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Os herdeiros da fama

13.11.09 - Por Lemyr Martins

“Espero que, em pouco tempo, todos lembrem de mim como o Bruno e não por causa do meu sobrenome que, não nego, me ajudou a fechar alguns contratos no começo. Mas, para ser um piloto se precisa de talento natural, vamos ver do que sou capaz e do que a equipe tem condições de fazer”. Palavras de Bruno, sobrinho de Ayrton Senna, ao ser apresentado como um dos pilotos da Campos, que estreará no próximo ano.

Certamente essa não é uma frase nova em se tratando de um herdeiro de campeão, mas parecidas foram as declarações de Christian (filho de Wilson Fittipaldi), Michael (Mario Andretti), Paul (Jackie Stewart), Gary e Geoff (Jack Brabham), Jacques (Gilles Villeneuve), Hans (Von Stuck), Alberto (Antonio Ascari), Damon (Graham Hill), Thomas (Jody Scheckter) e, mais recentemente, Nico (Keke Rosberg) e Nelson Ângelo (Nelson Piquet).

Todos eles se beneficiaram, ou pelo menos ativeram alguma facilidade de se iniciarem na carreira, embora se apressem em anunciar uma personalidade sem dependência. Muito razoável da parte de Bruno, afinal ser sobrinho de Ayrton Senna é uma honra, mas carregar o carisma do grande campeão não é um fardo leve, como alertou Ross Brawn, dono do time que Bruno fez ótimos testes no passado. “Ser um Senna ajuda, mas também pesa muito”

Resumindo: os herdeiros da pista querem repetir os feitos dos seus ascendentes ilustres, mas, sem exceção, fogem do incômodo parâmetro que os ligam à fama do parente. 

Os descendentes que mais se incomodaram com a herança genética de campeões foram Damon Hill e Jacques Villeneuve. Na sua primeira corrida no Canadá, no circuito Gilles Villeneuve, o piloto abriu com uma advertência: “Meu nome é Jacques, estou à disposição de vocês, para falar de mim, mas aviso que Gilles Villeneuve é outro piloto, é meu pai sobre quem eu não comento”. Damon Hill tampouco assumia os eitos profissionais com o pai famoso: “Não sei se há semelhança entre meu estilo e o do meu pai. Só os jornalistas da época dele podem julgar”.
    
O cientista Renato Zamora Flores, professor de genética médica da Universidade do Rio Grande do Sul, ensina que geneticamente o indivíduo herda, em média, 50 % das características do pai e 50% das da mãe.  Isso não impede, porém, que ele receba toda a carga da competência mental do pai para ser piloto, sem registrar o que seria, em tese, o lado de pouca habilidade da materna.

No caso dos pilotos de F-1, o cientista alinha cinco itens que são transmitidos de pai para filho, mesmo que esses valores não se manifestem não sendo provocados: velocidade de raciocínio, velocidade de transmissão do impulso nervoso, capacidade de concentração, resistência física e motivação. São virtudes indispensáveis aos pilotos competentes da F-1. A velocidade de transmissão do impulso nervoso é um dom com 80% de transferência certa para o descendente. Uma característica latente na herança genética tanto de Damon Hill como de Jacques Villeneuve.

Na psicologia há indícios que explicam a resistência de alguns pilotos – ou todos – de tentarem separarem-se dos ancestrais da pista. Damon e Jacques perderam o pai tragicamente. Graham Hill morreu num acidente aéreo após um treino de F-1, em 1975. Gilles Villeneuve faleceu nos treinos livres em Zolder, no GP da Bélgica de 1982. Por isso, mesmo inconscientemente, eles evitavam falar sobre comparações ou projeções que tivessem seus pais pilotos como parâmetro. A psicologia cataloga esse comportamento como “contra-fobia”, ou seja: desafiam a morte para não sentir medo dela.

Não há dúvida de que os pilotos são neurológicos e cientificamente diferentes, e fazem questão de alardear essa diferença, extraindo prazer de uma atividade que provoca temor e admiração m outras pessoas e, por isso, querem ser únicos.

Mesmo que carregando sobrenomes como Piquet e Senna. E quem garante que essa não será uma atitude de Dudu ou Fefe Barrichello daqui a alguns anos. 

Comentários

barros - 09.01.10 @ 19:23

sempre li roportagens suas sobre a F1, alias é talvez o melhor do Brasil, tirando reginaldo leme de Tv, nao tem ninguem com tanto conhecimento e credibilidade nesse assunto, tivemos grandes pilotos, emerson, pace, piquet, senna, rubinho, moreno, gugelmin, boesel, wilson e Christian, massa, chico serra,entre outros, nelsinho, agora o bruno e lucas, gostaria que nelsinho voltasse afinal o que ele fez, mandaram ele se matar, e a imaturidade, etc, fizeram dele o pato, quando sabemos que na F1, essas coisas sao normais, muito praticadas, com a volta de shummy vamos ver muitas palhaçadas, espero que 5 pilotos brasileiros estejam no grid, vai ser demais, vamos torcer, espero ver rubinho campeao este ano.

Masahiro Ide - 15.11.09 @ 19:54

Por mais que estes jovens herdeiro queiram mostrar que buscam um objetivo com as suas proprias imagens os ancestrais serao sempre lembrados. Futuramente quem sabe vamos ouvir (estou aqui gracas ao meu pai ou ao meu tio). Dentre estes herdeiros por enquanto o unico campeao mundial de formula 1 que e filho de campeao mundial de formula 1 e Damon Hill. Sr Lemyr, e sempre um prazer ler a coluna de quem realmente entende do assunto. Abracos

Luiz Sergio - 14.11.09 @ 12:43

Bruninho e seu novo brinquedo. Fico imaginando: em uma sala de operação o paciente é apresentado ao médico que vai fazer sua operação, esse médico não cursou 90% das aulas de medicina, mais assim mesmo vai fazer a cirurgia??? Você querendo comprar um apartamento em um novo projeto de edifício e é apresentado ao engenheiro que vai fazer edifício, mais que não assistiu a maioria das aulas, mais assim mesmo se sente capaz??? Dunga o técnico da seleção brasileira, convocando um jogador para titular da seleção, que nunca jogou em um time da primeira divisão, jogou o ano passado na segunda divisão e esse ano praticamente não jogou??? ???????????????????????????????????????
Quem Escreve

Lemyr Martins

Jornalista especializado em automobilismo, já cobriu mais de 280 Grandes Prêmios in loco.
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