptacampeão de F-1 a correr esse risco. O que as pessoas esquecem é que Michael é um corredor nato e precisa achar algo que o ajude a pôr para fora toda sua competitividade e a extravasar a necessidade de velocidade que ele certamente ainda sente bastante viva.

Não é nada fácil pular de um carro para uma moto. Ou vice-versa – que o diga Valentino Rossi, que era em média 2 segundos mais lento por volta quando fez testes com a Ferrari, em 2004. Por isso, acho que Michael vai demorar um pouco para apresentar bom desempenho. Mas sei que ele só vai se dar por satisfeito quando estiver pilotando de forma competitiva.

O principal desafio nem é a velocidade: carro e moto chegam próximo dos 350 km/h. A maior diferença reside na freada, pois o F-1 tem muita pressão aerodinâmica, conseguindo bastante aderência. E tem quatro pneus (logo, muito mais área de contato). Dessa forma, o piloto freia bem próximo da curva.

Outra diferença: as motos entram um pouco mais cedo na curva e desenham uma linha mais constante. Já o carro faz a trajetória mais reta possível: freia forte, entra de uma vez e retoma a aceleração o quanto antes. Aliás, neste momento, há outra diferença, pois nas motos você deve ser progressivo. Todo cuidado é pouco para não perder a tração, enquanto no carro não existe dificuldade em “destracionar” e sair de traseira e, por isso, a aceleração pode ser mais agressiva.

Por incrível que pareça, o risco de um acidente fatal é mais alto com carros, pois o piloto está preso no conjunto que bate com toda a força em um muro e sofre uma enorme desaceleração. Já nas motos, ao cair, ele vai desacelerando aos poucos. Ao mesmo tempo, a chance de se machucar, ainda que “levemente”, é sempre maior, por isso lesões nos braços e pernas, por exemplo, são mais freqüentes nas motos.

Foi justamente por essa imagem de maior exposição aos acidentes que minha carreira tomou rumo diferente. Aos 15 anos, eu queria ser piloto... de moto!

Cheguei a treinar, mas meus pais não gostaram nada da história. Foi aí que surgiu a idéia de comprar um kart e ir para pista. Mal sabia minha mãe que essa história de correr de carro iria tão longe!

Mesmo tendo redirecionado minha vontade, continuo achando a sensação da moto na pista incrível e muitas vezes mais intensa até que um F-1. Quando você raspa o joelho no chão, sente o asfalto e essa noção de perigo aumenta a dose de adrenalina. E, você sabe, piloto é viciado nessa sensação.

Na Europa, as provas de MotoGP são sucesso de público. Na Espanha, o fanatismo era superior ao da F-1 até o primeiro título do Fernando Alonso. Mas a F-1, como esporte global, é mais bem-sucedido e tem a seu favor um detalhe: o fato de o carro ser bem maior, com mais espaço para publicidade, desenvolvendo assim um negócio com maior potencial para o lado comercial, fundamental para qualquer esporte.

Sem falar que o carro é sempre uma de nossas maiores paixões. Ainda bem que esse caso de amor permite umas “escapadinhas” de vez em quando com as motos. Afinal, o mais atraente para mim é sempre a competição, não importa em quantas rodas...

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Luciano
Burti

site@lucianoburti.com.br

Ex-piloto de Fórmula 1, atualmente disputa o campeonato brasileiro de Stock Car V8.